“Albino não morre, só desaparece”? E se fôssemos “bons samaritanos”?

| 17 Jul 19 | Entre Margens, Newsletter, Últimas

(…) E, respondendo Jesus, disse: descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto (…) mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão (…) E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele (…)

(Evangelho de Lucas, cap. 10)

 

A primeira frase do título não é nova, nem em Moçambique, nem fora do país. Para além de repetida por diversas pessoas, já foi alvo ou título de muitas reportagens e de alguns documentários. Lembrei-me dela, quando li/vi que o secretário-geral da ONU, António Guterres visitou Moçambique, em Julho último. Desse périplo, dois eventos humanitários prenderam a minha atenção: a sua ida à Beira, para se inteirar das consequências do ciclone Idai, que devastou o país há poucos meses e o seu encontro com pessoas com albinismo, e onde destacou que ninguém pode ser descriminado por causa da sua aparência física.

Foi nesse sentido que escolhi falar sobre albinos, lembrando as crenças ou mitos que surgem em torno deles. Espantosamente, em pleno século XXI, ainda há quem acredite que o seu corpo (carne, ossos e sangue) sejam “remédio” para alguma coisa. Bom, passarei a referir-me a essa crença, com recurso a situações caricatas em torno dos albinos.

Nasci no sul de Moçambique e, quando era criança, não foram poucas as vezes que alguns adultos nos mandavam cuspir no peito e batê-lo, quando víssemos um albino, sob pena de, não o fazendo, virmos a ter filhos albinos, quando crescêssemos. Para além do acto de cuspir, alguns adultos mandavam-nos fazer uma figa, até que o albino desaparecesse.

Ao crescer e em conversa com colegas, dado achar abominável aquela atitude, verificamos que os albinos, curiosamente, apareciam em maior quantidade nas cidades. No campo, é muito raro encontrarem-se pessoas nessa condição. Em busca de pistas para possíveis respostas, elaborei um guião de perguntas e entrevistei quatro pessoas. Segue-se a síntese das nossas conversas.

 

Um filho adoptado, sem preconceitos

Questionei um albino sobre que preconceitos tinha sofrido; respondeu-me que era filho adoptado e que os pais o tinham perfilhado de propósito, para mostrarem aos outros filhos que tinham e aos seus familiares que um albino é uma pessoa como outra qualquer. A única distinção, relativamente aos seus irmãos, era que a sua mãe o besuntava e o ensinava a besuntar-se insistentemente com vaselina, para proteger a pele. Além disso, habituou-se desde cedo a usar óculos escuros. Cresceu e estudou na cidade. Formou-se e é um indivíduo muito bem inserido na sociedade. Mas diz que tudo isso foi graças ao rebatimentode ideias que os pais faziam em casa e no seio familiar, uma das quais a de que ele se impusesse e nunca permitisse qualquer tipo de discriminação. Disse-me ele: “Emanando igualdade, sempre recebi igualdade de direitos e de oportunidades, mas estou ciente de que isso é uma coisa rara”.

Falando com o familiar de um outro albino, contou-me que, na sua terra natal, no norte do país, quando nasciam albinos, eles eram imediatamente mortos pela parteira, a coberto de um consenso social. Nunca percebeu de que jeito isso acontecia, mas o que verificava é que, após o nascimento de um albino, os “mais velhos” sempre diziam que tinha desaparecido. Que nascera e logo de seguida morrera. Tal era o mito que transportava esta senhora que, chegada à cidade, passados anos, foi viver num bairro no qual havia um albino. No dia em que este morreu, aconselhou a família enlutada a informar as pessoas que não haveria enterro, porque o seu familiar tinha desaparecido. Questionada sobre o que fazer com o corpo, a sujeita aconselhou a família em questão a enterrá-lo em segredo. Dado este conselho, uma outra vizinha disse que o defunto deveria ser enterrado muito longe do bairro onde morrera, porque ao saber-se do local do enterro, pessoas o desenterrariam, para levar os seus ossos aos feiticeiros para, a partir deles, fabricar-se um pó que ajuda a ficar-se rico. Utilizando-o no dia-a-dia, em determinadas condições avisadas pelo feiticeiro, podia-se enriquecer.

Uma outra pessoa contou-me que existem colaboradores de feiticeiro, encarregues de procurar albinos para os matar e deles retirar o sangue e os seus órgãos genitais para se fabricarem amuletos,por se acreditar que o corpo dos albinos tem algo de sobrenatural. Nesse processo de fabricação, os ossos têm o mesmo fim, diz-se. Continuando com a sua explicação, este sujeito dizia que é por causa disso que os albinos têm sido perseguidos e raptados. Daí que muitos dos que escapam são analfabetos e não têm emprego, porque os pais se recusam a deixá-los ir à escola.

Uma outra pessoa contou que em tempos de fome, no país, houve episódios de gente que vendia carne de corpo de albino, fazendo os clientes acreditarem tratar-se de carne de porco.

 

Lourdes Pintasilgo e “cuidar o futuro”

Enfim, são inúmeros mitos, crenças e intrujices criadas em torno dos albinos. Trouxe esses episódios para lembrar que amar ao próximo é um mandamento em qualquer tradição do mundo. Já o referi, neste espaço, quando comparei os mandamentos da “lei de Deus”, da tradição católica, aos mandamentos da cultura e religião bantu e acredito que nenhuma sociedade no mundo mande o contrário. Haverá, certamente, em cada canto deste mundo, um convite a sermos bons samaritanos. Afirmo-o, mesmo sabendo que o mundo vive sujeito tanto ao bem como ao mal. Além disso, tenho-me questionado sobre como é que o mundo seria se nos tornássemos todos em bons samaritanos no sentido tão bem ilustrado na epígrafe. Aliás, muitos dos versículos desse capítulo ensinam-nos a ser o que ainda não somos: gente que precisa de aprender o básico, como amar a si e ao próximo, porque assim se ama Deus, qualquer que seja o credo.

Tendo começado com o apelo à humanidade e com o recurso ao exemplo de um político português, fazendo parte do Graal, recordo que se assinalaram no dia 10 de Julho os quinze anos da passagem de Maria de Lourdes Pintassilgo. Ela foi a primeira e única primeira-ministra portuguesa e também colaboradora da ONU, entre outras coisas. Uma das causas daquela grande pensadora do século XX, o projecto Cuidar o Futuro, passou a ser uma fundação defensora da cidadania, dos direitos humanos, da ética, entre outros valores vividos e praticados por aquela patrona da referida fundação.

Dizendo isto, faço um convite ao “cuidar o futuro”, cuidar o outro, cuidar a humanidade – e porque não, a sermos bons samaritanos.

 

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica e membro do Graal-Moçambique, Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

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