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Aos 54 anos, Edna Queirós decidiu cumprir um sonho. “Tirei um mês de férias para ir em missão”. Foto: Direitos reservados. Costa do Marfim Missionários da Consolata
Aos 54 anos, Edna Queirós decidiu cumprir um sonho. “Tirei um mês de férias para ir em missão”. Foto: Direitos reservados.

Costa do Marfim

Água, educação e esperança, a missão de Edna

| 22/02/2026

 

Edna Queirós deixou Gondomar durante um mês e partiu rumo à África Ocidental. A voluntária distribuiu material médico, prestou apoio escolar, esteve envolvida na instalação de um depósito de água e na conclusão de uma loja comunitária destinada a promover a autonomia financeira das mulheres.

Aos 54 anos, Edna Queirós decidiu cumprir um sonho. “Tirei um mês de férias para ir em missão” diz a voluntária, adiantando que o patrão lhe “deu mais 15 dias de férias para descansar” da sua atividade missionária. Assim, entre os passados dias 25 de setembro e 24 de outubro, Edna deixou a cidade onde reside – Gondomar, no distrito do Porto –, fez uma pausa no seu trabalho como comercial no setor das tecnologias de informação e partiu como voluntária dos Missionários da Consolata para Dianra, no noroeste da Costa do Marfim, país onde esta congregação católica está presente desde 1996, e cujas infraestruturas acolheram Edna ao longo da sua missão.

Antes da partida para a Costa do Marfim – um país cuja língua oficial é o francês, idioma dominado por Edna –, a voluntária angariou fundos para esta missão e deu o seu testemunho em diversas eucaristias, onde apresentou algumas características do local para onde se dirigia: “Dianra enfrenta desafios profundos como a pobreza extrema, analfabetismo elevado, desnutrição infantil, mortalidade materna e exclusão das mulheres do mundo laboral”, explicava então aos fiéis.

Na bagagem para a Costa do Marfim – um país onde a maioria da população é muçulmana e os católicos são um grupo pequeno, mas em crescimento –, Edna transportou diversos bens. “Levei medidores de controlo de glicemia, material de enfermagem como gazes esterilizadas e seringas, medicamentos, produtos de recolha menstrual, assim como balões e vernizes para as unhas”, diz à revista Fátima Missionária. O seu trabalho missionário foi guiado pelo tema – “Missão esperança: Uma jornada de coração aberto” –, e foi partilhado online em instagram.com/voluntariado_consolata/, página onde ainda hoje continua a divulgar informações sobre aquele povo, com o qual mantém contacto.

A voluntária levou na bagagem material médico. Na imagem, o Centro de Saúde José Allamano, em Dianra, no noroeste da Costa do Marfim. Foto: Direitos reservados. Missionários da Consolata

A voluntária levou na bagagem material médico. Na imagem, o Centro de Saúde José Allamano, em Dianra, no noroeste da Costa do Marfim. Foto: Direitos reservados.

Agricultura de subsistência

Foi através desta rede social que Edna descreveu a realidade que encontrou. “Nas zonas rurais, como Dianra, a agricultura de subsistência é o principal meio de sustento. Sem acesso à tecnologia, formação ou financiamento, a produtividade é baixa e os rendimentos, limitados.”

Contudo, neste cenário de pobreza, Edna viu esperança. “Na aldeia de Dianra Village, visitei o Centro de Saúde José Allamano, que serve mais de 10 mil pessoas de 11 aldeias.” Aquele espaço alberga farmácia, laboratório de análises, consultório dentário, maternidade, centro nutricional e centro de diagnóstico e tratamento da tuberculose. “Ali, as mães recebem apoio e as crianças são vacinadas e alimentadas com refeições nutritivas preparadas com produtos locais.” Este foi um dos pontos onde Enda distribuiu alguns dos bens que levou. “Entreguei material médico a Barbara Trzi, uma médica reformada e missionária italiana, e testemunhei o impacto real da solidariedade.”

Numa região onde “apenas 20 por cento dos alunos continuam os estudos após concluírem o ensino primário”, Edna deu “explicações de inglês, francês e história” e encontrou alunos “motivados” que “querem aprender”. “É um verdadeiro prazer ensiná-los”, escreveu a voluntária no seu diário de missão. A forma como a fé é vivida naquela região enterneceu a portuguesa. “A comunidade caminha horas para participar na eucaristia. Em Dianra, os domingos são especiais: há duas missas – uma em francês e outra em senoufo, com tradução simultânea. A comunidade acolhe todos. É uma celebração da fé, da educação e da inclusão.”

Na região de Dianra, apenas 20% dos alunos continuam os estudos após concluírem o ensino primário. Na imagem, uma sala de aula dos Missionários da Consolata. Foto: Direitos reservados. Costa do Marfim

Na região de Dianra, apenas 20% dos alunos continuam os estudos após concluírem o ensino primário. Na imagem, uma sala de aula dos Missionários da Consolata. Foto: Direitos reservados.

Instalação de depósito

Naquelas terras, Edna deparou-se com a falta de acesso à água num espaço onde existem salas para apoio escolar gratuito – frequentadas por dezenas de alunos –, o que impossibilitava o funcionamento de casas de banho e comprometia condições básicas de higiene. Numa tentativa de resolver este problema, foram feitos diversos telefonemas para a diáspora portuguesa e o objetivo foi alcançado – “Conseguimos que nos oferecessem um depósito de mil litros de água”. Edna conta que tal “foi possível graças à generosidade dos portugueses que estão em África”. Os benfeitores “não só doaram o depósito, como se envolveram de forma exemplar, desenhando um esboço da instalação e acompanhando cada passo com dedicação e carinho”.

Depósito de mil litros de água já está operacional, garantindo o abastecimento das casas de banho da escola. Foto: Direitos reservados. Costa do Marfim Missionários da Consolata

Depósito de mil litros de água já está operacional, garantindo o abastecimento das casas de banho da escola. Foto: Direitos reservados.

O reservatório já está operacional. “O depósito está no local, devidamente instalado e otimizado para recolher água da chuva. Está a funcionar na perfeição.” A recente precipitação já contribuiu para o seu funcionamento. “As chuvas recentes encheram-no por completo e as crianças não podiam estar mais felizes. Podem usar as casas de banho sem qualquer problema, desfrutando de algo tão simples e essencial como água limpa.” O impacto do depósito está a ser grande. “Esta melhoria não só garante o abastecimento das casas de banho, como também contribui para uma gestão mais sustentável dos recursos hídricos. O espaço escolar que acolhe estas crianças está agora mais equipado, digno e preparado para responder às suas necessidades.”

Loja comunitária

O tempo que Edna dedicou à Costa do Marfim permitiu-lhe também envolver-se no processo de conclusão de uma loja comunitária, que estava por terminar devido à “falta de verbas”. Neste espaço foi instalada uma cobertura, sistema de iluminação elétrica e portas. A estrutura foi rebocada e pintada. Foram ainda colocadas prateleiras, instalados candeeiros e criado um balcão de atendimento. Por fim, o estabelecimento foi finalizado com trabalhos de decoração.

“Este espaço não é apenas uma loja: é um símbolo de esperança, de autonomia e de futuro. Aqui, mulheres da comunidade poderão desenvolver pequenos negócios que lhes permitirão aumentar o rendimento familiar, garantir o acesso à educação dos seus filhos e contribuir para o crescimento da sua aldeia. A loja será fundamental para dinamizar a economia local e promover a autonomia das mulheres da comunidade. A obra representa um passo importante na criação de novas oportunidades de sustento para as famílias”, destaca a portuguesa nascida em Angola.

O nome da loja é em homenagem ao padre missionário da Consolata italiano que dedicou 13 anos da sua vida à Costa do Marfim, Matteo Pettinari. Foto: Direitos reservados. Missionários Consolata Costa do Marfim

O nome da loja é em homenagem ao padre missionário da Consolata italiano que dedicou 13 anos da sua vida à Costa do Marfim, Matteo Pettinari. Foto: Direitos reservados.

A conclusão deste espaço era um dos projetos de que Edna falava aos fiéis nas Eucaristias onde dava o seu testemunho e angariava fundos para a sua atividade missionária. “A loja será um lugar de comércio local, gerido por mulheres, onde se venderão produtos agrícolas, artesanato, artigos religiosos e escolares. Mais do que um ponto de venda, será um centro de encontro e diálogo inter-religioso, promovendo a paz e a solidariedade entre cristãos e não cristãos”, explicava a voluntária.

A obra foi possível “graças aos donativos generosamente oferecidos nas angariações realizadas para este projeto”. Edna expressou o seu agradecimento a todos os envolvidos. “A todos os mecenas que acreditaram neste projeto e tornaram possível esta realidade: obrigada. A vossa generosidade ultrapassou fronteiras e semeou dignidade onde antes havia apenas carência. Cada tijolo, cada gesto e cada euro doado é agora parte de uma história maior, a história de mulheres que vão poder sonhar mais alto. Este é o poder da solidariedade. Este é o impacto de um negócio local com alma comunitária.”

O nome da nova loja – “Boutique Père Matteo Pettinari” – não foi escolhido ao acaso. Matteo Pettinari foi um padre Missionário da Consolata italiano que dedicou 13 anos da sua vida à Costa do Marfim. Era conhecido como o “missionário incansável” e morreu num trágico acidente de viação naquele país africano, a 18 de abril de 2024, aos 42 anos.

Apadrinhamento de alunos

Apesar do regresso a Portugal já se ter dado há algum tempo, os contactos com a Costa do Marfim não param e não deverão cessar tão rápido. Edna decidiu apadrinhar um aluno de Dianra para assegurar a sua educação e já mobilizou pessoas que lhe são próximas a fazer o mesmo. O objetivo é contribuir para o sucesso escolar dos alunos e evitar que estes abandonem a escola. “Suportarei a educação dele enquanto tiver aproveitamento”, referiu a voluntária em declarações à Fátima Missionária.

Edna (aqui na escola em Dianra) decidiu apadrinhar um aluno de Dianra para assegurar a sua educação e já mobilizou pessoas que lhe são próximas a fazer o mesmo. Foto: Direitos reservados. Costa do Marfim Missionários da Consolata

Edna (aqui na escola em Dianra) decidiu apadrinhar um aluno de Dianra para assegurar a sua educação e já mobilizou pessoas que lhe são próximas a fazer o mesmo. Foto: Direitos reservados.

Para Edna, formar a população local é crucial. “Se queremos mudar vidas, precisamos de apostar no que realmente transforma: conhecimento e saúde. Educar é abrir horizontes, ensinar literacia financeira é dar autonomia, e cuidar da saúde é garantir dignidade. Se me perguntarem se prefiro enviar um contentor de comida ou profissionais de saúde e professores, eu não hesito: prefiro estes últimos. Porque alimentar por um dia é importante, mas capacitar para toda a vida é revolucionário.”

Texto publicado no âmbito da parceria entre o 7MARGENS e a revista Fátima Missionária.

 

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