Afinal, o pecado de Sodoma não foi a homossexualidade (Reportagem, parte IV)

| 11 Abr 19

(Em busca de Sodoma, por Frédéric Martel – IV)

Thomas Edward Lawrence, conhecido por Lawrence da Arábia, autor de “Os Sete Pilares da Sabedoria”, foi um dos muitos escritores fascinados pela ideia da viagem ao Oriente e a busca de Sodoma. Foto Wikimedia Commons

 

DE REGRESSO A TEL AVIV, fico alojado em casa de Benny e Irit Ziffer. Benny é um escritor e jornalista famoso em Israel – dirige o suplemento literário do principal jornal diário israelita, Haaretz. A mulher é uma arqueóloga e historiadora de arte de reputação internacional. Em conjunto, durante vários serões, estudamos os mapas, as fontes, as hipóteses para situar Sodoma e relacionar a história bíblica com a realidade do terreno.

– De facto, conclui Irit Ziffer, ninguém tem a menor ideia do local onde se poderia situar Sodoma.

Irit e a maior parte dos investigadores que interroguei partilham a ideia de que a cidade de Sodoma existiu realmente. Não é uma história inventada nem uma questão de fé: várias cidades foram realmente destruídas, na antiguidade, por fenómenos naturais e Sodoma poderia ser uma delas.

Mesmo a transformação da mulher de Lot em “estátua de sal” pode basear-se em elementos reais, num contexto de violentas projecções vulcânicas que imobilizaram instantaneamente indivíduos na lava.

– Em todo o caso, a Bíblia é muito machista nesse ponto, acrescenta Irit, sorrindo. Fala-se da “mulher de Lot”, mas ela não tem nome. É a “mulher de”!

Com Benny Ziffer, que se juntou a nós, falamos agora desta longa procura para encontrar Sodoma e Gomorra. Já em 1847, uma expedição da marinha americana, chefiada pelo comandante William Lynch, tinha vindo à Terra Santa para medir o nível do Mar Morto e tentar encontrar Sodoma e Gomorra e assim confirmar a narrativa do Antigo Testamento. Os exploradores, senão mesmo os arqueólogos bíblicos, eram numerosos nas expedições. Alguns construíram teorias fantasiosas, às vezes vagas, mas outros tiveram a sorte de descobrir vestígios reais, por exemplo mosaicos.

Os escritores lançaram-se na mesma busca. No séc. XIX, a “viagem ao Oriente” torna-se uma obsessão dos “orientalistas”, muitos dos quais tentam deste modo encontrar vestígios de Sodoma.

Tradutor de Francês, de Inglês e de Alemão, Benny Ziffer conhece todos esses escritores, as suas narrativas sobre o Oriente e até as suas vidas duplas. Falámos disso durante numerosos serões em Tel Aviv, em Jerusalém e até no Cairo. Ziffer interessa-se por Chateaubriand, que definiu o género e que, chegado à margem do Mar Morto, fez a seguinte descrição homofóbica: “Aí tudo parece respirar o horror e o incesto de onde vieram Amon e Moab…[O Mar Morto] parece brilhante mas as cidades culpadas que esconde no seu seio parecem ter envenenado as suas ondas.” Disposto a empunhar a espada de Ricardo Coração de Leão, em defesa dos cristãos do Oriente, Chateaubriand viaja como católico militante mas esquece-se de dizer que este herói das Cruzadas que ele tanto venera era também um católico gay, apesar do seu coração de leão!

 

Viagem ao Oriente, um tema apreciado

Temos de dizer que a “viagem ao Oriente”, que vê no mundo árabe uma máquina ávida de desejo, é um género muito apreciado, em particular pelos escritores homossexuais. O Oriente, com maiúscula, é mesmo uma das grandes fantasmagorias gay: Rimbaud em Aden, Lawrence na Arábia, André Gide na Tunísia, Oscar Wilde no Magrebe, Pierre Herbart em África, Henry de Montherlant na Argélia e em Marrocos, Pierre Loti na Galileia, Jean Genet na Palestina, William Burroughs e Allen Ginsberg em Tânger… A lista é infinita. Mesmo Flaubert, em princípio mais padronizado, teria querido ver Sodoma e, segundo os seus biógrafos, experimentado a bissexualidade no contacto com os árabes. Rimbaud insiste: “Oriente, pátria primitiva”.

– Vários escritores que quiseram fazer a “viagem ao Oriente”, um grande clássico literário, eram homossexuais. O nome de Sodoma sempre teve uma enorme carga simbólica, comenta Benny Ziffer, chefe de secção literária do Haaretz, num jantar em Tel Aviv.

Quanto a Marcel Proust, de quem Benny Ziffer é um adorador zeloso, dedicou uma parte da sua obra a Sodoma e Gomorra. Sem nunca ter viajado ao Oriente, embora o tenha fantasiado muito, o escritor revisitou, do ponto de vista literário, a história de Sodoma e da sua destruição, bem como a vida de Lot. Contrariamente à Bíblia, o romancista imagina que só os “sodomitas” foram poupados por Deus, os quais depois da destruição da cidade maldita se fixaram por toda a terra [onde] têm acesso a todas as profissões… e formam em todos os países uma colónia oriental, culta, conhecedora de música, difamatória, que tem todas as qualidades e defeitos insuportáveis”.

Num outro dia, Irit Ziffer que, entretanto, fez aprofundadas pesquisas para mim, quando estamos à mesa, dá-me a boa notícia:

– O problema de Sodoma nunca foi a homossexualidade. Foi muito mais tarde, em interpretações posteriores, que o pecado da sodomia foi imputado à cidade destruída. As Escrituras são muito claras, o único problema foi a falta de hospitalidade. Os habitantes de Sodoma não demonstraram hospitalidade com os estrangeiros e Deus castigou-os por não terem sido suficientemente acolhedores. Lot, que é explicitamente um estrangeiro, é salvo porque ele próprio demonstrou uma hospitalidade exemplar.

 

(Tradução: Lucy Wainewright e Maria Carvalho Torres; Edição: Maria Carla Crespo e António Marujo)

No trabalho de reportagem que fez para o livro No Armário do Vaticano (ed. Sextante Editora, Sodoma, na versão original), o jornalista e investigador francês Frédéric Martel incluiu uma pesquisa sobre a busca da cidade bíblica de Sodoma. Esse trabalho acabou por não ser incluído no livro e deu origem a um capítulo que sera publicado na página da Internet dedicada à obra (www.sodoma.fr). Entretanto, os direitos de publicação deste trabalho, para português, foram cedidos pelo autor ao 7MARGENS, que publica até ao próximo dia 12 esta grande reportagem. O texto anterior da série pode ser lido aqui.

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