Ainda as ausências. Ainda os silêncios. Muito do que falta escutar.

| 15 Fev 2024

Debate

Imagem de rawpixel.com/ Freepik

 

Trata-se de olhar muito para lá dos debates da campanha eleitoral. Sobre esses, já muitas pessoas chamaram a atenção para o facto de haver temas fundamentais completamente ausentes. Por exemplo, o de saber se pode Portugal ter uma posição mais pró-activa na defesa da paz e do desarmamento. Em 2023, o ano mais quente desde que há registos, o aquecimento global ultrapassou os 1,5 graus, a linha vermelha que o Acordo de Paris dizia que não podíamos passar – e como encaramos esta emergência climática que levará toda a humanidade para a tragédia? As guerras e o clima estão a provocar migrações em massa e muitas mortes pelo caminho – mas há quem persista em falar de cotas, sem querer actuar nas causas profundas. Aprofunda-se o fosso das desigualdades na distribuição da riqueza, tal como no acesso à saúde e à justiça, seja a nível global seja no âmbito nacional – e como damos dignidade a quem não tem casa ou emprego ou ambas as coisas?

A lista poderia ser muito mais longa. Sabemos que o mundo está perante uma crise profunda, que abrange todos os âmbitos da condição humana: antropológico, cultural, social, político, económico, espiritual. E convém termos consciência da relação de tudo com tudo. O facto de proliferarem os conflitos armados aumenta os atentados contra o ambiente, a pressão migratória, a pobreza, a degradação da democracia e do estado de direito. Estas realidades provocam uma crise de ética e de valores como a solidariedade e a empatia. E isso leva, como num efeito de ricochete, a novos conflitos, a novas crises ambientais, migratórias, democráticas…

Existe uma saída? – perguntava José Mário Branco em A Noite, a música que dá título ao álbum com o mesmo nome. E onde estão os crentes? – poderia acrescentar-se. Onde estão os crentes na procura de um entendimento quando as armas matam civis inocentes (muitos deles feridos e doentes internados em hospitais) em Gaza, na Ucrânia, em Cabo Delgado, no Tigré, no Iémen, na Síria, no Corno de África, na Nigéria, no Congo, na Líbia e em tantos outros lugares de tragédia? Onde estão os crentes na luta pelo cuidado da criação, uma noção profunda para todos os credos (desde logo, para as religiões abraâmicas)? Onde estão os crentes na luta pela dignidade humana integral – abarcando as dimensões da justiça, da liberdade, da espiritualidade e do respeito pela consciência individual?

As perguntas não pretendem reconduzir as religiões (ou o catolicismo, como confissão dominante em Portugal) a uma qualquer tentação hegemónica, mas levar a que os crentes se assumam como protagonistas – ou pelo menos intervenientes – de uma mudança importante e necessária, ajudando a atenuar as crises em que nos encontramos. E todos os crentes, todos, no seu conjunto. (Causa aflição, a este propósito, que jovens católicos, de acordo com uma notícia há dias publicada no jornal Nascer do Sol, andem a debater qual deve ser a sua opção de voto nas próximas eleições legislativas, entre a Aliança Democrática, a Iniciativa Liberal e o Chega. Como se não bastasse uma das opções negar em absoluto vários valores essenciais do Evangelho, é espantoso como o leque se reduz a estas opções – incluindo, curiosamente, dois partidos que admitiram e votaram favoravelmente a eutanásia, razão para esses mesmos católicos condenarem outras forças políticas à fogueira. Adiante.)

 

“Irmãos, irmãos, amemo-nos agora.”

digital, coração, amor, contemplação;

Foto © Alexander Sinn/Unsplash

 

Em Novembro, neste mesmo espaço, tentei debater a questão da ausência do catolicismo no espaço público. Percebe-se a ausência de formação de muitos católicos em relação à doutrina social ou a ignorância que existe sobre as implicações éticas do Evangelho. Mas podemos alargar o horizonte para outros credos: onde estão os crentes – cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, budistas – na afirmação da não-violência e da paz, da condenação das guerras de agressão (de Israel em Gaza, da Rússia na Ucrânia) e de todas as outras, que mais não são do que fazer dos povos carne para canhão da indústria do armamento? Ou na luta pela liberdade religiosa de todos os crentes, mesmo que sejam de um credo diferente? Onde estão os crentes na afirmação da importância da dimensão espiritual e religiosa do ser humano em sociedades que por vezes desprezam esse perspectiva? Onde estão os crentes na afirmação de que não podemos continuar a pugnar um modelo de sociedade que suga as pessoas até à exaustão, sendo consequentes com a defesa da ideia de família e propondo a afirmação dos laços familiares, da amizade, do lazer e da cultura como valores tão importantes como o trabalho? Onde estão os crentes na afirmação da importância do combate à pobreza e às drogas, à situação de sem-abrigo ou a um sistema prisional que retira dignidade às pessoas e não contribui para a reinserção?

Existe uma saída? Na canção referida, José Mário Branco cantava: “Irmãos, irmãos, amemo-nos agora.”

Talvez pareça despropositada a insistência em algumas destas ideias. A realidade, tragicamente, tem-se repetido também em vários e importantes domínios. Os crentes – e as pessoas “de boa vontade” – terão de saber dar respostas às perguntas sofridas que tantas pessoas transportam consigo. Ou, pelo menos, terão de ser capazes de estender a mão e saber escutar. Num tempo em que alguns levam para a campanha eleitoral a vozearia que esconde a falta de ideias, os crentes e os humanistas têm de ser capazes de escutar as dores do mundo.

Estaremos todos à altura?

 

Uma exposição que é “um grito de alerta e de revolta” contra a perseguição religiosa

No Museu Diocesano de Santarém

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Poderá haver quem fique chocado com algumas das peças e instalações que integram a exposição “LIBERDADE GARANTIDA” (escrito assim mesmo, em letras garrafais), que é inaugurada este sábado, 20 de abril, no Museu Diocesano de Santarém. Mas talvez isso até seja positivo, diz o autor, Miguel Cardoso. Porque esta exposição “é uma chamada de atenção, um grito de alerta e de revolta que gostaria que se tornasse num agitar de consciências para a duríssima realidade da perseguição religiosa”, explica. Aqueles que se sentirem preparados, ou simplesmente curiosos, podem visitá-la até ao final do ano.

“Tenho envelhecido de acordo com aquilo que sempre gostaria de ter feito”

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Mosteiro Trapista de Palaçoulo

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