Agente Neves

| 25 Mar 2024

“E quanto mais livros ardiam, mais ele ardia também, pendido em desânimo num poço de impotência.” Foto: Shutterstock.com / History Channel Brasil

 

 

– Há fogueiras cujas cinzas confessam o extermínio, senhor presidente, alheias à própria vontade. Quem lhes dera a ressurreição – disse o homem de fato cinzento e gabardina, num tom timbrado pelo abuso de aguardente.

Não se deteve. Continuou:

– Sabe que mais, senhor presidente? O crime que nos obriga a cometer é infinitamente superior ao dos homens que escrevem e denunciam a violência do seu poder.

E cuspiu.

Falava sozinho, voz sufocada na própria angústia. Fogo em riste, chamas como lobos a descarnar tudo o que era denúncia e livre pensamento. Olhos esbugalhados em loucura absoluta, camisa de fora, suor enrubescido a refletir a fúria das brasas.

O crepitar ensurdecedor da imensa fogueira, lá fora no pátio, impedia que se ouvisse o devaneio nos gabinetes.

– O Neves está lá fora a tratar dos livros – dizia alguém quando se lembrava do elo mais fraco. – O maluquinho, o encarregado das queimadas…

E quanto mais livros ardiam, mais ele ardia também, pendido em desânimo num poço de impotência. Pobre Neves, se havia tarefas difíceis para agentes da PIDE (perseguir, prender, torturar, matar), a queima dos livros era a que mais lhe custava. As outras eram-lhe de fácil dissimulação quando as executava. Talvez por isso, por essa ligação à tortura vinda dos lugares de cima, talvez por isso lhe calhasse sempre – a ele – tal função.

O homem amava os livros e queria livrar-se do lugar que a vida lhe tinha escolhido sem ele saber como. Melhor do que ninguém, sabia por dentro como as coisas funcionavam. Nem morrer o salvaria – tinha mulher e filhos, e eles pagariam caro a sua morte, se a escolhesse.

Lia às escondidas desde que aprendera a dar significado às palavras juntando letras. Sonhava, e nesse sonho o mundo era livre, tão livre que só a imaginação – essa imaginação dos poetas, que trespassa quem os lê –, só a imaginação importava. O mundo era uma balança a pesar em pratos de páginas lidas. Não havia lei, nem censura, nem capas proibidas. Havia histórias a eternizar os acontecimentos da linha do tempo.

De tanto sonhar, o Neves foi-se esquecendo da realidade. Ali, dentro da sua cabeça, os aparelhos das escutas não funcionavam, estava salvaguardado.

O inspetor ria-se dele.

– Então, ó Neves, há churrasco hoje, ou nem por isso?

Dizia isto quando se cruzavam nos corredores, por onde o Neves andava sempre de cabeça baixa.

Ele nunca quis pertencer à PIDE, verdade seja dita. A ruralidade da primeira metade do século XX era um caminho de poucas saídas: ou miséria ou submissão. Que venha o diabo escolher qual das fomes é a mais suportável, a do corpo ou a do espírito.

O Neves continuava a gritar a ponto de perder a voz. A imaginação abusava cada vez mais dele, via o presidente a arder na fogueira junto aos livros e cuspia-lhe enraivecido. De fora, os colegas achavam que ele queria aniquilar as chamas com o cuspo, que atirava com violência.

Ia chegando muita PIDE para ver o Neves, o maluquinho das queimas, o Neves em profundo delírio. Compôs-se uma plateia. Com esforço, podiam entender a formulação das frases que ele enrolava na língua pesada:

– Senhor presidente, nem mais um crime!! – gritou o Neves, de dedo em riste, enquanto o fogo lhe subia pelas pernas, furioso. – Senhores colegas, salvem o que ainda vai a tempo!

E deixou-se cair, desanimado, engolido pelas chamas que ateavam os livros – os que tanto o tinham feito sonhar.

Nos olhos de espanto dos colegas do Neves, podia haver lágrimas a denunciar o coração; a denunciar o crime; a denunciar o senhor presidente. Mas não havia.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros Em Breve, Meu Amor e O Homem do Trator.

 

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