[Efemérides]

“Água para a paz”

| 21 Mar 2024

A água é um direito humano. Ninguém deve ter esse acesso negado
(Secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres,
 ao assinalar o Dia Mundial da Água em 2019)

As pessoas da aldeia de Woukpokpoe, da República do Benim, beneficiaram grandemente do projeto nacional Desenvolvimento Dirigido pela Comunidade Nacional (CDD) para terem acesso a água limpa e segura. Foto: Arne Hoel / Banco Mundial

 

O Dia Mundial da Água é celebrado anualmente no dia 22 de março com o objetivo de chamar a atenção para a importância da água doce e defender uma utilização e controlo sustentáveis dos recursos de água potável. Foi proclamado como o Dia Mundial da Água através da Resolução 47/193 adotada na Assembleia Geral das Nações Unidas de 22 de dezembro de 1992.

Se em 2023 o tema foi “Acelerar a mudança para resolver a crise de água e saneamento”, 2024 tem como tema «Água para a paz» e pretende destacar os benefícios da gestão dos recursos hídricos enquanto instrumento para a paz. A celebração oficial terá lugar na sede da UNESCO em Paris e será marcado pelo lançamento da edição de 2024 do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos intitulado ‘Água para a prosperidade e paz’. A água está no centro do desenvolvimento sustentável e diz respeito à promessa central do Objetivo 6 da Agenda 2030 para o Desenvolvimento, que defende o acesso universal e equitativo à água potável e ao saneamento até 2030.

Desde os primórdios da Humanidade, a água sempre foi elemento fundamental na definição dos aglomerados populacionais seja por motivos de defesa, de facilidade de comunicações e de ralações comerciais, de produção de riqueza, de procura de bem estar etc. Por ela ou pelo acesso a esse bem, se fizeram guerras, populações e vizinhos se envolveram em rixas e até se matou. A água assume hoje uma preponderância inimaginável no espaço de apenas uma geração. Ainda na minha meninice numa aldeia da Beira – e não sou assim tão velho – as fontes corriam durante todo o ano e os invernos só o eram, além do frio, se dias seguidos a chover ininterruptamente chuva miudinha. “Isso era chover a sério” contam os mais antigos. Sou ainda do tempo em que a população se abastecia de água no único chafariz da aldeia, fosse para beber, tomar banho ou cozinhar. Chegou a água canalizada e o saneamento e, de um momento para o outro, por comodismo e em nome do progresso, adquirimos o direito ao desperdício. É verdade que no verão às vezes faltava a água, mas o problema resolvia-se com mais uma barragem de armazenamento ou uns quantos furos artesianos. Contudo, e no período de apenas uma geração, as alterações climáticas e a escassez crescente deste bem alertam-nos para uma nova consciência e a exigência de repensarmos o valor que atribuímos à água.

No seu Relatório de 2023, a ONU alertava para o “risco iminente” de uma crise global de escassez devido ao consumo excessivo e às alterações climáticas. Alertava ainda para o “caminho perigoso” que as populações estão seguindo “de excesso de consumo e desenvolvimento vampírico”. A urgência em “estabelecer mecanismos internacionais fortes para evitar que a crise global da água fique fora de controlo” foi outro dos aspetos referidos.

De acordo com os autores do documento a água tem de ser “gerida como bem comum e não como mercadoria. Considerar a água uma mercadoria ou uma oportunidade de negócio vai deixar para trás os que não têm acesso ou não podem pagar os preços de mercado”.

Fonte: UN World Water Development Report 2023

 

Quando falamos em água doce, habitualmente referimo-nos ao que se chama de água azul (água doce de superfície ou subterrânea armazenada em rios, lagos, reservatórios e aquíferos subterrâneo), a qual representa 35% do total da água doce na Terra. Embora o foco tenha estado na água azul, importa gerir de uma outra forma este recurso e dar maior atenção ao que se chama de água verde (presente no ar, na biomassa e no solo) que representa 65% do total de água doce. Sublinhe-se que à escala global cerca de metade da precipitação terrestre provém da evaporação da água verde, sendo a restante proveniente da evaporação nos oceanos. Por isso as alterações da paisagem e a desflorestação de determinadas zonas pode ter um impacto decisivo no abastecimento de água no local e em regiões vizinhas. Ou mesmo distantes, dependendo do sentido dos ventos. Importa pois pensar a gestão global da água como um processo de interdependências. Por exemplo, a desflorestação na bacia do Congo reduz a precipitação não só nos países vizinhos mas também em regiões tão distantes como a Amazónia, do outro lado do Atlântico. Um outro exemplo é o Brasil que “exporta” 25% da sua água verde para países a favor do vento, como Argentina, Bolívia e Colômbia. Se a desflorestação continuar a precipitação nesses países irá diminuir.

A escassez de água tem implicações não apenas na manutenção dos ecossistemas e sobrevivência das populações, mas também põe em causa algumas indústrias nos países mais ricos como seja a produção de energia de origem nuclear que necessita de mínimos de água para arrefecimento. O alerta veio de França que no inverno de 2023, na sequência da seca vivida no verão de 2022, viveu uma seca nunca antes vista, conhecida como “seca invernal”. Cursos de água secaram e houve dificuldades no abastecimento de água a populações.

Existem por todo o mundo algumas boas iniciativas sobre as quais vale a pena refletir e replicar. Na Suécia, por exemplo, existe uma experiência num bairro em Helsingborg (sul do país) em que o sistema de esgotos e composto por 3 condutas: água cinzenta (duche, lavatório), sanitas a vácuo (menor consumo de água) e o último dedicado a resíduos alimentares.

Em Portugal há que procurar soluções que melhorem a gestão da água. Apenas alguns exemplos:

  • Obrigatoriedade das novas construções possuírem sistemas de reaproveitamento das águas cinzentas;
  • Construção de cisternas e condutas para o aproveitamento da água da chuva, nomeadamente a água dos telhados;
  • Planeamento das zonas turísticas evitando infraestruturas que impliquem grande consumo de água;
  • Planeamento das estruturas agrícolas de acordo com a disponibilidade de água e reflorestamento de outras zonas assim como a sua gestão;
  • Substituição das condutas de transporte de água. De acordo com um Relatório da ERSAR (Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos) com dados de 2022,  um terço da água que entra nas redes de abastecimento portuguesa é desperdiçada com roturas, avarias e desvios. E há concelhos onde a percentagem é ainda maior atingindo em alguns percentagens da ordem dos 70% e até mais de 80%.
  • Campanhas frequentes nos meios de comunicação no sentido de sensibilizar a população para o refreamento do consumo.

Resta-nos um longo caminho a percorrer. A água não pode continuar a ser gerida como se fosse um bem abundante. Há que atalhar caminho e cada um e cada uma fazer a sua parte.

 

E como ontem, 21 de março, se comemorou o Dia Mundial da Poesia, deixo-vos um poema de Miguel Torga:

A Água

Ninguém ouve a canção, mas o ribeiro canta!
Canta porque um alegre deus o acompanha!
Quantos mais tombos, mais a voz levanta!
Canta porque vem limpo da montanha!

Espelho do céu, é quanto mais partido
Que mais imagens tem da grande altura.
E quebra-se a cantar, enternecido
De regar a paisagem de frescura.

Água impoluta da nascente,
És a pura poesia
Que se dá presente
Às arestas da humana penedia…

Miguel Torga

 

Nota: Para aprofundar estas questões aconselho a leitura do dossier O futuro da Água, Courrier Internacional (versão portuguesa), nº 331, Setembro 2023.

 

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