“…suponho que Fernando Pessoa pensa que Portugal não teve apenas um papel histórico num certo século,
para mostrar ao mundo o que era o mundo, que foi o que Portugal fez,
mas que precisa de continuar essa obra e passar agora a outro descobrimento muito mais importante,
que é o descobrimento da natureza humana e da sua realização plena.
Que Portugal apenas descobriu ao mundo o mundo material, descobriu os outros continentes,
mas que precisa agora que as pessoas descubram,
não apenas o mundo que têm fora de si, mas o mundo que dentro de si têm.”
Agostinho da Silva, citado por Miguel Real,
O Pensamento Português Contemporâneo – 1890-2010 – O labirinto da razão e a fome de Deus (pp.538-539)

Agostinho da Silva: “Uma espécie de pai espiritual.” Imagem captada de uma entrevista à RTP, disponível no Youtube.
Na minha juventude, Agostinho da Silva foi-me uma espécie de pai espiritual. A heterodoxia do seu pensamento (ele diria que não era do ortodoxo nem do heterodoxo, mas do paradoxo), ao mesmo tempo radicada numa visão espiritual do mundo, aberta, indagadora e antidogmática, era para mim fonte de inspiração e formou, em larga medida, o meu próprio pensamento – até hoje.
Para além de grande educador e pensador da Educação, Agostinho da Silva foi um pensador original pelo modo como reinterpretou criativamente o providencialismo espiritual da tradição saudosista portuguesa nos seus dois mitos fundamentais: a Idade do Espírito Santo (teoria do franciscano espiritual Joaquim de Fiore, italiano) e o Quinto Império (Padre António Vieira e Fernando Pessoa).
A sua visão não era chauvinista e muito menos nacionalista, não no sentido mesquinho, dogmático e vicioso que a palavra veio a assumir. Nunca defendeu qualquer superioridade ontológica ou metafísica da “raça portuguesa” ou sequer uma superioridade cultural, o que seria deveras ridículo. Muito pelo contrário, se havia, a seu ver, uma especifidade portuguesa, ela poderia caracterizar-se mais ou menos do modo como Fernando Pessoa o faz numa famosa entrevista de 1923: “O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.”[1]
Neste contexto, Agostinho da Silva recupera e atualiza os mitos já citados para deles colher horizontes de futuro para a humanidade inteira. Dito de outro modo, serve-se deles para estabelecer um horizonte espiritual redentor da Humanidade, que era aquilo que Pessoa preconizava na Mensagem, a saber: o advento de um império do espírito, longe dos ditames da estrita materialidade. Porque era – e é – necessário combater os chamados “três dragões” que, segundo Agostinho da Silva, assolam a Humanidade:
«O primeiro é o ideal de um produto bruto nacional sempre crescente e um sempre mais elevado nível de vida material. Neguemos tal ideal. O que queremos é que o produto nacional seja distribuído com justiça, isto é, com amor, e que a qualidade do nível de vida seja elevada.
(…) O segundo dragão é a informação, desde a bisbilhotice e a escola até à imprensa e à televisão. O modo de lutar é dizer a verdade, e somente a verdade.
(…) E eis que chega o terceiro dragão, o pior deles todos – a nossa tendência de pertencer a grupos, de ter um partido político ou uma igreja que pense por nós, de consultar ou seguir professores e gurus, numa palavra, de engolir a vida como criança chupa o leite do biberão. Na realidade nós somos piores, porque no nosso caso o leite já está digerido. Está alerta em relação à dinâmica de grupos. (…) Podes, e deves, ter ideias políticas, mas, por favor, as tuas ideias políticas, não as ideias do teu partido; o teu comportamento, não o comportamento dos teus líderes; os interesses de toda a humanidade, não os interesses de uma parte dela. E lembra-te que “parte” é a etimologia de “partido”»[2]

A Batalha de Ourique em azulejo: “Os mitos nacionalistas românticos nada têm que ver com o desejo de abraçar a humanidade inteira na sua diversidade. Foto © Joseolgon | Wikimedia Commons
Os mitos nacionalistas românticos nada têm que ver com o desejo de abraçar a humanidade inteira na sua diversidade. Mas num mundo desencantado, que com frequência anatemiza referências transcendentes, certos mitos podem e devem ser interpretados naquilo que têm de universal e conforme às aspirações mais profundas do ser humano. É nesse registo interpretativo que se deve ler o uso que deles faz Agostinho da Silva.
Cada povo, cada nação, segundo entendo, procura expressar singularmente o universal do humano, através dos seus mitos, instituições, produtos filosóficos e culturais. Uma nacionalidade não é, não deve ser, um ídolo construído sobre os pés-de-barro de mistificações históricas, ontológicas, pseudo-científicas. Sabemos bem ao que esse tipo de nacionalismo patrioteiro tem conduzido a Humanidade. Uma nacionalidade não é senão um meio histórico – meio no sentido de espaço e de instrumento – para a revelação singular da universalidade do Ser Humano, individual ou coletivamente; por conseguinte, uma realidade aberta, assente, por certo, num passado, mas voltada para o futuro, um futuro que tem como escopo e escatologia a unidade possível, orgânica e genuina, de todos os seres humanos, à imagem da unidade absoluta que é a sua vocação transcendente.
É portanto vocação de cada ser humano, qualquer que seja a sua situação histórica, consumar-se na sua natureza fundamental, que é espiritual, na medida do que alcança a sua finitude no seio do Infinito. A “nova Índia” à qual importa agora chegar não é já a da geografia e da matéria, conquistada no transe da força e da vontade de domínio, mas a do coração humano. O que importa doravante é que, como diz Agostinho da Silva na epígrafe, “as pessoas descubram, não apenas o mundo que têm fora de si, mas o mundo que dentro de si têm.”
Não há outra missão maior à qual um povo possa ser chamado senão esta. Se Portugal é, segundo Agostinho da Silva – na esteira de Pessoa – a ela chamado, não é porque seja uma nação ontologicamente especial ou superior, mas porque não pode ser de outra maneira, qualquer que seja o povo. O que se exige à “portugalidade” é o que, na sua essência, se exige ao resto da Humanidade, e a cada ser humano em particular: a aprendizagem do “ser nada”, a aprendizagem filosófica da morte (como Sócrates queria), para que o essencial se revele e tome o seu lugar, e o ser humano descubra, na sua humildade abraçada, na sua ignorância assumida, o seu verdadeiro estatuto e dignidade no seio da Realidade, o seu verdadeiro sentido e sua liberdade autêntica.
Os mitos do Quinto Império e da Idade do Espírito Santo, ambos contêm, na sua matriz, e se bem entendidos – i.e. se entendidos cristiananamente segundo a essência da mensagem e do exemplo de Cristo – os ideais universais: do fim da política, no sentido de domínio opressivo do homem sobre o homem; da fraternidade humana universal e incondicional (que não é senão comunicação humana genuína entre seres humanos dotados de plenitude de liberdade interior); enfim, do “Reino de Deus” como território novo do Ser e da Verdade, herança a haver de alegria, espontaneidade, partilha, pobreza voluntária e abundância anímica e espiritual. Nesse sentido e só nesse, enquanto expressões do universal no humano, chaves de leitura dos tempos, horizontes ideais de realização humana, podem eles ser entendidos e entendida também, assim, a “missão histórica” de Portugal.
Gostava, para terminar, e no espírito do que foi dito, deixar aqui um pequeno texto cujo título alude a um importante tratado geo-astronómico do séc. XIII, o “Tratado da Esfera”, escrito pelo inglês João de Sacrobosco e traduzido pelo matemático português Pedro Nunes, no séc. XVI. Pelo seu rigor descritivo e caudal de informação apresentado, teve importância evidente nas viagens de descoberta e conquista empreendidas pelos portugueses de quatrocentos e quinhentos. Mas, hoje, a esfera a elucidar já não é a do firmamento, nem aquela a conquistar a do globo terrestre…
O verdadeiro Tratado da Esfera

O cometa Neowise, fotografado em 18 de Julho de 2020 na Praia da Barra (Aveiro): “Tudo está ligado a tudo, e as distâncias só na aparência existem e são intransponíveis.” Foto © Francisco Marujo
O verdadeiro antropocentrismo é um teocentrismo. O Centro está em toda a parte – porque não está em nenhuma parte. Colocar-se no centro é reconhecer-se alinhado com o Centro. Em toda a parte, a alma pode ser “axis mundi” – o eixo do mundo, enquanto for verdadeiramente alma, quer dizer, expressão singular do Universal.
É esta a Esfera total e absoluta que devemos habitar; ela é a nossa próxima conquista. Conquistá-la-emos quando descobrirmos que, no centro do nosso ser, a circumnavegação está infinitamente consumada, e o Princípio e o Fim são um e o mesmo. Conquistá-la-emos quando soubermos que habitar a Esfera não significa habitar um ponto particular e ínfimo da circunferência, mas estar sempre no Centro – no fundo, ser a própria Esfera.
Descobrir-nos-emos a Esfera, quando nos for evidente que estamos sempre onde devemos estar, e que o vento é o verdadeiro pneuma/espírito que tudo liga a tudo, e que somos o próprio vento.
Mas, para tal, o nosso vínculo tem de ser com o incondicionado que transcende todos os vínculos temporais; o nosso vínculo tem de ser com a transcendência que une absolutamente; com o centro imóvel que tudo move e dispõe e cria infinitamente e eternamente sem jamais desbaratar a absoluta unidade.
Saberemos que estamos no Ser quando cada coisa, cada gesto, cada brisa, cada melodia, cada silêncio, nos trouxer uma paz íntima de íntima comunhão. Estamos no Todo e nada nos limita. Somos parte orgânica, essencial e inalienável da Aventura do Todo. Estamos no Ser.
Quando nenhum horizonte for para ti limite intransponível, e fores capaz de intuir ou pressentir a Totalidade que o resolve, e isso te dá uma íntima alegria e uma íntima paz…
Se consegues, em tudo, discernir a abertura para o infinito da unidade absoluta…
Tudo está ligado a tudo, e as distâncias só na aparência existem e são intransponíveis.
Tudo está ligado a tudo – o eletrão não é “um” enquanto é extraído, pela consciência, do quantum indeterminado de energia ondulante que abrange o universo inteiro. Enquanto não é medido, não existe – palavras de Bohr. Dois eletrões postos a milhões de anos-luz um do outro podem influenciar-se mutuamente a uma velocidade infinitamente superior à da luz (quantum entanglement). Se se põe um “a rodar”, o outro acusa exatamente o mesmo movimento, instantaneamente. Na verdade, não permutam nada, antes parece que um e outro são o mesmo, ou pertencem a uma mesma fundamental realidade. Quanto mais fundamental, mais comum. Quanto mais comum, mais um.
A nossa própria consciência é a mais patente evidência de uma íntima unidade dada a si própria. Se assim não fosse, nada veríamos, nada experienciaríamos.
O Um está “dentro” de nós e “fora” de nós, mas na realidade não existe “fora”. Há apenas interioridade.
Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa). Contacto: intelecto.ativo@gmail.com
Notas
[1] In http://arquivopessoa.net/textos/980
[2] Agostinho da Silva, “Três dragões” [1973], in Textos e Ensaios Filosóficos II.









