Afinal, quem são os evangélicos?

| 3 Jun 20

A maior parte dos que falam de minorias religiosas como os evangélicos nada sabem sobre eles, incluindo políticos e jornalistas. Em Portugal constituem a maior minoria religiosa, e a Aliança Evangélica Mundial conta com mais de 600 milhões de fiéis em todo o mundo.

 

Há quem considere protestantes todos os grupos e correntes religiosas que procedem da Reforma luterana do século XVI, seja num registo mais remoto ou próximo. Outros entendem que todas essas correntes se devem denominar evangélicas, por grosso. Por isso ambos os termos são por vezes utilizados indistintamente, mas o rigor histórico e o teológico obrigam a uma compreensão mais detalhada dessa complexa realidade sócio-religiosa.

De facto, os evangélicos são herdeiros do fundamentalismo protestante da primeira parte do século XX americano, tendo-se autodenominado evangelicals, mais ou menos a partir dos anos 40, para se distinguirem do meio de onde saíram e em função da perda de força daquele grupo, que ficou conhecido pelas famosas conferências de Niagara (1876-1897).

O fundamentalismo protestante nasce formalmente em 1920, e resulta duma coligação de protestantes americanos maioritariamente brancos, que em finais do séc. XIX e inícios do séc. XX se uniram em oposição ao liberalismo teológico predominante, de origem alemã que começou a colocar em causa constructos da fé cristã até aí inquestionáveis.

A principal preocupação do movimento era a defesa da autoridade da Bíblia e reflete o amplo e complexo desafio então colocado pela Modernidade aos crentes. Foi assim que surgiu a ideia de reunir um conjunto de teólogos de língua inglesa que elaborassem uma espécie de segunda bíblia a que chamaram The Fundamentals, uma colecção de ensaios escritos entre 1910 e 1915, e de que se publicaram e difundiram três milhões de cópias, com especial impacto no mundo anglo-saxónico.

O Credo de Niagara (1878) consagrava a inerrância da Bíblia, o nascimento virginal e a divindade de Jesus Cristo, o carácter expiatório e vicário da sua morte, a realidade factual dos seus milagres e sua ressurreição física, e a interpretação bíblica literalista, além do ambiente apocalíptico.

Caindo no erro de tentar condicionar política, tribunais, toda a vida pública e a sociedade ao seu sistema de ética religiosa, nos anos 20 os fundamentalistas levaram a tribunal um professor que ensinava a teoria da evolução. Na altura ganharam a causa, mas o julgamento levou-os à perda do respeito por parte do público, provocando constrangimento no país, que os considerou fanáticos, retrógrados e pouco recomendáveis. O vexame sofrido levou boa parte do grupo a procurar um distanciamento na altura, através da elaboração duma teologia menos agressiva e mais passível de aceitação por parte do público em geral, mas sem renegar os pressupostos de base.

O fundamentalismo voltou a ganhar influência mais tarde, apenas nas décadas de 70 e 80 nos Estados Unidos, através dos tele-evangelistas e da Moral Majority – contra o aborto, pela família tradicional, e a favor de Israel – em oposição ao liberalismo e laicismo predominantes no país.

Portanto, os evangélicos podem ser considerados historicamente como filhos do protestantismo milenarista que pregava o “novo nascimento” (born again) e a necessidade da conversão pessoal (“aceitar Jesus como único e suficiente Salvador”), face à iminência da Segunda Vinda de Cristo (Parousia). O seu nome mais conhecido foi Billy Graham, o famoso pregador de multidões que se tornou conhecido em todo o mundo no período pós-guerra.

Todavia é difícil definir com precisão a identidade evangélica, além do facto de os europeus se revelarem diferenciados dos americanos, embora sempre influenciados por aquela cultura religiosa e mesmo pela brasileira. Em Portugal incluem baptistas, pentecostais, igrejas independentes, igrejas dos Irmãos, e um conjunto heterogéneo de outros grupos que se revêem nas bases de fé da Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) e no seu Código Deontológico, documentos esses que não permitiram até agora aceitar como membros os grupos neopentecostais.

Estes grupos foram catalogados por académicos como “a terceira onda do pentecostalismo”, na linha duma classificação polissémica, mas erradamente, a meu ver, pois não revelam qualquer identificação com a tradição pentecostal, pelo que o próprio termo neopentecostal parece inadequado a uma realidade religiosa tão diversa.

Os neopentecostais são citados na comunicação social como evangélicos, talvez porque são assim considerados no Brasil, mas não em Portugal. E a ignorância geral leva a pensar que mesmo os pentecostais só aqui chegaram depois de 1974, quando se radicaram em Portugal há mais de um século. A AEP (criada em 1921) mantém há muitos anos diálogo permanente e institucional com a Conferência Episcopal (Igreja Católica) e o Copic (Conselho Português de Igrejas Cristãs, igrejas protestantes ligadas ao Conselho Mundial de Igrejas, fundado em 1948). Os neopentecostais, que não são aceites como protestantes nem como evangélicos, estão fora de qualquer diálogo interconfessional.

Meter tudo no mesmo saco com o rótulo de evangélico pode dar jeito a quem não sabe do assunto ou a quem estiver animado por outras intenções, mas não revela rigor de análise. Por outro lado, parece que existem franjas das comunidades evangélicas que se estão a deixar seduzir efectivamente pelo canto de sereia do populismo de direita, que invoca oportunisticamente valores religiosos cristãos, de cariz conservador, mas à custa de estarem a atraiçoar a sua própria ética, história e postura cívica de sempre. Afinal, os pastores protestantes e evangélicos foram frequentemente perseguidos pelo regime de Salazar, tanto aqui como nas colónias portuguesas em África.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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