África Central: Ouro e diamantes são causa maior das guerras, não a religião

27 Ago 19Destaques, Estado, Política e Religiões, Newsletter, Sociedade - homepage, Últimas

O bispo Nestor-Nongo-Aziagba, de Bassangoa, com responsáveis locais. Foto © ACN Portugal

 

“Não há uma guerra entre muçulmanos e cristãos na República Centro-Africana, como muitas vezes aparece na comunicação social. Há sim, uma crise violenta que é o resultado da exploração desenfreada dos recursos económicos do país, nomeadamente os diamantes e ouro.” As afirmações do bispo católico de Bossangoa (República Centro-Africana), Nestor Nongo-Aziagba, em declarações à AIS (Ajuda à Igreja que Sofre) em Washington, tentam retratar a situação naquele país, mas também em outros à volta, no coração do continente africano.

Nongo-Aziagba falava no âmbito de uma recente cimeira sobre liberdade religiosa no mundo, nos Estados Unidos. “É uma distração, um desvio do verdadeiro problema da pobreza, analfabetismo e falta de justiça” falar do conflito como um choque entre islão e cristianismo, diz, citado pela AIS.

Desde 2013, a RCA vive um terrível conflito latente, com grupos armados compostos por muçulmanos, os Séléka, que espalham a violência contra as populações civis. Estes atos deram origem à criação de grupos de autodefesa, conhecidos localmente como “anti-Balaka”.

É neste pano de fundo que se têm repetido as denúncias, por parte de responsáveis católicos, de que o país está a saque e que a violência de grupos armados deve ser vista nesta perspectiva. Já em Abril outro dos bispos católicos, Juan José Aguirre, de Bangassou, dizia que “há uma agenda secreta para dividir a nação em duas, promovida por países muçulmanos e com a cumplicidade de diferentes estados sombrios como o Chade, a Nígéria ou a Líbia”.

As denúncias da Igreja são constantes. A AIS recorda ainda que, no final de junho, os bispos, reunidos em sessão plenária, expressaram uma vez mais a preocupação pela situação caótica que se está a verificar no país. Dizendo que “o povo está cansado da hipocrisia” que caracteriza a assinatura dos vários acordos [de paz] que se realizaram” até à atualidade, o episcopado apontava o dedo aos grupos armados que dominam “a vida sociopolítica dos centro-africanos”.

 

Amputar mulheres para espalhar o medo

Mulheres de Gagalari vítimas do Boko Haram, com as orelhas amputadas. Foto © ACN Portugal

 

Desde o eclodir da crise, em 2013, já foram assinados pelo menos oito acordos de paz entre o Governo e milícias armadas. Mas o cenário de medo e apreensão assola outros países da região, como os Camarões e a Nigéria, e as crises acabam por ter repercussão umas nas outras.

No caso dos Camarões, o grupo terrorista Boko Haram tem atacado populações locais, raptando e amputando mulheres como uma forma de instigar o medo. Exemplos destes casos ocorreram na noite de 29 de Julho, quando vários elementos do grupo atacaram a localidade de Gagalari (diocese de Yagoua, no norte do país).

“Chegaram de noite, entraram nas casas, uma a uma, e raptaram as mulheres. Apenas as mulheres. Levaram-nas para fora da aldeia e amputaram uma orelha a cada uma das vítimas. Depois libertaram e ameaçaram as mulheres, dizendo-lhes que iriam regressar e que esta era apenas a primeira chamada de atenção a que se seguirão outras. É aterrorizador!”, conta, citada também pela AIS, uma fonte local que não pode ser identificada por razões de segurança.

As vítimas, entretanto, foram descobertas e recolhidas por militares do exército, que as levaram para um local a mais de 260 quilómetros, para receber assistência médica.

Tal modo de agir parece indiciar uma mudança de estratégia do Boko Haram: a amputação pretende semear o medo entre os habitantes da região que “obedecem ao Governo e escutam as vozes dos que não seguem a ideologia extremista do Boko Haram”, afirmava a mesma fonte não identificada.

A AIS noticia ainda que, por razões de segurança e medo, os homens não dormem dentro das casas e foram criados comités de segurança, mas isso de nada tem servido. As mulheres são levadas na mesma perante o olhar dos filhos e as populações não podem fazer nada. “São pessoas simples e muito pobres que vivem da agricultura e precisamente agora, durante a época das chuvas, estão à espera das colheitas. Para onde poderão ir?”

 

Muitos mortos à machadada

Mais para oeste, no caso da Nigéria, tem-se agravado o clima de violência contra os cristãos por causa dos ataques dos pastores Fulani. A 25 de julho, foi noticiado o assassinato de mais um cristão no nordeste do país horas depois de o arcebispo de Abuja ter relatado a situação desesperada em que se encontra a população vítima da violência dos Fulani e do Boko Haram – veio relançar a questão da segurança dos cristãos naquela zona do país.

Solomon Yuhwam, conhecido agricultor católico do estado de Taraba, tinha sido morto em casa no dia 13 de Julho e a notícia deixou a comunidade cristã local consternada, dado o enorme apreço que todos tinham pelo trabalho que ele vinha desenvolvido na promoção das populações cristãs na Nigéria.

Solomon Yuhwam, agricultor nigeriano assassinado em Julho. Foto © ACN Portugal

 

Só no estado de Taraba, segundo o arcebispo Ignatius Kaigama, 8 aldeias foram atacadas e incendiadas, 65 pessoas foram mortas e cerca de nove mil pessoas forçadas a abandonar as suas casas. Em consequência desta onda de violência, 15 igrejas, duas escolas primárias e uma unidade de saúde foram também destruídas, sempre de acordo com os dados recolhidos pela AIS.

Num encontro com responsáveis da AIS, o padre Policarpo Lamma, da diocese de Jalingo (nordeste), afirmou que inúmeros ataques dos pastores nómadas contra aldeias cristãs têm provocado um grande número de vítimas. “Desde 2014 até hoje, quase mil pessoas” foram mortas pelos Fulani, dizia o padre Lamma. “Vi muitos cadáveres e feridos que foram atacados à machadada pelos Fulani. Houve enterros em massa.”

Há um ano, no dia 5 de Junho de 2018, a própria casa paroquial do padre Policarpo foi atacada por pastores Fulani, tendo sido incendiada e destruída, assim como praticamente toda a sua aldeia. “Foi no dia do meu aniversário que os Fulani vieram e nos atacaram…” Policarpo Lamma escondeu-se debaixo de um monte de lixo durante a noite e conseguiu escapar ao ataque. “Eles invadem as nossas terras e matam o nosso povo. [E as igrejas] foram todas destruídas por eles…”.

O padre Policarpo Lamma escondeu-se num monte de lixo para escapar a um ataque terrorista. Foto © ACN Portugal

 

As “guerras esquecidas”

Os ataques a minorias étnicas nestes países não são um fenómeno novo. Na RCA, desde 1960 , por alturas da independência do país, que há registo de episódios de violência e instabilidade, como recorda o Council for Foreign Relations (CFR), uma organização norte-americana independente que se dedica à monitorização dos conflitos armados. Desde o surto do conflito em 2013, o CFR diz que milhares de pessoas foram mortas e quase 600 mil tiveram de fugir para países vizinhos como os Camarões e a República Democrática do Congo.

O caso da República Democrática do Congo (RDC) é particularmente sensível. De acordo com a organização Invisible Children (Crianças Invisíveis), o Exército de Libertação do Senhor (LRA – Lord’s Resistance Army), um dos grupos envolvidos na guerra civil da RDC, tem efetuado vários ataques, assaltando comunidades e viajantes. Nas últimas semanas, terão sido raptadas 42 pessoas.

O grupo liderado por Joseph Kony, já libertou diversos dos raptados, mas mais de dez crianças não foram encontradas ou ainda estão presumivelmente em cativeiro, acusa a Invisible Children. Várias organizações humanitárias continuam a acusar que a gravidade das violações de direitos humanos nestas regiões contrasta com a falta de atenção” por parte da comunidade internacional para com o que acontece em África e com várias das “guerras esquecidas”.

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