Permitam-me que comece com esta pergunta provocadora que parte de uma reflexão pessoal, nas dimensões religiosa, social e cultural, e que procura cruzar o sentimento de um português – ocidental e herdeiro de uma vivência pluralista e do quinto império – que professa a religião islâmica e, nesse sentido, vai beber inspiração a outras zonas do globo.
O jejum pode parecer, à primeira vista, um conceito antiquado, mas na verdade nunca foi tão actual. Se dúvidas houvesse, estas ficariam dissipadas pelo número de profissionais da nutrição que o recomendam, comprovada a evidência científica que demonstra o seu enorme benefício para a saúde.
Em tempos de gratificação instantânea, jejuar ensina-nos a ser pacientes e ao autocontrole.
As tendências modernas do jejum intermitente e de um desejável “detox digital” levam-nos a refletir sobre a necessidade da renúncia para a manutenção do nosso equilíbrio, numa época de profunda abundância.
É importante considerar que o jejum que emerge das escrituras, i.e., o de natureza religiosa, é uma prática diferente da abstenção de comer; é o cumprimento de um mandamento divino, revestido de uma intenção previamente determinada e que nos transporta para um inegável exercício de consciência sobre o que consumimos e porquê.
Porque jejuamos?

Comer é normalíssimo. Diria mesmo natural. Mas há muita gente no nosso planeta que encontra enormes dificuldades em ter uma única refeição decente. Eu não falo de centenas, nem de milhares. Não falo de milhões. Eu falo de milhares de milhões de pessoas no nosso planeta que vivem com menos de um dólar por dia.
Que tipo de compaixão sentimos por quem tem fome, quando podemos comer três refeições por dia ou simplesmente podemos comer quando nos apetece? Que tipo de compaixão sentimos por aqueles que não têm o que vestir? Ou pelas pessoas sem-abrigo, que dormem ao relento?
Sim, nós sofremos, é certo. Para que possamos sentir o que outro ser humano está a sentir porque não consegue encontrar comida.
Nós encontramo-la, mas não a comemos. Temos água ali, mas não a bebemos, não importa quão forte e severo esteja o sol nesse dia. Nós privamo-nos de algo que é natural para que tenhamos força suficiente para nos auto-disciplinarmos contra o que não é natural.
Jejuar é assim, uma reeducação do corpo e da mente, e um desafio: uma escolha consciente num mundo de excessos.
A solidariedade vivida no jejum fortalece os laços comunitários mesmo em sociedades mais individualistas.
A quebra do jejum (iftar) é precisamente um desses momentos, que nos oferece a possibilidade de partilha da nossa refeição com os outros; e que tem um enorme impacto emocional, dado que é precedido pelas preces do jejuador, cuja aceitação é prometida por Deus. Com o estômago vazio, a humildade invade-nos o espírito.
O que fica depois deste sagrado mês, no qual jejuámos enquanto era dia? Creio que aprendemos connosco próprios e, fruto da experiência do jejum, que este deve ir além deste período e influenciar a nossa vida quotidiana e as nossas ações, materializando a humanidade que nos é tão própria e em erosão.
Não resisto à tentação de concluir, convidando o leitor a pensar sobre os seus próprios jejuns, não necessariamente religiosos, mas também emocionais e sobretudo os digitais; e fazendo votos para que saibamos todos construir uma sociedade mais inclusiva, espiritual e saudável.
Khalid Sacoor D. Jamal é presidente executivo do Instituto de Cooperação Luso-Árabe e criador e participante no programa Que Mundo Meu Deus! da TSF
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