Afinal, Jesus era branco, negro ou assim-assim? – entre a influência semita e a indo-europeia (ensaio)

Reconstituição do rosto do homem do sudário de Turim, que a tradição aponta como podendo ser o de Jesus Cristo. Foto: Direitos reservados.
Tem-se falado muito da cor da pele de Jesus. Vai-se formando um consenso entre clérigos e leigos de que Jesus não seria branco, mas algo mais aparentado com o mestiço típico de um semita do Médio Oriente. Não que a questão seja minimamente relevante do ponto de vista teológico ou espiritual. De facto, não o é, embora possa ter a sua importância social e política, admito, especialmente neste tempo em que se procura revisitar e mesmo reescrever certas narrativas históricas consideradas produto da hegemonia eurocêntrica do passado colonial. Procurarei mostrar neste texto que não é rigoroso, do ponto de vista histórico, afirmar categórica e definitivamente que Jesus era negro, mestiço ou mulato, como muito se vai ouvindo e lendo por aí, embora também não seja possível afirmar que ele era branco – o que quer que “branco” queira dizer.
Há que ter cuidado e precisão histórica quando se fazem certas asserções tidas como indiscutíveis, precisão que deve prevalecer acima dos fenómenos sociopolíticos conjunturais. É que, quando se afirma como dogma que Jesus não era branco – com isto quer-se dizer branco europeu caucasiano, suponho –, parte-se frequentemente do pressuposto histórico de que a Palestina do tempo de Jesus era percorrida uniformemente pela matriz étnica semita, sem outras influências. Ora, isto é errado, porque a Palestina do tempo de Jesus é muito diferente e porventura mais heterogénea etnicamente do que a Palestina do tempo do Rei David, de Salomão ou do profeta Isaías, por exemplo, figuras que terão vivido vários séculos antes do nascimento do Nazareno. Só entre Isaías e Jesus, a Palestina foi conquistada pelo menos quatro vezes, por assírios (séc. VIII a.C.), babilónios (séc. VI a.C.), greco-macedónios (séc. IV a.C.) e, por fim, romanos (séc. I a.C.). Note-se que destes quatro povos, só os dois primeiros são de matriz semita, enquanto os últimos dois são de matriz indo-europeia.
Por conseguinte, a matriz semita “pura” não existe, pois a Palestina foi tendo ao longo do primeiro milénio a.C. influências étnicas indo-europeias, inclusive muito anteriores aos próprios greco-macedónios e romanos, como veremos. Os próprios filisteus, dos quais o Antigo Testamento fala abundantemente, e que ocupavam largas porções do território da Palestina no tempo dos primeiros reis de Israel, terão sido um desses chamados “povos do mar”[1], muitos deles de matriz indo-europeia (e não semita), que durante o século XIII a.C. terão vindo algures das estepes da Anatólia (atual Turquia) ocupando todo o Levante e alguns territórios continentais e insulares do Mediterrâneo Oriental e Central, como o Chipre, a Córsega, a Sardenha e a Sicília, depois de terem tentado por duas vezes, sem sucesso, conquistar o Egipto nos séculos XIII e XII a.C.. É possível que estes povos tivessem tido origem no colapso do Império Hitita no séc. XIV a.C., que ocupava a Anatólia e que também era um povo indo-europeu, embora também haja quem defenda o contrário, i.e., que foram os “povos do mar” que fizeram colapsar o Império Hitita.

Ilustração de Richard Neave para a BBC em 2001, construindo o rosto de Cristo a partir dos traços semitas. Direitos reservados.
Em todo o caso, é evidente que a influência da matriz indo-europeia esteve muito presente durante séculos nos territórios do Médio-Oriente, e em particular na Palestina, antes e durante a presença dos hebreus semitas neste território. Depois, com a expansão do mundo grego a estes territórios a partir de meados do séc. IV a.C., ela ter-se-á feito novamente sentir. Não que eu esteja a afirmar que os povos indo-europeus eram necessariamente louros, de olhos claros e pele clara. Essa é de resto uma visão muito ultrapassada e de má memória. No entanto, há hoje estudos genéticos[2] bastante fiáveis que sugerem que a “pátria-mãe” dos indo-europeus terão sido as estepes a norte do Mar Negro, nas regiões da atuais Ucrânia e Rússia.
Os investigadores sugerem que uma migração massiva de povos da chamada “cultura Yamnaya”, há cerca de 4500 anos, a partir dessa região, terá chegado à Europa e Ásia Central. Ora, apesar de não ser certo que tenham sido os nómadas desta cultura os portadores dos dois genes responsáveis pela pigmentação branca “caucasiana” da pele, tudo aponta para que esta característica tenha sido introduzida na Europa a partir do Próximo-Oriente (e não o contrário), há milhares de anos. Terá sido por influência indo-europeia das estepes do Cáucaso?
O que é certo é que ainda hoje existem inúmeras populações judias e árabes no Médio-Oriente portadoras de pele e cabelo claro, e olhos verdes ou azuis. Estas características fenotípicas, aparecendo isoladas ou juntas, são hoje bastante comuns na região Sírio-Palestina. Basta ver as imagens que frequentemente de lá nos chegam, por virtude dos conflitos e das crises de refugiados, para certificar que é assim.

Michelangelo, Juízo Final (1541), pintura afresco na Capela Sistina, Vaticano.
O mesmo se passa no Iraque, na Turquia, e até no Afeganistão (lembram-se da famosa fotografia da National Geographic que correu mundo da menina afegã de olhos verdes?). É que de facto, os exércitos greco-macedónios de Alexandre também passaram por lá, para além de todas as outras influências indo-europeias anteriores que já referi. De resto, há estudos[3] que mostram que as regiões do mundo onde há um maior número de pessoas com olhos verdes são o Irão, o Paquistão, o Afeganistão, a Ásia Central, Espanha e o Norte de África – ainda que olhos claros não tenham de ser necessariamente acompanhados por pele branca caucasiana, como é o caso em muitos destes países em que indivíduos de pele mestiça têm olhos verdes.
De qualquer modo, semita judeu ou árabe está longe de implicar necessariamente pele escura, olhos e cabelo escuro. E no tempo de Jesus, menos ainda, tanto mais que a região da Galileia – região periférica da Palestina e fronteira à região Sírio-Fenícia – estava profundamente helenizada à época de Jesus. Por todo o mundo chamado “helenístico”, desde que o exército greco-macedónio de Alexandre O Grande alargou o seu império até ao vale do Idaspes na Índia (atual Paquistão), a regra foi a miscigenação étnica e cultural entre greco-macedónios e os ditos “bárbaros”, e mesmo de “bárbaros” entre si, quer eles fossem persas, egípcios, semitas, árabes, indianos ou outros; quer eles fossem de matriz semita ou indo-europeia.

Ahed Tamimi, jovem árabe palestina que se tornou um símbolo da luta palestiniana contra a ocupação da Cisjordânia. Um exemplo do fenótipo de pele, olhos e cabelos claros, frequente na Palestina e outros territórios do Médio Oriente. Foto © Ggia/Wikimendia Commons
Aliás, é a própria Bíblia que nos dá um indício de que, mesmo em períodos muito anteriores a Jesus, estes traços fenotípicos já existiriam na Palestina, sendo suficientemente abundantes para merecerem referência nos textos sagrados dos judeus. O jovem David, futuro rei de Israel, paradigma do “ungido” de cuja linha viria a sair o Messias, é descrito como “louro, de belos olhos e formosa aparência” (1º Samuel 16:12). Até pode ser que o texto, tendo sido fixado mais tarde (talvez no pós-exílio babilónico) não correspondesse à real fisionomia do David histórico, que viveu talvez mil anos antes de Jesus.
O facto de esta descrição, no entanto, ter assumido um caráter canónico nos textos sagrados do judaísmo, não tendo sido corrigida ou eliminada, mostra que não seria talvez incomum, e muito menos ignóbil, para um judeu dos finais do primeiro milénio a.C., ter cabelo louro ou pelo menos bastante claro, e até mesmo olhos verdes ou azuis, e/ou pele clara. No tempo de Jesus, em pleno mundo cosmopolita helenístico-romano – onde numa cidade típica podiam conviver gregos, romanos, partos, persas, árabes, indianos, egípcios, etc. – tal seria certamente ainda menos ignóbil e incomum.

Mapa 1: Cidades da Palestina depois da partição entre os filhos de Herodes o Grande, na altura do nascimento de Jesus. © Encyclopaedia Britannica.
É, pois, certo que ao tempo em que Jesus nasce, por volta do ano 7 a.C., existiam inúmeras cidades de matriz cultural helénica ou greco-romana por todo o território palestino (ver mapa 1), duas delas a poucos quilómetros da vila de Nazaré. Uma delas era Sepphoris, uma das maiores, mais importantes e mais cosmopolitas cidades da Galileia. A outra era Tiberíades. Estas eram verdadeiros centros urbanos onde se fazia comércio, trocavam ideias, etc. Cidades que não podiam ser desconhecidas de nenhum “provinciano” das redondezas, se queria por exemplo procurar trabalho, comprar ou vender produtos. Cidades de onde irradiava o processo de helenização (e mais tarde, romanização) que influenciou certamente a vida mental das populações autóctones a vários níveis.
Havia também as cidades da chamada Decápole (palavra grega que significa “dez cidades”), que Jesus aliás percorre no seu ministério, a crer nos evangelhos. São cidades como Pella, Abila, Dium, Gerasa, etc. A norte, na região síria, temos Cesareia de Filipe (Cesareia, do Caeser romano, Filipe do Philippos grego que significa “amante de cavalos”), cidade onde ocorre o episódio evangélico em que Jesus é reconhecido por Pedro como o Messias. Muitas outras cidades helénicas ou greco-romanas juncavam o território da Palestina, e a própria Jerusalém, capital da Judeia, reconstruída durante o governo do judeu helenizado Herodes o Grande (73-4 a.C.), tinha o seu teatro e ao que parece outros edifícios públicos à moda greco-romana.
É preciso, por conseguinte, dissipar o preconceito comum de que a Galileia (e bem assim a Palestina em geral) era, no tempo de Jesus, uniformemente percorrida por habitantes semitas ortodoxos, pastores, pescadores, de pele escura e tisnada, olhos e cabelos negros. A Galileia tinha aliás as suas particularidades relativamente ao judaísmo nacionalista da Judeia, até porque foi desde sempre uma região bastante periférica, e com muitas influências não-judaicas, ao ponto de Isaías lhe chamar no séc. VIII a.C. “a Galileia das Nações” ou “dos Gentios”, como também às vezes se traduz.
Os galileus teriam, assim, uma mentalidade um pouco diferente, certamente reforçada pelo contacto muito próximo com a mentalidade helénica que irradiava a partir das cidades de matriz greco-romana da região, e talvez mesmo por não se identificarem muito com a matriz nacionalista tradicional do judaísmo da “metrópole”, i.e., Jerusalém.Os galileus não eram propriamente judeus “ortodoxos”. Eram judeus da periferia, judeus da província, se assim podemos dizer, porque o centro religioso, “ortodoxo” ou “farisaico” estava em Jerusalém, na Judeia. A Galileia situava-se entre a região Sírio-Fenícia, a norte (que Jesus também percorre inclusive cometendo o ato muito pouco ortodoxo, à luz do farisaísmo, de curar a filha de uma mulher gentia [Mateus 15:21]), e a Samaria a sul. Os judeus ortodoxos de Jerusalém não se davam com os samaritanos, considerando-os uma espécie de “judeus de segunda”. Com os galileus a coisa não era muito diferente: “Pode alguma coisa boa vir de Nazaré?”, diz, segundo João, Natanael (João 2:46).

Um dos Cristos de Georges Rouault.
A própria ação de Jesus o mostra, ao revelar uma profunda vontade de expandir o judaísmo para além das fronteiras ideológicas tradicionais, quer pondo em causa as tradições (veja-se a questão do sábado), quer procurando integrar populações até aí mais ou menos desprezadas pelo judaísmo essencialmente nacionalista de Jerusalém. Ou até fazendo brotar, a partir da Galileia (como de resto Isaías já havia de certa forma preconizado ao prever a “reabilitação” da “Galileia das Nações”), um centro irradiador de uma nova espiritualidade judaica, mais próxima do ideal universal cosmopolita grego (patente, por exemplo, na filosofia estoica) do que do tradicional nacionalismo judaico.
De resto, o próprio facto de alguns dos discípulos, aparentemente judeus, de Jesus terem nome grego ou serem filhos de pais com nome grego, atesta a profunda influência helénica sobre o judaísmo galileu. Dos doze discípulos referidos por Mateus, três têm nome grego e um, pelo menos (pois é o único que o diz), tem nome judeu, mas o pai tem nome grego (Mateus 10:2, 3, 4): são eles André (de Andros, Homem), irmão de Simão Pedro; Filipe (de Philippos) e Bartolomeu (meio grego meio semita, pois “bar” significa filho em aramaico, e ’tolomeu vem de Ptolomeos, tipicamente grego, embora haja também quem faça derivar este nome, não do grego, mas integralmente do aramaico “Bar Talmay”); por último, Tiago, filho de Alfeu (Tiago vem do hebraico “Iacob”, mas o nome do pai é grego: Alpheios, nome de divindade mitológica grega).
Sim, é verdade que um dos “príncipes dos sacerdotes” de Jerusalém também tinha nome grego – Nicodemos –, mas é muito significativo o facto de ele ter sido o único dos “doutores da lei”, segundo João, a tornar-se discípulo de Jesus, e a interessar-se sinceramente pela sua pregação. É evidente que a doutrina de Jesus tinha bastante mais eco no judaísmo helenizado do que no judaísmo tradicional, o que não é de todo surpreendente, sendo aquele mais universal e cosmopolita.

Hieronymus Bosch, Cristo Escarnecido com a Coroa de Espinhos (National Gallery, Londres)
Em conclusão, não creio ser improvável que o Jesus histórico tivesse apresentado características fisionómicas “caucasianas”, como pele clara ou olhos verdes, talvez de influência indo-europeia. Não seria certamente “só” um semita, e muito menos um semita tal como frequentemente se entende, porque tal pureza étnica é coisa que não existe e verdadeiramente nunca existiu.

Giotto di Bondone, Ressurreição de Jesus (Ciclo da vida de Jesus Cristo), na Cappella degli Scrovegni, em Pádua.
Não estou com isto a afirmar categoricamente que Jesus era branco, negro ou outra coisa qualquer. Estou tão-só a tentar mostrar que, historicamente, é errado tomar uma posição definitiva acerca da matriz étnica de Jesus, e muito menos acerca da cor da sua pele, cabelo ou olhos. Na verdade, o que significa ser “branco” ou “negro”? O português é branco e, no entanto, é menos branco, globalmente falando, que o alemão ou o holandês. Na verdade, o português é um caldo étnico riquíssimo de semitas judeus, árabes e fenícios, passando por indo-europeus romanos, celtas e célticos, e inclusive germanos visigodos, alanos e suevos, entre muitos outros povos cujo nome – e mesmo a existência – desconhecemos.

Pablo Picasso, Crucifixão (1930), Museu Picasso (Paris).
E depois de 1500 vieram as influências dos povos africanos, brasileiros, indianos, asiáticos. Somos tudo isso, e nada disso. Porque, em primeiro lugar, somos o que somos, cada um de nós, aspirando a ser mais, se possível tudo o que queremos ou sabemos poder ser. Não há, como nunca houve, “raças puras”, e está mais do que demonstrado cientificamente que, não obstante a diversidade fenotípica que os vários povos do mundo apresentam, não há nenhuma diferença significativa a nível genético entre quaisquer que sejam os povos humanos.
Em qualquer caso, não são a nossa fisionomia ou etnia que determinam o Infinito (e o Mistério!) que cada um de nós é e sabe ser, nem o tamanho da nossa dádiva ou a qualidade do nosso amor. E isso aplica-se a todos os seres humanos, qualquer que seja a sua matriz étnica, porque a humanidade de um ser humano está sempre além e aquém das suas determinações físicas, que são apenas o invólucro definitório, mas não definitivo, da sua finitude.
Notas
[1] https://www.britannica.com/topic/Sea-People
[2] Vide https://www.sciencemag.org/news/2015/04/how-europeans-evolved-white-skin
[3] Kenny, Erin; Gackstetter, Nichols, Beauty around the World: A Cultural Encyclopedia – California: ABC-CLIO, 2017, p.102
(Capa: Annibale Carracci, Cristo e a Samaritana (Museu de Belas Artes, de Viena)
Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).
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