Albino Cleto, bispo santo moldado pela serra

| 14 Jun 2022

Albino Cleto com jovens no decorrer de visita pastoral: um bispo muito próximo de todos, conhecedor da história de cada um. Foto: Direitos reservados.

Albino Cleto com jovens no decorrer de visita pastoral: um bispo muito próximo de todos, conhecedor da história de cada um. Foto: Direitos reservados.

 

Neste dia 15 de junho de 2022, ocorre o décimo aniversário do falecimento de D. Albino Mamede Cleto. Acolha-se a efeméride para evocar a memória de um homem de Deus, dedicado a servir o Patriarcado de Lisboa e a Diocese de Coimbra.

Albino Mamede Cleto nasce, em Manteigas, em 3 de março de 1935. O pai governava a vida com uma mercearia, onde tudo se vendia. A mãe, proprietária, senhora piedosa, de missa e comunhão diária, ocupava-se do trabalho doméstico e assistia os pobres. Faleceu cedo, deixando três filhos órfãos: José, Albino e Germano, respetivamente, com doze, sete e dois anos. Mesmo assim, Albino viveria uma infância feliz.

Da família e vila onde nasceu, recebeu Albino referências essenciais à formação do caráter. A serra da Estrela, encantadora, durante a primavera e verão, dura e austera, no inverno, gerou nele sentimentos de estabilidade, fidelidade e naturalidade. Esse espírito levá-lo-ia a aceitar, com serenidade, a chuva, o frio e a neve, isto é, durante a vida, se confrontado pela adversidade ou surpreendido por acontecimentos alegres, em todas as situações, reagia com bonomia. Quando tinha de se apresentar, costumava dizer que a serra lhe moldara o temperamento. Daí resulta a compreensão perante a precariedade da natureza humana que, mais tarde, exprimirá assim: “As nossas fragilidades não são obstáculo, são oportunidade de nos sentirmos humildes e nas mãos de Deus”.

Albino completa a instrução primária, em Manteigas, onde revela especiais dotes para os estudos. Inicia, depois, o percurso de formação para o sacerdócio. Frequenta os seminários do Patriarcado de Lisboa: Santarém, Almada e Olivais, de 1947 a 1959, figurando, sempre, entre os melhores alunos do curso.

Tendo concluído o terceiro ano de Teologia, no verão de 1958, pediu licença para trocar um mês de férias, pela experiência de trabalho em oficinas da Companhia União Fabril, Barreiro, juntamente com um colega. Na fábrica, guardaram segredo da condição de seminaristas, cumpriram tarefas e horários estipulados, em tudo se comportando como qualquer trabalhador fabril. Em tão rara oportunidade, aproveitaram para conhecer a realidade do mundo operário, numa época em que os movimentos da Ação Católica estavam em voga.

Ordenado presbítero, em 15 de agosto de 1959, pelo cardeal Cerejeira, na Sé Patriarcal de Lisboa, dia 30 desse mês cantaria missa nova na igreja de São Pedro, em Manteigas.

Houve quem o quisesse para seu coadjutor, mas o cardeal já lhe havia destinado outras responsabilidades no seminário de Almada, onde permanecerá 19 anos: prefeito (1959-1970); vice-reitor (1970-1978).

Em julho de 1976, conclui a licenciatura em literatura-românicas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Em 1978-1979, frequentou a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, com aprovação nas disciplinas Fé e Teologia, e História da Igreja Moderna e Contemporânea.

Foi professor do Externato Diocesano Frei Luís de Sousa (1970-1978), docente eventual do Departamento de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (1978), desempenhou funções de representação e serviço, em várias estruturas do patriarcado.

 

Uma escolha nada estranha
D. Albino a visitar uma capela: o património e os bens culturais da Igreja mereceram sempre a sua atenção e cuidados. Foto: Direitos reservados.

D. Albino a visitar uma capela: o património e os bens culturais da Igreja mereceram sempre a sua atenção e cuidados. Foto: Direitos reservados.

 

Durante quase duas décadas, no Seminário de Almada, e como animador de diferentes grupos de Almada, Setúbal e Lisboa, o padre Albino Cleto marcou gerações de jovens: uns foram ordenados presbíteros; a grande maioria, guarda dele inefável referência que influenciou o crescimento e formação individual em liberdade, e os tornou melhores pessoas.

Pároco de Nossa Senhora da Lapa, Basílica da Estrela, (1978-1982) deixou marca impressiva, precursora do apelo do Papa Francisco para “uma igreja em saída”. Durante o ministério paroquial, procurou que a Igreja não se reunisse apenas na basílica, mas se juntasse nas ruas. Dividiu a paróquia por zonas, cada uma com um casal animador. Não eram vigias de ruas. Tratava-se de alguém a quem o pároco pedia que estivesse de olhos abertos à realidade da vizinhança, que provocasse os cristãos, fazendo o levantamento das necessidades.

Visto como um pároco modelo e padre tão consensual, ninguém terá estranhado a escolha pessoal do cardeal D. António Ribeiro, de saudosa memória, ao ser divulgada, a 6 de dezembro de 1982, a notícia da nomeação para bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, com o título de Elvira (Illiberi), pelo Papa João Paulo II.

Ordenado bispo por D. António Ribeiro, a 22 de janeiro de 1983, no Mosteiro dos Jerónimos, D. Albino Cleto haveria de permanecer 14 anos ao serviço do Patriarcado de Lisboa. Padres desse tempo recordam o bispo amigo, muito próximo de todos, conhecedor da história de cada um. Um bispo que ia ao encontro daqueles que se haviam distanciado. O modo de ser bispo, com visão de “pastoral unitária” para a urbe, fez dele o “grande pároco de Lisboa” e “capelão dos párocos”. Já então manifestava preocupação pelas periferias: “para evangelizar a cidade, primeiro é preciso ganhar preocupação pelos que nela andam perdidos”.

Além de outros serviços prestados à Igreja, no âmbito da Conferência Episcopal, de que foi secretário e porta-voz, coordenou a segunda viagem apostólica de João Paulo II a Portugal (1991). O património e os bens culturais da Igreja mereceram sempre muita atenção e cuidados de Albino Cleto, em prol da necessária preservação e divulgação, com raro entusiasmo, desde os tempos do Movimento de Renovação de Arte Religiosa, no seminário dos Olivais.

 

Em Coimbra, pessoa a pessoa
O bispo no seu gabinete de trabalho, na casa episcopal de Coimbra. Foto: Direitos reservados.

O bispo no seu gabinete de trabalho, na casa episcopal de Coimbra. Foto: Direitos reservados.

 

 

Em 29 de outubro de 1997, foi nomeado bispo-coadjutor de Coimbra, tendo tomado posse do cargo, a 11 de janeiro de 1998. Por resignação de D. João Alves, assume o governo da diocese de Coimbra, a 24 de março de 2001, tornando-se o 65.º bispo de Coimbra.

Em duas cartas pastorais, expressou com clareza as linhas orientadoras do seu pontificado.

No início, em “A sombra dos seus ramos” (2001) admitia “já conhecer as rotas da diocese e os gostos dos diocesanos”, em razão do caminho realizado como bispo-coadjutor, mas insistia na necessidade “de conhecer melhor para onde se desviam as vidas ou fugiram as ovelhas”.

Antes de se retirar, em “Construir uma Torre” (2011) fixou palavras de “estímulo” e “avaliação”, com pistas exigentes para o trabalho continuado da “nova evangelização”: “o convite faz-se de pessoa a pessoa”, não devemos ficar receosos, “tenhamos a iniciativa de os chamar”.

À frente da Igreja de Coimbra revelou-se o bispo de todos para todos. Na memória de muitos, guardam-se inolvidáveis visitas pastorais ao mais recôndito lugar da diocese. Releve-se, igualmente, a dedicação aos padres e seminaristas, a solicitude dispensada aos institutos religiosos, a importância reconhecida à intervenção e participação dos leigos na vida da Igreja, a predileção pelos jovens e o cuidado das relações com universidade, a gentileza do trato com diferentes autoridades, bem como a permanente abertura ao diálogo com a sociedade civil. Sobretudo, a opção preferencial pelos pobres, desígnio íntimo a que, pessoalmente, se impusera, e trazia inscrito na divisa episcopal: “Há mais alegria em dar do que em receber.”

Próximo do próximo, dos mais humildes, visitava com frequência, e conhecia pelos nomes, as famílias que habitavam os tugúrios da cidade, estava atento e acompanhava o trabalho das irmãs Criaditas dos Pobres, despojava-se de recursos pessoais, por exemplo, vestuário e dinheiro, e entregava-os, a quem deles necessitava, pessoalmente, com discrição e suprema delicadeza.

Nele todos reconheciam o pastor teologicamente muito bem preparado.

Sem ser académico, sabia, como poucos, descodificar conceitos complexos de forma simples, usando linguagem clara e fazendo chegar a todos, mesmo ao coração dos mais simples, o entendimento da profundidade como falava das coisas de Deus, por palavras e obras.

Quem ainda se recorda de D. Albino Cleto?

É dever de todos, do Patriarcado de Lisboa e Diocese de Coimbra, manter viva a memória de um bispo santo.

 

José António Santos é jornalista e autor do livro D. Albino Cleto – Memórias de uma vida plena (ed. Paulinas)

 

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