Afinal, há vizinhos em Israel e em Gaza

| 12 Out 2023

Era quase meia-noite. Estava prestes a desligar a televisão e o computador. Tinha atingido (minto: tinha ultrapassado) o limite de processamento de más notícias… “Más” é eufemismo. Entre a dor, a compaixão, a revolta, a incompreensão e o sentimento de impotência que me invadiam, fiz ainda uma última ronda pelos jornais – defeito de profissão – e eis que um raio de luz irrompeu na noite escura. Uma repórter do La Croix tinha recolhido o testemunho de um jovem israelita judeu que vive perto da fronteira com Gaza.

Dvir, de 28 anos, que tem visto rockets a cair ao seu redor, um dos quais “muito perto” da casa onde vive, dizia assim: “A coisa mais importante que gostaria de assinalar é que vejo à minha volta muita solidariedade inter-religiosa. Beduínos, muçulmanos, membros da comunidade judaica e de todos os tipos de religião no nosso bairro fazem aquilo que podem para entreajudar-se.”

Esbugalhei os olhos, julgo que até sorri. Tinha de ler até ao fim. Já passava da meia-noite, mas assim como assim, era impossível adormecer depois do cenário apocalíptico a que tinha estado a assistir durante as horas anteriores.

Cobertura televisiva da guerra em Israel. Print screen CNN

Uma imagem da cobertura televisiva da guerra em Israel, a partir da transmissão da CNN internacional. O testemunho escrito no jornal La Croix contrastava com a violência dos ataques.

 

Dvir continuava: “Tenho escutado pessoalmente muitas histórias incríveis de judeus e muçulmanos que salvaram a vida uns dos outros nos últimos dias e espero ouvir cada vez mais histórias como estas. É claro que vemos muito o contrário: divisão entre as pessoas, o que é uma tragédia. Mas com os meus próprios olhos vi uma solidariedade impressionante entre as religiões, e espero que isso nos permita superar a situação e pôr fim ao conflito.”

Pensei que não, mas estava a ler bem. Depois do testemunho de Dvir, o mundo voltava a fazer algum sentido e parecia um pouco menos assustador.

Não compreendo – não posso compreender – o que se passa no Médio Oriente. Não ouso tomar partidos, não tenho a solução para o conflito. Mas ouso achar que compreendi as palavras deste jovem israelita e que vislumbrei nelas um caminho para a paz. Um caminho a ser traçado pelos jovens e pelo diálogo inter-religioso.

Apesar de o conflito israelo-palestiniano se arrastar há décadas, a maioria dos jovens que ali vivem, tal como Dvir, só pode ser educada para a paz e aprender que os conflitos se resolvem através da negociação e deliberação.

Mais: jovens como Dvir têm a capacidade de ver o “outro” como todos deveríamos vê-lo – não como um inimigo, mas como um vizinho, com o qual haverá sempre algo em comum, por maiores que sejam as diferenças. Sabem que tanto eles como os “outros” têm direito a existir com dignidade. E sabem que as vítimas do lado de “lá” têm de ser também as vítimas do lado de “cá”. E vice-versa.

Sabem que, acima de tudo o resto, só pode estar o valor da vida humana.

Esse é, também, o princípio que sustenta as três principais religiões monoteístas – islão, judaísmo e cristianismo – para cujos crentes aqueles territórios têm sido fonte de divisões e confrontos. (Não esqueçamos que também vivem cristãos em Israel e na Palestina, embora sejam cada vez menos e muitos deles a sentir-se cada vez mais marginalizados).

Mas a verdade é que, neste complexo conflito que é geopolítico, económico e cultural, as religiões têm tido um papel ambíguo e muitas vezes catalisador de confrontos letais, por continuarem a existir fiéis que encaram a questão do território de forma excludente. Ou seja, como uma herança eterna de Deus, impossível de partilhar; e que quando posta em causa pode, na sua perspetiva, legitimar massacres como os destes dias.

Podem as religiões assumir agora um papel mais relevante como catalisadoras da paz? Podem e devem. Volto às palavras de Dvir. O jovem, que estuda Filosofia Judaica em Jerusalém, conta que teve a oportunidade de participar, no passado mês de setembro, nos Encontros do Mediterrâneo, em Marselha (França), uma iniciativa inter-religiosa onde estiveram presentes outros jovens do Norte de África, dos Balcãs, da Europa Latina, do Mar Negro e do Médio Oriente, além de associações humanitárias, e também vários líderes religiosos, entre eles o Papa.

Francisco sublinhou a capacidade destes jovens de “abrir portas inesperadas de diálogo”. “Continuai em frente! Sede mar de bem, para fazer frente às pobrezas de hoje com uma sinergia solidária; sede porto acolhedor, para abraçar quem procura um futuro melhor; sede farol de paz, para atravessar, através da cultura do encontro, os tenebrosos abismos da violência e da guerra”, incentivou então.

Ajuda humanitária distribuída numa escola em Gaza Foto PMAAli Jadall, via ONU Newsah

No meio da tragédia, tem havido gestos de solidariedade na Faixa de Gaza, que não olham a religiões ou fações políticas. Foto © PMA/Ali Jadall, via ONU News.

 

Passaram três semanas desde que Dvir ouviu este discurso. E agora conta: “Tenho muitos amigos dos Encontros do Mediterrâneo que me enviam mensagens para saber novidades, para saber se eu e a minha família estamos bem. Ajuda-me saber que as pessoas pensam em nós e rezam por nós e por uma paz duradoura na Terra Santa. Acho que é disso que precisamos aqui: que rezemos pela pacificação da situação, para que a violência cesse, para que todas as identidades sejam respeitadas, para que todos tenham direitos iguais. Espero que isso aconteça muito em breve”.

Sou cristã e concordo que é preciso rezar. A oração, como diz o patriarca latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa , numa entrevista esta quinta-feira, 12 de outubro, “não resolve nenhum problema concreto, mas ajuda a dar perspetiva (…). Sem oração, permaneceremos presos na nossa dor, no nosso sofrimento e no nosso ódio.”

Mas rezar, sem mais, não chega: é preciso criar espaços de encontro como o que aconteceu em Marselha – em dimensões mais pequenas – em muitas partes do globo (até, e sobretudo, em Israel e na Palestina). Encontros que geram amizades aparentemente improváveis, que levam à descoberta de que aquilo que nos une é maior do que o que nos separa, que nos fazem querer salvar as vidas uns dos outros, e não o contrário. Recordo que falo de um caminho, não de uma solução concreta e imediata para o conflito.

“Uma das características da geração jovem israelita é que tem a mente mais aberta relativamente às ideias de uma solução de um ou dois Estados. Todas as posições sobre a situação dependem de como avaliamos os atores e as suas intenções”, conclui Dvir no seu testemunho, sendo já prova dessa maior tolerância e abertura. E garantindo-nos o mais importante: que preocupar-se com os vizinhos, partilhar comida com quem tem fome, visitar os doentes, conversar com os enlutados – independentemente das suas filiações políticas ou religiosas – são gestos de compaixão e reconciliação tão cristãos, tão islâmicos, tão judaicos que estão já a acontecer, ali onde vive, bem perto da Faixa de Gaza.

Oxalá estes gestos se multipliquem e permitam estabelecer cada vez mais laços, até que todos consigam ver que, mesmo os ditos “inimigos” são “apenas” seres humanos, filhos do mesmo Deus, dignos do mesmo amor.

 

O 7MARGENS vive exclusivamente do apoio dos leitores.
Faça um donativohttps://setemargens.com/apoie-o-7-margens/
Inscreva-se para receber a nossa newsletter: https://bit.ly/3qH8gYv
Sugira a uma pessoa amiga que subscreva a nossa newsletter:
 https://bit.ly/3qH8gYv
Partilhe os nossos textos na sua página de Facebook, Instagram ou Twitter.
Escreva-nos
setemargens@setemargens.com

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

O regresso da sombra da escravidão

O regresso da sombra da escravidão novidade

Vivemos um tempo de grande angústia e incerteza. As guerras multiplicam-se e os sinais de intolerância são cada vez mais evidentes. A fim de ser concreta também a nossa Quaresma, o primeiro passo é querer ver a realidade. O direito internacional e a dignidade humana são desprezados. [O texto de Guilherme d’Oliveira Martins]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This