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autores - Marijke de Koning

[Entre Margens]

Afeto inclusivo: abrindo pórticos de espiritualidade?

| 13/01/2026

Ainda escrevo.
Não porque alimente aspirações a ser lido,
Mas porque há memórias que precisam ser
escritas para ganharem coerência
e verdade dentro de nós.
(In: José Eduardo Agualusa, Tudo sobre Deus. Quetzal 2025, p.186).

 

Lembro-me de ter escrito em 2010 um artigo sobre o par conceptual afeto inclusivo,  propondo usar esta formulação como um “bem” mais operacional e humilde do que a grande palavra AMOR. Formulei uma definição: “O afeto inclusivo é constituído por um movimento de expansão de afeições em que nos deixamos aspirar por desejo e decisão nossa, para círculos cada vez maiores de afeto, por necessidade do nosso próprio ser-em-devir e o de outros seres humanos a nossa volta”.

A dimensão do agir aparece de uma forma mais explícita no par conceptual afeto inclusivo, do que no conceito Amor. Esta dimensão explícita do agir permite formulá-lo em termos de um “objetivo” a alcançar, em práticas pedagógicas, no trabalho de cuidar-de-si e de outras pessoas. Permite potenciar ao máximo o verbo incluir, aumentando o volume de pessoas oriundas de vários espaços, integrando estes novos afetos no afeto já existente, que se vai reconstruindo e complexificando, podendo se tornar cada vez mais inclusivo, permitindo abrir pórticos entre espaços diversos. Permite também abrir pórticos de espiritualidade?

A clarividência é um atributo feminino.
Todas as mulheres são profetisas.
(In: José Eduardo Agualusa, Tudo sobre Deus. Quetzal 2025, p.130)

Numa entrevista com Baptista-Bastos, no programa Cara a Cara (SIC, Janeiro 2001), Maria de Lourdes Pintasilgo formula como vê este abrir de pórticos para todos e todas, tanto para aqueles que “acreditam no céu”, como para aqueles que não acreditam. Já não estamos no tempo da grande dialética, mas, dizia “hoje estamos noutro tipo de pensamento: (…) as fronteiras entre as coisas não se põem já como fronteiras entre cada realidade e o seu contrário, mas põem se muito mais como ligações, em que tudo é um continuum. Há como uma continuidade na forma de ver e dizer as coisas. (…) o que é comum a todos nós (…) é a esperança”. Falou uma profetisa?

‘Huub Oosterhuis, teólogo e poeta neerlandês, situa-se numa perspetiva de espiritualidade de esperança (cristã) em que o “eu” se transcende na relação com o “tu”.’ Foto: Wikimedia Commons.

Huub Oosterhuis, teólogo e poeta neerlandês, situa-se numa perspetiva de espiritualidade de esperança (cristã) em que o “eu” se transcende na relação com o “tu”. No seu livro “Tu que me fazes ser eu” (Jij die mij ik maakt. Kampen, Ten Have, 2008), escreve sobre como tu e eu se podem inspirar mutuamente e trazer mais qualidade às interações entre pessoas que se cruzam nos diferentes espaços onde se vão encontrando.

Ou com as palavras  do filosofo neerlandês Otto Duintjer: “O Espírito que penetra tudo, antes e além de todos os quadros de referência estabelecidos, é o espaço onde todos os seres conscientes convergem e estão ligados numa Consciência anterior”(In: DUINTJER, Otto 1988, Het belang van nieuwe spiritualiteit in een expansieve maatschappij (A importância de uma espiritualidade nova numa sociedade expansiva). Kampen: Kok Agora: 25). Escrevendo sobre a importância da espiritualidade numa sociedade moldada por dinâmicas de “produção”, em que “as normas desvanecem e perdem a sua força inspiradora”, Duintjer sublinha “o interesse humanitário da espiritualidade e da experiência espiritual” (Ibid.:23). O mundo atual é, segundo ele, tratado como se fosse “um enorme buraco no solo, uma realidade tratada como coisa de onde se pode extrair algo, para consumir física- ou mentalmente” (ibid.:36). Refere a necessidade de haver “práticas espirituais autênticas” em que se trata de aprendizagem no sentido de “limpeza, física, emocional e espiritual” para criar abertura e espaço para que “o coração se torna capaz de partilhar horizontalmente, de cooperar com quem encontra no seu caminho” (Ibid.: 25- 26).

A polis de Hannah Arendt é por definição um espaço de ligar e religar os seres humanos uns aos outros. Um espaço de transcendência porque a pessoa tem de se transcender a si própria para ir ao encontro do outro. Gostava de recuperar para o espaço público da polis a palavra religar da dimensão religiosa. Recuperar também a palavra transcendência que o religar implica.

Tjeu van den Berk, afirma que no pensamento teológico clássico “transcendência era um espaço estático além de todos os espaços, um espaço sobrenatural” (Berk, Tjeu van den (2007:8).  “Voorwoord” (Prefácio). In: Ina Brouwer et al (Red.). De stille kracht van transcendentie. Wijsheid in beelden, verhalen en symbolen. (A força silenciosa da transcendência Sabedoria em imagens, histórias e símbolos). Amsterdam: Uitgeverij SWP. Recupera a palavra transcendência em termos de um espaço de passagem, de transição. Uma transcendência horizontal. Espaço ao qual podemos abrir a porta a qualquer momento para entrar numa dinâmica de ir além do já definido e conhecido. Importa mobilizar a força silenciosa da transcendência que configura por definição a polis no imprevisível resultado do que pode acontecer quando seres humanos querem pensar, conversar e agir, usando a “tensão entre individualidade e solidariedade como uma fonte da sua criatividade ética” (May, Rollo (1972). Power and Innocence. A Search for the Sources of Violence. New York: A Delta Book).

Ou será apenas …

Talvez seja apenas isso o que Deus
pretende de nós, se é que deseja algo:
que voltemos a ver como no princípio —
antes da linguagem.
Antes do medo.
Antes da culpa.
(In: José Eduardo Agualusa, Tudo sobre Deus. Quetzal 2025, p.96). 

Um amigo meu neerlandês e eu introduzimos, há décadas, uma tradição na nossa comunicação que nunca mais abandonámos: começar por descrever de uma forma breve e instantânea o nosso Sitz im Leben (a situação em que nos encontramos naquele momento). Com o objetivo de fazer cruzar os nossos caminhos numa perspetiva de transcendência, de um ir além do já conhecido. Criando um espaço-entre em que, através da partilha naquele preciso momento,  conseguimos incorporar e aceitar as nossas vulnerabilidades, o não controlável inerente ao que é mais importante.

Um espaço-entre em que conseguimos, no mundo de hoje, transcender a linearidade do Chronos, o tempo prático, reduzido a um tempo económico, que organiza as nossas agendas e não deixa espaço para o Kairos, o tempo da inspiração, o tempo do entre, do intervalo  “entre o passado e o futuro” como dizia Maria de Lourdes Pintasilgo numa conferência ao Graal em 1982, o tempo do hoje “onde se desvenda o sentido e onde se cria o sentido; movimento duplo”. Ou com as palavras do Papa Francisco:

(…) o tempo é superior ao espaço. (…) dar prioridade ao tempo é ocupar-se mais com iniciar processos do que possuir espaços. (…)
Trata-se de privilegiar as ações que geram novos dinamismos na sociedade (…).
[In: Evangelii Gaudium, p. 158 (2013)]

No dia 9 de dezembro, dia em que finalizei a escrita deste texto,  estive  a assistir online à Sétima sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA-7) numa sessão com o tema: Soluções para um planeta resiliente. Transformar conhecimento em ação.

Tive conhecimento deste evento através do meu cunhado Arthur Eijs, presente em Nairobi ao longo dos anos como Co-chair nas várias Assembleias e a quem pedi que escrevesse um artigo para 7Margens sobre esta temática.  Um dos oradores, Sir Robert Watson, Assessment Co-chair, abriu a sessão de hoje com as seguintes palavras: “The time of action was yesterday, but we need to act now.” (“O tempo de ação foi ontem, mas precisamos de agir agora”).

Arthur Eijs  (lado esquerdo)  com Sir Robert Watson (lado direito). Foto: DR

Uma outra oradora referiu a necessidade de “Inclusive decision making” (“tomada de decisão inclusiva”).  Será possível em conjunto decidir transformar em ação, agora, os muitos conhecimentos existentes sobre o “green wishing” (desejos verdes)?  Um sonho? Um sonho:

Sem um sonho a sociedade desfaz-se,
as pessoas perdem-se
e perdem se umas às outras.
Quem é que pode viver num ‘vácuo ético’,
sem aferição e sem utopia?
(Oosterhuis, 2008:59).

Às vezes penso como seria interessante partilharmos com os nossos amigos e amigas (para quem a «religião» deixou de fazer sentido, mas para quem o cuidar do planeta é um ato espiritual) algumas das imagens extraídas de “textos sagrados” para as tornar mais visíveis nos espaços demasiado secularizados das nossas vidas. Talvez possa contribuir para aumentar a consciência da necessidade absoluta do afeto inclusivo. E da sua dimensão espiritual. E assim, abrindo pórticos de espiritualidade, cultivar uma perspetiva de transcendência (pelo menos) horizontal. Numa Aurora onde se projeta uma Luz de Salvação, até de preferência com minúsculas, luz de salvação iluminando o húmus desta terra.

E assim, conseguir existir para encontrar a Luz, porque:

Milagre é existir
como quem acende a luz,
sem saber porquê.
(In: José Eduardo Agualusa, Tudo sobre Deus. Quetzal 2025, p.69)

(Com gratidão às minhas amigas Lucy Wainwright e Luísa Falcão por terem  verificado o meu “Português de estrangeira”.)

 

Marijke de Koning, neerlandesa,  trabalhou como pedagoga social e educadora de adultos, predominantemente no contexto do Graal, movimento internacional de mulheres enraizado na fê Cristã.

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