[Margem 8]

Agora, não sei o que fazer com esta teologia

| 28 Jun 2023

“Foi nesta ida à iconografia do Baptismo que ouvi pela primeira vez a expressão “Sepulcro Líquido”. As águas eram como um sepulcro líquido representando a morte do Senhor Jesus, uma premissa da sua Descida aos Infernos.” Ícone:  Descida aos infernos

 

Foi há muitos anos, como quem recebe um dom, que encontrei na iconografia bizantina um manancial de sugestões teológicas. O caso começou com um ícone da Descida aos Infernos, uma linguagem poderosa da Ressurreição enquanto invasão de Vida pelo território da morte adentro e, assim sendo, linguagem explosiva da Ressurreição enquanto comunhão de Vida que a ninguém deixa de fora. Quanto mais profunda é a descida, mais alta a comunhão. Uma regra de três simples, Pai, Filho e Espírito.

“Tens de ler este ícone em díptico com o do Baptismo do Senhor”, foi a instrução seguinte, como se estivessem a guiar-me pelo roteiro das descidas. E tinha, era facto. No ícone do Baptismo do Senhor, o Jordão é uma correnteza escura na fenda irreparável de uma montanha aberta em duas, fenda que vem da voz-luz-mão-espírito que preside à história: “Meu filho, meu tão amado.” No centro, Jesus, com a enunciadora nudez adâmica, com água até ao pescoço. A cena é toda trinitária, mas o grafismo ainda não é tridimensional: na bidimensionalidade destes ícones, a água é transcrita quase como um véu na vertical, cobrindo o corpo de Jesus.

Foi nesta ida à iconografia do Baptismo que ouvi pela primeira vez a expressão “Sepulcro Líquido”. As águas eram como um sepulcro líquido representando a morte do Senhor Jesus, uma premissa da sua Descida aos Infernos. Então, acenderam-se outras coisas que andava a aprender, como a polissemia bíblica da palavra “mar”, “águas” e “abismo das águas”. Na cultura hebraica, estas águas-mar-abismo representam a morte. Aprendi depois que em quase todas as mitologias daquele médio-oriente era assim, como todas as linguagens culturais que tinham as atenções viradas para o Mediterrâneo. Mas não só, porque depois vieram as andanças missionárias e o encontro com linguagens africanas, por exemplo, em que “mar” e “morte” são a mesma palavra, como é o caso do kimbundo de Angola, com a palavra kalunga.

O filão acrescentava-se e enriquecia-se. A patrística trouxe o encontro enamorado com as linguagens mistagógicas, e foram Tertuliano e Ambrósio de Milão quem me mostrou ter usado a imagem do “Sepulcro Líquido” pela primeira vez, séculos antes da iconografia. Servia-lhes para animarem os catecúmenos e os neófitos (recém-nascidos) a viverem o seu baptismo como Hora Pascal, mistério de renovação vital: descendo às águas baptismais, morremos na morte do Senhor, para com ele nos levantarmos-erguermos-nascermos para uma Vida Nova. Desceis ao sepulcro líquido – por aqui ensinavam – para de lá vos levantardes para a graça de uma vida nova, renascidos das águas, como das águas nascestes a primeira vez…

Agora, não sei o que fazer com esta teologia. Por causa do que está a acontecer neste Mediterrâneo real que não aparece nos manuais de dogmática mas nos directos das televisões. O “Sepulcro Líquido” não é hoje uma metáfora. Horrorosamente, já não é hoje uma notícia. É um apontamento, um separador. Foi há uns dias. Passou. Vale só para dois dias, quanto acontece uma desgraça maior. Depois, há coisas mais importantes, claro. Distraímo-nos tão depressa quanto nos escandalizamos, esquecemos tão rapidamente quanto demoramos a escolher um emoji triste.

Nem sei bem que palavras pôr aqui, agora. Peço desculpa. Devia chegar aqui e ter alguma carta a tirar da manga, mas não tenho. Devia haver uma punch-line qualquer. Pelo menos, ficava o texto composto, e eu a salvo desta confrangedora inconsequência. E até a expressão “a salvo” ganha cores novas nesta gramática da actualidade, a cor laranja forte que boia esperando que alguma mão ainda se consiga agarrar. Sei apenas que todo este imaginário da “teologia das águas” e do “sepulcro líquido” se revolve dentro da minha cabeça como um imenso ser vivo inquieto. Este imaginário teológico e poético, tornou-se escândalo trágico e perverso.

 

Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico e foi eleito na última semana como vogal da direcção da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP).  

 

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados

Inaugurado em Vendas Novas

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados novidade

O apelo foi feito pelo Papa Francisco: utilizar os espaços da Igreja Católica devolutos ou sem uso para respostas humanitárias. Os Salesianos e os Jesuítas em Portugal aceitaram o desafio e, do antigo colégio de uns, nasceu o novo centro de acolhimento de emergência para refugiados de outros. Fica em Vendas Novas, tem capacidade para 120 pessoas, e promete ser amigo das famílias, do ambiente, e da comunidade em que se insere.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita

Com as eleições no horizonte

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita novidade

O conselho permanente dos bispos da Igreja Católica de França considera, num comunicado divulgado esta quinta-feira, 20 de junho, que o resultado das recentes eleições europeias, que deram a vitória à extrema-direita, “é mais um sintoma de uma sociedade ansiosa, dividida e em sofrimento”. Neste contexto, e em vésperas dos atos eleitorais para a Assembleia Nacional, apresentaram uma oração que deverá ser rezada por todas as comunidades nestes próximos dias.

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança”

Tolentino recebeu Prémio Pessoa

“Precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança” novidade

Na cerimónia em que recebeu o Prémio Pessoa 2023 – que decorreu esta quarta-feira, 19 de junho, na Culturgest, em Lisboa – o cardeal Tolentino Mendonça falou daquela que considera ser “talvez a construção mais extraordinária do nosso tempo”: a “ampliação da esperança de vida”. Mas deixou um alerta: “não basta alongar a esperança de vida, precisamos de trabalhar num projeto de sociedade que privilegie a ativação da esperança e a deseje fraternamente repartida, acessível a todos, protagonizada por todos”.

“O 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”

“O 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba” novidade

O último dia de “Reflexos e Reflexões” prometia uma tarde bem preenchida: o debate sobre “o 7 de outubro, a guerra em Gaza e as sombras da Shoah e da Nakba”, e a peça de teatro “House”, de Amos Gitai, pelo teatro La Colline. Aqui deixo uma síntese do debate, que tentei fazer com a maior fidedignidade possível, a partir dos apontamentos que fui tomando (era proibido tirar fotografias ou fazer gravações, para garantir que todos se sentiam mais livres para falar). [Texto de Helena Araújo]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This