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Michael Bennet
Michael Bennet, cantor construído pela Inteligência Artificial cujas canções se tornaram virais.

[Moçambique, margem Sul]

“Ai a passividade animal”! Magnífica humanitas, acode-nos!

| 18/06/2026

Mm
Quando a noite fica silenciosa e a minha cadeira está quieta
E a casa parece mais fria no parapeito da janela
Se a minha voz não ecoar pelo corredor
Não penses que estou perdido, eu ouvi o Seu chamado.

Eu caminho por vales escuros e profundos
Onde pais quebrados caem e choram
Mas o Salmo 23 continuou a sustentar-me
O Pastor disse: não estás sozinho

Depois de eu partir, não chores demasiado tempo
O céu sempre foi o meu lar
Se sentires um sussurro no vento
É o meu amor a chegar até ti novamente

A sepultura não é forte
O amor continua vivo

Jesus escreveu o meu nome na pedra
Depois de eu partir, não estou sozinho

Mm
Lembra-te das orações ao lado da tua cama
Todas as palavras que eu nunca disse
Cada lágrima que tentei esconder
Deus estava a contá-las por dentro

Como o orgulho de um running back em corrida
A graça cobriu todas as falhas/O Pai abriu a sua porta
Eu já não sinto dor

Depois de eu partir, levanta os olhos
Vamos encontrar-nos além dos céus
Porque este adeus não é o fim
É onde o para sempre começa

Mm, a sepultura não é forte
O amor continua vivo
A terra já superou tudo isso
Depois de eu partir, canta a minha canção
Vamos encontrar-nos além do amanhecer

Mm, mm.

(“Michael Bennet”, Si mañana ya no estoy, tradução com IA, Maio de 2026. Os negritos são meus.)

Ia a caminho do matabicho, quando, inadvertidamente, toquei em algo no meu telemóvel, na página do Youtube. Este guiou-me para uma linda música de Michael Bennet. Era tão bonita, que não desliguei o telemóvel antes do café; e comenta o meu marido: “Hoje as regras mudaram. O telemóvel da boss pode tocar a música de que ela gosta e no tom desejado.” E eu respondi, escuta a letra, é triste e sentimental, mas marcante! Traduz para mim, por favor. Ele anuiu. E gostou do que viu. Comentámos o quão o amor poderia ser algo simples e desejado por todos, até à eternidade…

Passei o dia a pensar na impactante mensagem daquela música e no seu delicioso ritmo. Não parei de escutar o repertório musical do artista, até que o telemóvel ficou descarregado. E  decidi que, a partir daquele momento, se juntava à minha pequena lista de preferidos (Mercedes Sosa, Lura, Patrícia Faria, Assa Matusse, Leonard Cohen, Mark Knopfler e Djavan), o nome de Michael Bennet.

Quando tive mais vagar, pesquisei a Wikimedia para saber mais sobre o artista. Deparei-me, no âmbito dessa busca, com notícias sobre a existência da primeira carta papal de Leão XIV (“Carta encíclica Magnifica Humanitas) sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial”. Tratava-se do dia no qual foi dada a conhecer ao público. Contente, pus-me a lê-la. Para mim, essa novidade era muito esperada. Imagino, na verdade, que para muitos.

Li a carta. Um título fabuloso, daqueles de que a humanidade anseia. Tão bom seria que o mundo fosse caracterizado pelas isotopias e sinónimos desse título que lhe dão sentido e coerência: “Magnífica humanidade”… que o mundo fosse de facto magnífico – pensava eu, antes de ler “a carta”. E dizia de mim para mim: o Papa inspirou-se muito. Talvez nos traga o elixir para estes dias. Vou lá beber e apoderar-me da fórmula, para ajudar a espalhá-la pelo mundo. Tenho dos melhores meios para colaborar nisso: os meus alunos. Vou espalhar “a Boa Nova”, nestes tempos conturbados, nos quais a dignidade humana e a animal se assemelham e nos surgem alertas alarmantes, como o caso do discurso de um dos maiores pensadores moçambicanos, o professor Severino Ngoenha, ao qual acedi através de um vídeo, no qual ele afirmava: “Considero Moçambique uma grande selva, com capim seco, que qualquer fósforo pode fazer arder.” Como se pode constatar, precisamos de um amavio.

Pus-me a ler “a Carta”, e o que vejo? Ela abria-nos os olhos para “o poder do paradigma tecnocrático”; para o perigo da automação ter supremacia sobre questões fundamentais da vida das pessoas; para a perda de alguns valores humanos e reforço de alguma exclusão e iniquidade. Mais do que isso, para a confusão que pode criar, na aferição da realidade ou da distância ténue, entre a verdade e a manipulação de imagens e de ideias.

Leão XIV

“Fui lendo a Carta e tocaram-me profundamente os capítulos II (Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja) – A igual dignidade de todos os seres humanos. Foto: Leão XIV assinando a Magnifica Humanitas. ® Direitos Reservados

Fui lendo a Carta e tocaram-me profundamente os capítulos II (Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja) – A igual dignidade de todos os seres humanos:
 “Esta afirmação insere-se na linha traçada pelo Concílio Vaticano II, que constatara um aumento do reconhecimento da elevada dignidade de cada pessoa, o seu valor superior ao das coisas, e os seus direitos e deveres universais e invioláveis. É importante vigiar para que este incremento na compreensão da dignidade humana não seja ofuscado pela pressão de novas ideologias ou de determinados interesses muito poderosos no mundo de hoje. Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho”.

No seu capítulo IV, fala sobre a “construção da civilização do amor” e da “revitalização do diálogo”. Nesse sentido, palavras e expressões como: construir laços de fraternidade; escuta; olhares sinceros; tempo dado e perdido juntos; encontro autêntico com o outro, com o estrangeiro, com o migrante”, tornam-nos mais humanos, evitando desavenças entre nós.

Em função disso, lembrei-me, então que, há dias, me interrogava sobre a razão de um certo convite que me foi feito, para ir “palestrar” num lugar, num tipo de instituição com o qual nunca tinha interagido. Por esta se situar num país que actualmente está com alguns problemas humanitários e a temática não me parecer ligada aos meus estudos. Comentei a razão do convite com um colega e este disse-me que as minhas temáticas cabiam no âmbito do evento, mas que tinha sido bom eu perguntar, uma vez que a Inteligência Artificial poderia ter criado o convite. Confesso-me ciber-analfabeta e achei estranho o comentário acerca da criação da IA. No entanto,  fomos os dois confirmar a veracidade do evento, e era real…  Mas fiquei muito tempo a pensar  se não seria possível a IA criar um documento desses.

Uma vez que a música de Bennet ainda ecoava nos meus ouvidos, fui à IA perguntar quem era o cantor. Foi dolorosa, a resposta:

“O Cantor Viral (Inteligência Artificial)
Quem é: Um competidor de 65 anos que supostamente participou do programa America’s Got Talent com músicas emocionantes (como “The Call I Never Made”).
Realidade: Ele não existe. O cantor, sua voz e toda a sua história de vida são criações de inteligência artificial. Vídeos dele circulando nas redes sociais são conteúdos fictícios feitos para entretenimento.”

 

E são conteúdos que me pareceram reais: espectáculo ao vivo, álbum de música. Enfim. Surpreendeu-me o facto de Bennett cantar tão bem em espanhol quanto em inglês. Mas não é impossível isso acontecer com um ser humano. Existem imensos poliglotas no mundo!… E este problema não é grave, se atendermos ao facto de que uma música não atenta contra a saúde ou a dignidade humana. Imagine-se que fosse uma consulta na área da saúde humana, uma cirurgia! Que distinção faremos entre uma máquina que deve decidir o  algoritmo para a cirurgia e a decisão de uma análise clínica, que pode definir um adiamento ou uma melhor ponderação? Já não nos basta, quando ligamos para um banco sermos atendidos por uma máquina e nos parecer que o nosso dinheiro corre risco?

“Ai a passividade animal.” Com os acontecimentos todos acabados de narrar e voltando à música de Bennet, vejo o quão eu andava perdida! Já tinha pedido ao meu marido para me traduzir a letra da música e a matabichar com o telemóvel à mesa. Tinha enviado uma outra música aos meus filhos, porque me comovia e porque trazia uma boa lembrança sobre o que é ser mãe… Enfim… já andava em rebuliço e faltava recomendar a música a mais gente. Afinal aquela voz não existe!! E mais, questiono-me, como é que, em Moçambique, um país no qual ainda há pessoas que acreditam mais em preces aos seus antepassados, para mediarem as suas vidas, poderão entregar os seus cuidados a uma máquina que tanto pode salvar o mundo como fazê-lo desabar!? “Ai a passividade animal”!!

Nota: “Ai a passividade animal” é uma frase extraída do poema Subida, da autoria do escritor moçambicano José Craveirinha, publicado no livro Xigubo (1964).

Sara Jona Laisse é membro do Graal-Moçambique, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

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