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Agostinho da Cruz: o papel da arte e do poeta contemplativo

| 19 Jul 21

No último sábado, 17, em Azeitão, a celebração de uma missa presidida pelo bispo de Setúbal, D. José Ornelas, na Igreja de São Lourenço, marcou o encerramento das comemorações dos 400 anos da morte e 480 do nascimento de frei Agostinho da Cruz. Tal como o 7MARGENS noticiou, o final das comemorações ficou também marcado pela publicação de um livro de poemas inéditos do poeta da Arrábida. Na eucaristia, o bispo de Setúbal referiu-se ao papel da arte e do poeta contemplativo. E Ruy Ventura, comissário das comemorações, assinalou o que foram estes três anos de iniciativas. O 7MARGENS reproduz a seguir os dois documentos, com títulos da nossa responsabilidade.

 

 

 

Concluímos, com esta Eucaristia, as celebrações do [quarto] centenário [da morte] de Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), o nome mais emblemático da tradição contemplativa da Arrábida, que ainda hoje continua com a sua poesia, a ressoar na vida e na oração da Igreja e a atrair quem quer que se interrogue sobre o sentido da vida e do mundo.

Ele continua a fazer soar o cântico da vida eremítica e contemplativa: o sonho de ser pessoa, de ser Igreja, de construir um mundo novo.

Nos seus versos, faz-nos perceber o papel da arte e do poeta contemplativo: exprimir em palavras o seu sentir, contemplar e orar, e transmiti-lo e entregá-lo, de modo a permitir que essa mesma emoção de espanto, de imersão na natureza e de fé, possa ser comunicada, partilhada, refeita por quem comunica com o seu legado.

O poeta e os seus colegas frades, retirando-se na serra da Arrábida, aqui a dois passos, à beira do mar imenso que a acaricia, não se tornaram inúteis, não desistiram de viver e interagir com a sociedade, mas mudaram-se a partir de dentro e mudaram a montanha onde se inseriram, deram-lhe leitura nova e novo sentido e, no silêncio e na palavra em que o partilharam, passaram essa sua visão da vida, da fé imbuída de natureza, para o seu tempo e para os tempos futuros.

Continuam a viver, a suscitar vida, compromisso, fé, oração e transformação. Uma revolução a partir de dentro, do coração, do ser de si próprio e do mundo.

Gostaria de ver este percurso à luz de três quadros, apresentados pelas leituras [bíblicas] desta Eucaristia [1Reis 19,1-16; Salmo 23; Efésios 2,13-18; Marcos 6,30-34].

 

O quadro de Elias: o profeta zeloso e lutador (até violento), para garantir a fidelidade do povo ao seu Deus.

 

Agostinho da Cruz num desenho à pena de Agripino Maia: os frades da Arrábida buscaram um rosto de Deus que rejeita a violência.

 

Aturdido por um mundo em transformação, incapaz de se conformar com a perda dos valores de sempre, zelosamente fiel e disposto a lutar pela fé recebida dos pais, tendo encetado a via da resistência violenta, Elias sente a necessidade de voltar às origens, ao essencial, para perceber os tempos novos, difíceis e confusos e para dar rumo à fidelidade, ao compromisso, à transformação.

Busca no deserto o rosto de Deus: uma caminhada na história pessoal, do povo, da humanidade: de onde vimos e para onde vamos? Que fazemos e como fazemos? Por isso faz um caminho, pelo deserto, até à montanha do Horeb, local da revelação de Deus a Moisés. O berço da fé do povo.

Aí encontra um novo rosto de Deus: rejeição da violência; uma nova missão para um novo futuro.

Esta é a tradição franciscana, a tradição de Francisco de Assis: a recusa do modelo violento de defesa da fé e dos “lugares santos” (as cruzadas); o diálogo com o sultão, a via da fraternidade e o caminho e de uma presença nos lugares santos, que se torna possível sem ser dono dela, que se partilha sem a impor. É algo de semelhante o caminho de busca do rosto de Deus pelos frades da Arrábida. Essa busca transforma a rudeza da montanha e a bravura do mar, em poesia, louvor, admiração e fascínio de comunhão, sem destruir a montanha nem encurtar a imensidão poderosa do mar.

As modestas construções que edificaram e hoje salpicam a montanha sem a deformar, mostram o ideal que o Papa Francisco propõe na encíclica Laudato si’, para a ligação entre o homem e a natureza, a fim de nela e dela viver, a ela aperfeiçoar, sem a deturpar ou mutilar.

 

O segundo é o quadro de Jesus e os Discípulos: contemplação e a ação transformadora.

 

Poesia, N'alma escrito, Agostinho da Cruz

Ilustração da capa do livro N’Alma Escrito: “Faz muita falta esta atitude de integração e de busca de sentido.”

 

O entusiasmo da (primeira) experiência missionária dos discípulos: voltam entusiasmados: o anúncio do Evangelho “funcionou mesmo”: libertaram pessoas das suas prisões internas e externas e do mal, curaram doentes, deram esperança, reconciliaram e fizeram nascer uma comunidade com capacidade de aderir ao sonho de um mundo novo. No entanto, voltando para junto de Jesus, as urgências continuavam: “nem tinham tempo para comer”.

Jesus quebra o ciclo frenético do “fazer”, mesmo do fazer “coisas boas” e chama a atenção para o fundamental da missão: tinham sido chamados “para estarem com Ele e para serem enviados a anunciar”.

Se não partem desse binómio, o mais certo é perderem-se em si próprios e nos seus projetos de grandeza e de domínio, deixando de entender o novo projeto onde foram chamados a inserir-se. E, nesse projeto, não simples trabalhadores baratos, mas protagonistas, junto do Mestre. Se não deixarem que o projeto aconteça neles, não vão levar nem dizer nada de significativo.

Por outro lado, como para Elias e o próprio Jesus, a contemplação é prelúdio de missão, de anúncio, de cuidar das urgências da multidão, de ação. De contrário, a fé torna-se alienação e diletância autorreferencial. A contemplação é deixar-se guiar por Deus nos sonhos, para que possam ter validade, realização e perenidade.

Por isso, a poesia é verdadeira ação. Poesia vem do grego (poiéô – fazer): o dizer poético torna-se concretização comunicada do sonho, torna-se expressão orante de comunhão com o Senhor de todos os sonhos, música, arte. Palavra (logos), com uma força maior do que a dos exércitos, porque muda corações, congrega vontades e liga-se com o Senhor da vida que lhes dá literalmente sentido força e imortalidade.

No caso de Agostinho da Cruz e dos seus colegas eremitas, a montanha que eles admiraram sem destruir, o mar que cantaram sem poluir, ainda hoje falam, nas toscas construções que, há séculos, embelezam a paisagem e convidam a embrenhar-se no ser de si próprio e do mundo, para perceber a sua beleza, nobreza e também rudeza, como apelo a uma leitura integrada da vida, do mundo e do seu Criador.

Tudo isso se torna, em Frei Agostinho da Cruz, como nos profetas, nos místicos, nos santos, uma estética do viver, do cantar, do rezar, que fascina e se perpetua dando vida, porque vem carregada de vida vivida e tornada palavra, para suscitar nova vida.

No mundo complexo e em constante e radical transformação em que vivemos, esta atitude de integração e de busca de sentido faz muita falta e Frei Agostinho da Cruz e a sua Arrábida continuam a apelar à busca dessa chave de interpretação que integra o local e o universal.

 

O quadro do mar e da universalidade da fé e da humanidade (Carta aos Efésios)

 

Agostinho da Cruz numa aguarela de João Salvador Martins (2013): Um mundo só compreensível na sua complementaridade e interdependência

 

Uma imensidão a respeitar na sua grandeza, mas que fascina, atrai: como conflito ou como reconciliação. Aí torna-se particularmente importante o discernimento da contemplação do rosto de Deus.

Fica apenas a necessidade de um mundo que não se pode conceber por unidades destacadas, nem apenas contíguas, mas que só são compreensíveis na sua complementaridade, interdependência e à luz da universalidade da “solidariedade” e do amor; à luz de Deus. O contrário será o mundo da autorreferência estéril, do egoísmo egocêntrico como dos buracos negros, que não permitem existências diversificadas e independentes. Longe de serem expressão de poder, são evidência de um estado decadente de sistemas estelares, que antecedem a implosão, que tudo devoram na ânsia de não morrer, onde até a luz fica aprisionada. É o contrário do big-bang que se alarga, desconcentra e cria diversidade de mundos e de vida. Na imagem figurada da Bíblia, a criação de Deus começa precisamente pelo raiar da luz!

Que este centenário que agora se conclui possa deixar-nos, na nossa Igreja, na nossa península de Setúbal este mesmo peregrinar da vida e do seu sentido, para encontrar o rosto de Deus, escutar a voz da multidão e partir o pão que alimenta o corpo e o espírito, sem nunca renunciar aos horizontes que Ele nos abre.

 

Azeitão, 17-07-2021

José Ornelas, bispo de Setúbal

 

 

“A quem mais quiser dizer…

 

Ruy Ventura no final da eucaristia de encerramento das comemorações: “Houve gratíssimas surpresas de adesão e entusiasmo.” Foto: Direitos reservados.

 

No dia 13 de Junho de 2018, D. José Ornelas Carvalho assinou um decreto pelo qual me nomeou comissário diocesano responsável pela celebração da memória do poeta Frei Agostinho da Cruz (1540 – 1619), nos 400 anos da sua morte e nos 480 do seu nascimento. O objectivo era – assim se lê no documento – “dar a conhecer a sua personalidade profundamente contemplativa, a sua obra literária de elevado fervor místico e o seu contributo para a evangelização das nossas terras de Setúbal”.

A nomeação foi assinada (…) em dia de Santo António, o homem que casou a pobreza franciscana com a sua elevada cultura. E, embora o responsável encarregado de levar a barca a bom porto fosse (seja) apenas um poeta e investigador migrante, um exilado nas terras arrábidas, procurando conhecê-las para entender o quanto foram importantes como eixo espiritual e cultural de Portugal, um aprendiz eterno, as comemorações tomaram caminho e foram-se conduzindo. (…)

Publicaram-se quatro livros, organizaram-se celebrações e conferências, apresentou-se uma exposição, fizeram-se palestras e visitas guiadas, escreveram-se artigos, ensaios, crónicas aqui e além, participou-se em programas de televisão, motivaram-se leitores de Frei Agostinho a expressarem a sua leitura e a importância da sua poesia, estimularam-se pequenas homenagens (quantas vezes discretas). Incitaram-se instituições da sociedade civil e da Igreja, comunidades, pessoas, muitas pessoas.

Houve gratíssimas surpresas de adesão e entusiasmo. (…) Houve muita leitura. E, sobretudo, uma certeza: o exemplo de vida e a poesia de Frei Agostinho da Cruz – esse franciscano arrábido que se recolheu, afirmando o seu amor a Deus enquanto liberdade e protestando contra a prepotência dos poderosos e a cegueira dos fanáticos – estão vivos, continuam muito incómodos e conservam uma enorme actualidade nestes tempos tão cinzentos.

17 de Julho de 2021 (vésperas da festa de S. Bartolomeu dos Mártires, que viveu em Azeitão e marcou o mundo cristão) foi dia de encerramento das comemorações, assinalado por uma eucaristia celebrada na igreja de São Lourenço de Azeitão, onde algumas vezes ajoelhou o poeta. Foi dia de agradecimento a todos quantos contribuíram para que estas comemorações fossem o que foram, a todas as instituições (e tantas foram!) que contribuíram para que elas marcassem quem delas se aproximou, mas sobretudo a Deus por ter feito nascer e crescer um homem e um poeta como Frei Agostinho da Cruz.

A presença de D. José Ornelas Carvalho, dos autarcas de Setúbal, dos responsáveis pela Misericórdia de Azeitão, de membros da Ordem dos Frades Menores, de Teresa Salgueiro (com a sua voz que toca tantas vezes a inefabilidade), de Dina Barco lendo poemas que há 400 anos ninguém lia, de muito povo numa serena e pacífica reunião disse muito… e ficará na memória. [Como afirma] uma escritora do Alto Alentejo, Maria Tavares Transmontano:

 

“Fiz o que julguei ‘star certo,

Fiz o que pude fazer,

E deixo o caminho aberto

A quem mais quiser dizer.”

 

Ruy Ventura, comissário das comemorações de frei Agostinho da Cruz

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