“Foi nesta ida à iconografia do Baptismo que ouvi pela primeira vez a expressão “Sepulcro Líquido”. As águas eram como um sepulcro líquido representando a morte do Senhor Jesus, uma premissa da sua Descida aos Infernos.” Ícone: Descida aos infernos
Foi há muitos anos, como quem recebe um dom, que encontrei na iconografia bizantina um manancial de sugestões teológicas. O caso começou com um ícone da Descida aos Infernos, uma linguagem poderosa da Ressurreição enquanto invasão de Vida pelo território da morte adentro e, assim sendo, linguagem explosiva da Ressurreição enquanto comunhão de Vida que a ninguém deixa de fora. Quanto mais profunda é a descida, mais alta a comunhão. Uma regra de três simples, Pai, Filho e Espírito.
“Tens de ler este ícone em díptico com o do Baptismo do Senhor”, foi a instrução seguinte, como se estivessem a guiar-me pelo roteiro das descidas. E tinha, era facto. No ícone do Baptismo do Senhor, o Jordão é uma correnteza escura na fenda irreparável de uma montanha aberta em duas, fenda que vem da voz-luz-mão-espírito que preside à história: “Meu filho, meu tão amado.” No centro, Jesus, com a enunciadora nudez adâmica, com água até ao pescoço. A cena é toda trinitária, mas o grafismo ainda não é tridimensional: na bidimensionalidade destes ícones, a água é transcrita quase como um véu na vertical, cobrindo o corpo de Jesus.
Foi nesta ida à iconografia do Baptismo que ouvi pela primeira vez a expressão “Sepulcro Líquido”. As águas eram como um sepulcro líquido representando a morte do Senhor Jesus, uma premissa da sua Descida aos Infernos. Então, acenderam-se outras coisas que andava a aprender, como a polissemia bíblica da palavra “mar”, “águas” e “abismo das águas”. Na cultura hebraica, estas águas-mar-abismo representam a morte. Aprendi depois que em quase todas as mitologias daquele médio-oriente era assim, como todas as linguagens culturais que tinham as atenções viradas para o Mediterrâneo. Mas não só, porque depois vieram as andanças missionárias e o encontro com linguagens africanas, por exemplo, em que “mar” e “morte” são a mesma palavra, como é o caso do kimbundo de Angola, com a palavra kalunga.
O filão acrescentava-se e enriquecia-se. A patrística trouxe o encontro enamorado com as linguagens mistagógicas, e foram Tertuliano e Ambrósio de Milão quem me mostrou ter usado a imagem do “Sepulcro Líquido” pela primeira vez, séculos antes da iconografia. Servia-lhes para animarem os catecúmenos e os neófitos (recém-nascidos) a viverem o seu baptismo como Hora Pascal, mistério de renovação vital: descendo às águas baptismais, morremos na morte do Senhor, para com ele nos levantarmos-erguermos-nascermos para uma Vida Nova. Desceis ao sepulcro líquido – por aqui ensinavam – para de lá vos levantardes para a graça de uma vida nova, renascidos das águas, como das águas nascestes a primeira vez…
Agora, não sei o que fazer com esta teologia. Por causa do que está a acontecer neste Mediterrâneo real que não aparece nos manuais de dogmática mas nos directos das televisões. O “Sepulcro Líquido” não é hoje uma metáfora. Horrorosamente, já não é hoje uma notícia. É um apontamento, um separador. Foi há uns dias. Passou. Vale só para dois dias, quanto acontece uma desgraça maior. Depois, há coisas mais importantes, claro. Distraímo-nos tão depressa quanto nos escandalizamos, esquecemos tão rapidamente quanto demoramos a escolher um emoji triste.
Nem sei bem que palavras pôr aqui, agora. Peço desculpa. Devia chegar aqui e ter alguma carta a tirar da manga, mas não tenho. Devia haver uma punch-line qualquer. Pelo menos, ficava o texto composto, e eu a salvo desta confrangedora inconsequência. E até a expressão “a salvo” ganha cores novas nesta gramática da actualidade, a cor laranja forte que boia esperando que alguma mão ainda se consiga agarrar. Sei apenas que todo este imaginário da “teologia das águas” e do “sepulcro líquido” se revolve dentro da minha cabeça como um imenso ser vivo inquieto. Este imaginário teológico e poético, tornou-se escândalo trágico e perverso.
Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico e foi eleito na última semana como vogal da direcção da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal (CIRP).









