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massacre tigre etiopia Foto Tigrai Media House

Etiópia

Agravamento do conflito no Tigré leva a fuga das populações

| 01/11/2021

massacre tigre etiopia Foto Tigrai Media House

 

“As coisas estão a piorar e agora nós temos de fugir.” A curta mensagem, enviada domingo, 31 de Outubro, por um missionário católico para a directora de comunicação da fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), traduz o desespero que se vive na cidade de Kombolcha, no centro-norte da Etiópia, 380 quilómetros a norte de Adis-Abeba.

“Agora estou sozinho com os vigias. Vou ver se também posso fugir amanhã [dia 1 de Novembro]. A guerra está agora mais difícil”, disse o religioso, que por razões de segurança não pode ser identificado.

De acordo com a AIS, o clérigo pedia ainda, na mensagem enviada à jornalista Maria Lozano, orações de todos pelo sacrificado povo etíope, por causa do agravamento do conflito armado entre as forças do Governo e os elementos da Frente de Libertação do Povo Tigré, que combatem no território.

O missionário alertara já há poucos dias para o agravamento do conflito, conta a AIS, confirmando aliás notícias de agências e observadores internacionais. O número de pessoas em fuga tem aumentado, o que agrava a já muito delicada situação humanitária na região, nomeadamente ao nível alimentar.

Na mensagem anterior, de acordo com a mesma fonte, o missionário descrevia um cenário de combates e de população em fuga: “Ouvimos bombas a cair nas montanhas, as coisas estão a ficar muito difíceis, não conseguimos dormir, estamos vigiando. Há toque de recolher entre as 18h00 horas e as seis da manhã, mas fora desse período, estamos a tentar acompanhar a evolução.”

As pessoas tentam fugir para sul, em direcção à capital, contava ainda. Mas vários responsáveis católicos insistiam em ficar. “Nós, os padres, estamos aqui com as pessoas, para ver como as coisas evoluem.”

Os combates entre as forças governamentais e o grupo separatista Frente de Libertação do Povo Tigré tiveram início há praticamente um ano, no dia 4 de Novembro de 2020, e envolveram já militares da vizinha Eritreia. Há já numerosas vítimas mortais e também milhares de deslocados internos.

Há poucos dias, o mesmo missionário contabilizava: “Na cidade de Kombolcha, temos mais de quatro mil deslocados internos, estando muitos outros nas cidades vizinhas. Temos testemunhado muito sofrimento, com muitas pessoas a morrer, outras a ficarem desalojadas, sem comida, água, medicamentos ou abrigo…”

De acordo com o mesmo relato, as prioridades estão todas viradas para a sobrevivência imediata das pessoas vítimas do conflito. “Estamos a fazer o possível para encontrar comida, cobertores e água para alguns destes deslocados internos, muitos dos quais bateram à nossa porta. O problema é que eles são muitos e a nossa pequena ajuda é apenas uma gota.”

O conflito na região deixou-a praticamente isolada do mundo. Em Julho, a ONU calculava que havia cerca de 400 mil pessoas em risco de fome. Sete líderes internacionais com experiência na resolução de conflitos escreveram nessa altura ao primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, pedindo-lhe que tomasse medidas imediatas para pôr fim à violência e atrocidades cometidas na região do Tigré. Entre eles, estavam José Ramos-Horta, antigo Presidente de Timor-Leste e Prémio Nobel da Paz 1996; e Ban Ki-moon, ex-Secretário-Geral da ONU, como o 7MARGENS noticiou.

Com cerca de 60% de cristãos (perto de 50% ortodoxos, entre 15-20% protestantes e evangélicos), e 35% de muçulmanos, a Etiópia tem uma rica tradição cristã. A par da Arménia, é um dos países onde o cristianismo mais cedo se implantou. O seu actual primeiro-ministro, Abiy Ahmed Ali, recebeu o Prémio Nobel da Paz em 2019, pelos esforços em promover a paz com a Eritreia.

Mas na altura houve várias críticas considerando que o galardão estava a ser atribuído cedo demais. Nos últimos meses, com o conflito na região do Tigré, essas críticas têm sido redobradas.

 

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