Ainda há alemães com memória, graças a Deus

| 11 Jul 19

Este ano a Alemanha protestante vetou a participação de populistas de direita no Dia da Igreja Protestante Alemã. Convém não perder a memória.

 

A celebração costuma durar uma semana e reúne habitualmente líderes espirituais destacados, nacionais e estrangeiros, como políticos, intelectuais, filantropos e estrelas pop, de modo a que os eventos sejam socialmente relevantes. Em anos anteriores, estes encontros ficaram marcados por pedidos expressos de algumas mudanças políticas e sociais. No ano 2000, a convenção pressionou o Governo a eliminar a dívida de países pobres e, em 2017, o ex-presidente Barack Obama participou nos trabalhos.

Os encontros têm uma componente política, que inclui centenas de fóruns nos quais são debatidas questões relevantes, mas também concertos de música gospel e prática de desportos. Este 37º Encontro da Igreja Protestante Alemã (Deutsche Evangelische Kirchentag), juntou mais de cem mil visitantes em Dortmund e na região do Ruhr sob o lema “Confiança” e a classe política foi convidada a participar nas discussões, incluindo membros do Governo federal, mas sempre a título pessoal. A própria chanceler Angela Merkel é filha de um pastor luterano da antiga Alemanha de Leste. Porém, os populistas do Alternativa para a Alemanha(AfD) não foram convidados, apesar de constituírem hoje a terceira maior força do Bundestag, porque a reunião deste ano tinha como objectivo debater a solidariedade nacional e internacional, as mudanças climáticas, o nacionalismo, o racismo e a xenofobia. Contentaram-se em apresentar um pequeno standdo partido no centro da cidade.

Um dos promotores adiantou: “Teremos que deixar claro de novo e de novo que esse é um caminho errado. Precisamos de confiança para podermos viver juntos na Europa – na verdade, em todo este planeta –, em vez de nos isolarmos. Caso contrário a humanidade não sobreviverá”.Como afirmou Hans Leyendecker, presidente do evento:“Há muitas coisas que são como o ácido, que devoram lentamente a nossa confiança e minam a coesão social.”

Este grande encontro bianual iniciado em 1949 foi criado por Reinold von Thadden-Trieglaff, membro da Igreja Confessante (Bekennende Kirche) que resistiu ao regime nazi e presidiu ao mesmo até 1964. Talvez o maior nome da Igreja Confessante seja o teólogo e pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, um dos seus fundadores, que pagou com a vida a temeridade de regressar a Berlim em pleno ocaso do regime nazi apenas por querer servir o seu país, então dirigido por um louco. Foi preso, internado num campo de concentração e enforcado poucos dias antes da libertação.

Recorde-se que, em 1933, o regime nazi forçou as Igrejas a entrarem para a Igreja Protestante do Reich e apoiar a ideologia nazi. Em Setembro desse mesmo ano foi criada na clandestinidade a Igreja Confessante, pelos que não suportavam a loucura hitleriana nem o subjacente racismo ideológico. Em 1934, ela estruturou-se a partir duma Declaração Teológica escrita essencialmente por Karl Barth e ratificada no Sínodo de Barmen. Martin Niemoller assumiu a liderança do movimento, tendo sido preso, julgado e enviado para um campo de concentração, tal como muitos outros pastores protestantes, além do confisco dos bens do movimento.

Boa parte dos luteranos alemães apoiou o nazismo. O forte Movimento Cristão Alemão (Deutsche Christen) estabeleceu por alvo articular a fé cristã com o nacional-socialismo, criando assim um nacional-socialismo protestante, ao considerar Hitler um complemento da Reforma, excomungar os judeus baptizados e excluir o Antigo Testamento das Escrituras.

Na recente sessão de abertura do novo Parlamento Europeu em Estrasburgo os ingleses do Partido do Brexit assumiram exactamente a mesma atitude dos acólitos de Hitler, os deputados do partido nacional-socialista no Reichtag em Berlim, neste caso virando as costas durante a execução instrumental do hino da União Europeia. Uma atitude que diz tudo sobre os companheiros de Nigel Farage e o populismo de direita que se transformou em moda política nos últimos tempos. Dir-me-ão que se trata duma comparação forçada. Bem sei que se trata de situações diferentes, mas o que se regista é a mesmíssima atitude de desprezo pela função parlamentar, a qual, em regime de eleições livres, é sempre uma garantia de convivência e prática democrática e um travão às ditaduras de pensamento único.  

Ainda no ano passado o dirigente da extrema-direita alemã (AfD) Alexander Gaulanda, comparou o nazismo a um “excremento de pássaro” num milénio alemão glorioso, desvalorizando assim com leviandade os horrores provocados por aquele estado totalitário fascista na história europeia, que chegou a matar 15 mil judeus por dia. Tal embuste foi prontamente condenado pelo presidente da Alemanha. Convém, portanto, que a Igreja da Alemanha não esqueça o seu passado religioso e político. Afinal, ainda nem passaram noventa anos sobre o grande desvario.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na Visão Online.

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