“Escrevo como quem despe pedra por pedra uma casa em ruínas”
— Lobo Antunes, sobre o seu processo criativo.
Nunca conheci pessoalmente António Lobo Antunes. Nunca lhe li uma obra completa. Encontrei-o muitas vezes, na leitura das suas belíssimas crónicas no Público, depois na Visão e no Expresso, território breve onde a literatura às vezes se disfarça de crónica; textos curtos, mas densos como capítulos arrancados a um livro ainda por escrever.
Nessas crónicas aprendi muito: que o quotidiano pode ser contado como se fosse ficção; que a vida, quando observada com atenção suficiente, revela uma espessura secreta. Ele recolhia memórias como quem junta conchas na areia, pequenas, sensoriais, cheias de sal e de vento e com elas construía uma espécie de cartografia íntima do mundo.
Aprendi também a olhar, a reparar no que quase ninguém vê: o movimento pendular dos corpos nos comboios e autocarros, esse balançar silencioso de quem vai e de quem regressa, de quem parte de algum lugar e para algum lugar, fragmentos de narrativa, súbitos e nervosos, como nervos que conduzem, desde o centro do cérebro, memórias antigas, guardadas no escuro.

Nunca lhe li uma obra completa. Encontrei-o muitas vezes, na leitura das suas belíssimas crónicas. Foto: Direitos reservados
A obra de Lobo Antunes permanece, para mim, como um retrato desassombrado da condição humana, não um retrato complacente, mas um mergulho no abismo interior. Há na sua obra uma coragem rara que explora esse abismo com uma linguagem que resiste às convenções, que as torce e por vezes as rompe, para dizer aquilo que, de outro modo, permaneceria para sempre calado.
Alberto Teixeira é cristão ortodoxo.
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