Duas horas e meia foram curtas para ouvir quantos quiseram hoje, dia 27 de janeiro, dar testemunho da importância do seu convívio e do seu encontro com um dos “homens maiores” de Portugal entre dois séculos, como foi qualificado o padre Agostinho Jardim Gonçalves por José Pedro Castanheira, moderador da sessão de homenagem que amigos jornalistas promoveram na Casa de Imprensa, em Lisboa, no dia em que o homenageado completaria 93 anos.
A moderação adivinhava-se, pelo número de pessoas sentadas à mesa (nove!) e outras que da plateia já tinham sinalizado a sua intenção de tomar a palavra, tão impossível como sentar todos os que enchiam por completo o Salão Nobre da Casa da Imprensa. Mas, por milagre a que o bom humor e alegria do homenageado não terão sido alheias, o impossível foi conseguido: não só quase todos os presentes acabaram por arranjar assento, como a polifacetada existência de Agostinho Jardim Gonçalves foi testemunhada por mais de 16 pessoas que de forma concisa, mas não menos certeira e comovente, desfiaram memórias significativas da sua vida.
Hoje, naquele salão nobre à cunha, ele foi o irmão mais velho, para sempre e só chamado pelo diminutivo ‘Agos’; o amigo dos mais novos de muitas famílias madeirenses (e não só) que o tratavam por ‘Tio Agos’; o padre Jardim que ajudou mulheres trabalhadoras da Juventude Operária Católica Feminina (JOC/F) e da Liga Operária Católica Feminina (LOC/F) a “perderem o medo” e lutarem pelos seus direitos de mulheres e operárias; o padre Jardim Gonçalves que contribuiu para que o movimento operário católico fosse uma força incontornável na formação da CGTP; o Agostinho que viajou pela América Latina apoiando grupos de gente muito pobre a construir o seu futuro com o apoio do Comité Catholique contre la Faim et pour le Développement (CCFD); o Jardim fundador da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento; e o padre que “sempre quis ser e que sempre foi para todos os que dele precisavam, ou que ele pensava que precisavam”; ou, ainda, o bispo que nunca foi, por fidelidade aos seus amigos de sempre, “companheiros da sua luta por um mundo mais justo e fraterno”.
Como recordou Inês Rapazote, madeirense de uma geração mais nova, o “’Tio Agos’ saiu do Machico para o mundo, mas o Machico nunca saiu dele” e foi esse tempo que o fez “lutar pelo que lutou” que o fez, sem contradição alguma, “homem da Igreja e homem da política”. Para ela – que disse: “não lutei, não conspirei, não sofri com ele, apenas bebi da sua sabedoria” –, não era sem sentido que todos os anos lhe dava os parabéns na véspera da sua data de nascimento, por ser esta a data averbada oficialmente. Era porque “só um homem grande pode nascer duas vezes.”

A mesa da homenagem ao padre Agostinho Jardim Gonçalves. Foto © António José Paulino
Cofundadores da CGTP-IN
“No meu tempo tínhamos medo. Tínhamos medo do pai e do patrão. Tínhamos medo enquanto jovens operárias e enquanto mulheres. O padre Jardim tirou-nos o medo. Fez-nos descobrir coisas que não sabíamos termos em nós. Desenvolvia entre nós uma amizade alegre, confiante, nada piegas e nunca paternalista que nos tornou fortes e decididas”, lembrou Natividade Cardoso que presidiu à LOC, “eleita por homens e mulheres”. Natividade não tem dúvidas: “Sem o padre Jardim não tínhamos o país que hoje temos, nem os direitos das mulheres seriam respeitados como são.”
A importância decisiva do Padre Jardim na formação e no desenvolvimento dos movimentos operários católicos entre os anos sessenta e oitenta do século passado foi corroborada pelo padre Horácio Noronha, açoriano: “Ele dedicou a vida à emancipação, à dignificação dos trabalhadores” e para o exemplificar contou uma história que o padre Jardim lhe contara como orientação para a vida: “ao operário que estava a cavar os alicerces de uma catedral perguntaram: ‘que estás a fazer?’ E ele respondeu: ‘estou a construir uma catedral!’ – essa é a verdadeira dignidade de quem trabalha.”
O sindicalista José Luís Judas encontrou o padre Jardim no outono de 1969, no âmbito das eleições legislativas então promovidas (e controladas) pelo regime de Marcelo Caetano. Já então era militante do Partido Comunista na clandestinidade, mas a amizade aí nascida permitiu construir pontes e convergências entre o movimento operário católico e o movimento operário comunista. Para o antigo dirigente sindical é errado ver a criação da CGTP-IN e o seu crescimento como obra exclusiva de militantes comunistas: “A CGTP tanto deve o seu nascimento aos militantes comunistas como aos militantes católicos. Em vários distritos, como o do Porto, de Braga, de Castelo Branco e em outros, a influência do movimento operário católico era muito maior do que a presença dos poucos militantes operários comunistas existentes nessas zonas.” O ex-dirigente comunista é perentório: “Todas as conquistas sociais que os trabalhadores conheceram depois do 25 de Abril estão ligadas ao padre Jardim e à LOC, sendo que esta é, de algum modo, o verdadeiro ‘soldado desconhecido’ desta luta” – considera Judas, que remata: “Tenho pena que os cristãos não reivindiquem esta memória”.
Por tudo isto e o mais que foi evocado, o bispo emérito Januário Torgal Ferreira reconhece, em mensagem enviada ao encontro, que Jardim Gonçalves é “uma figura corajosa e única que mereceria uma homenagem nacional promovida pela Igreja Católica em Portugal”.
“Homem do mundo e da igreja, padre”

Padre Jardim Gonçalves: “a sua importância na construção de momentos altos de comunicação e debate entre a Igreja do Patriarcado e a sociedade portuguesa no tempo do cardeal José Policarpo, de quem foi chefe de gabinete. ” Foto © Patriarcado de Lisboa
O contributo de Agostinho Jardim Gonçalves em vários movimentos internacionais de operários católicos ou de ajuda ao desenvolvimento foram largamente evocados, bem como a sua importância na construção de momentos altos de comunicação e debate entre a Igreja do Patriarcado e a sociedade portuguesa no tempo do cardeal José Policarpo, de quem foi chefe de gabinete.
José António Santos travou conhecimento com o padre Jardim enquanto jornalista do Diário de Notícias, em 1998 e recorda a novidade que então representaram as ações concebidas por aquele que era o diretor do Secretariado de Comunicação Social da Diocese de Lisboa para estreitar as relações entre os jornalistas e o cardeal-patriarca: seminários, oferta de formação e capacitação dos jornalistas para tratarem com rigor os temas religiosos; facilitação de contactos; pronta resposta às perguntas colocados pelos profissionais dos media. Essa facilidade de relação e de contacto pertence a um tempo que já lá vai e não voltou a repetir-se e “terá sido mérito de D. José Policarpo, mas resultou também do intenso trabalho do padre Jardim Gonçalves”.
Fernando Abreu, 91 anos, jocista dos anos sessenta, palmilhou o país de fio a pavio, em longas jornadas de comboio, tendo-o como companheiro de viagem. “Fiquei a conhecê-lo por dentro e por fora. Dizia sempre que tinha aprendido mais nos movimentos operários do que no seminário. Aprendi com ele que ‘Deus pode ajudar, mas temos de ser nós a agir’ e foi graças a ele que não perdi a fé, apesar da qualidade da hierarquia que tínhamos, que me escuso de comentar” – sublinha Abreu.
De fé, abertura a todos e determinação falou Jorge Jardim Gonçalves, irmão mais novo de Agostinho que evocou a resolução com que ele quis entrar para o seminário aos 10 anos. Obrigado pela mãe a fazer o liceu antes de ‘seguir para padre’, Agostinho lá fez o primeiro ano do liceu, mas sempre na mira do internato no seminário. E venceu a resistência da mãe: no ano seguinte lá vai ele, trocando resolutamente a carta materna por anos de internato no seminário. Agostinho foi muita coisa, acolheu muita gente, “sempre quis ser para quem dele precisava”, mas, disse o seu irmão Jorge, “foi sobretudo padre e foi feliz”, “os amigos não o roubaram à família, nem vice-versa”. Em casa foi sempre o Agos, o mais velho, aquele que batizou quantidade infindável de sobrinhos e de sobrinhos-netos, não se perdoando ter faltado a um deles. No seu último momento “repetiu várias vezes o nome de Jesus” e, repete agora o seu irmão, “foi, sobretudo, aquilo que sempre quis ser: padre. Um padre feliz”.
Um mundo mais justo e fraterno
O padre Jardim Gonçalves viveu “uma vida inteira a lutar por um mundo mais justo e fraterno”, como escreveu António Henrique Sampaio no 7MARGENS, num texto em que traça o percurso do seu conterrâneo centrado na sua inserção e relação com a Igreja Católica na Madeira, mas sem deixar de sublinhar que o Padre Jardim “foi indiscutivelmente uma das figuras mais marcantes da Igreja portuguesa, designadamente ao longo do século XX e do início deste”.
Agostinho Jardim Gonçalves nasceu a 27 de janeiro de 1932 em Santa Maria Maior (Funchal), frequentou o seminário e foi ordenado padre ainda no Funchal, em 1956, tendo trabalhado depois na paróquia do Machico e como assistente da Ação Católica no meio rural.
Em 1960, o bispo David de Sousa nomeou-o chefe de redação do Jornal da Madeira, mas logo a seguir foi escolhido para assistente nacional da Juventude Operária Católica Feminina e da LOC. Enquanto decorria o Concílio Vaticano II em Roma, Jardim Gonçalves criou em Lisboa, com outros, o Centro de Cultura Operária Católica. Em 1967, foi eleito assistente europeu do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos (MMTC) e, no ano seguinte, nomeado pela Santa Sé assistente geral do mesmo movimento. Esteve em 1969 na fundação da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (CNSPP) e em 1974 integrou a redação do jornal República, participou na fundação da Base-FUT e integrou depois os Cristãos em Reflexão Permanente, grupo de leigos e padres que pretendia intervir no debate político da época.
Nesse ano, o Papa Paulo VI designou-o secretário do Sínodo dos Bispos sobre a evangelização no mundo contemporâneo. Mais tarde, na década de 1980, foi responsável do CCFD [Comité Católico contra a Fome e pelo Desenvolvimento, da sigla francesa], organismo do episcopado francês para a cooperação com o ‘terceiro mundo’. Essa experiência leva-o a fundar, em Portugal, em 1988, em conjunto com o frade dominicano Luís de França e o pastor da Igreja Presbiteriana, José Manuel Leite, a Oikos – uma ONGD de apoio ao desenvolvimento dos países do sul global [ver 7MARGENS].
Além de ter sido pároco de Alfornelos (Amadora), assumiu o cargo de chefe de gabinete do então cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, entre 1998 e 2010. Em 2019, na sequência de um problema de saúde, passou a viver na Casa do Clero do Patriarcado de Lisboa, onde residira até à sua morte a 22 de dezembro de 2024.

Aspeto da assistência no Salão Nobre da Casa da Imprensa. Foto © António José Paulino
(Foto de destaque: O jornalista José Pedro Castanheira presidiu à homenagem que teve lugar na Casa da Imprensa. © António José Paulino)
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