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Guilherme d'Oliveira Martins

[Entre Margens]

Alçada e Morin: uma história para lembrar

Os mais jovens sabem que a democracia é um trabalho persistente de várias gerações. Nesse sentido, acaba de ser publicado entre nós um pequeno livro indispensável que permite recordar como, nos anos sessenta do século passado, onze anos antes de 25 de abril de 1974, se abriram horizontes novos na preparação da transição democrática. Falo de O Esplendor das Amizades – A Experiência portuguesa de Edgar Morin (Gradiva, 2026), a partir de uma relação especial entre António Alçada Baptista e o pensador francês. Trata-se de uma pequena história sobre o papel fundamental dos católicos inconformistas na abertura política portuguesa. Em 1958, a candidatura de Humberto Delgado marcou o início da agitação militar, o memorando do bispo do Porto foi um alerta no seio da Igreja, e a Livraria Moraes, de António Alçada, deu o sinal no mundo da cultura.

Edgar Morin recorda com emoção: “António Alçada Baptista, que animava, nos anos 60, a oposição cultural ao regime de Salazar, convidou-me a ir a Portugal fazer uma conferência no quadro das suas atividades democráticas. O meu nome foi-lhe sugerido pelos seus amigos da revista Esprit, entre os quais Jean-Marie Domenach. A partir desse momento, nasceu entre nós uma amizade indissolúvel. Fiz esta conferência e liguei-me, também, a muitos dos seus amigos de O Tempo e o Modo, como Helena Vaz da Silva, uma mulher maravilhosa, além de seu marido Alberto, do João Bénard da Costa e do Pedro Tamen, todos, pessoas notáveis”.

Foi uma experiência inolvidável: “O paradoxo da Revolução dos Cravos foi que, normalmente, os militares fazem golpes de Estado para subjugar. Em Portugal, de uma forma única e excecional, foram os militares colonialistas que fizeram o golpe de Estado democrático que derrubou o sucessor da ditadura de Salazar, Marcelo Caetano. O próprio António ficou surpreendido com este golpe mas, claro está, depois ficou muito contente. E eu tive a oportunidade de participar nesses dias maravilhosos de libertação, de euforia”.

Edgar Morin em 2015, durante a rodagem do documentário Edgar Morin, Chronique d’un regard. Foto © Lisaetwikipedia/Wikimedia Commons

Foi o António que apresentou Edgar Morin a Mário Soares, antes de abril. E perante o curso dos acontecimentos na revolução portuguesa, o intelectual francês escreveu então um importante artigo onde mostrava que mais do que o pão o importante era a liberdade. Mário Soares tinha razão, e a partir daí consolidou-se então uma amizade que durou até ao fim. Tudo isto está ligado, graças à amizade de António e do grupo da Moraes e de O Tempo e o Modo.

Nos seus 104 anos muito lúcidos, Edgar Morin recorda emocionado: “No decorrer dos anos 69 ou 70, descobri o esplendor de Lisboa e, ao mesmo tempo, o esplendor de maravilhosas amizades. (…) Nascidos e criados num mundo de tradições, tinham-se emancipado dele, fazendo em alguns anos o itinerário de três gerações: eu acabava de chegar da Califórnia e eles já estavam parcialmente californizados, ainda que conservando a sua lusitaneidade interior… Qualquer coisa de comum nos unia um ao outro. Uma noite inteira nos ligou fraternalmente e esse sentimento fraterno perdurou. Voltei muitas vezes a Lisboa durante os anos 70, e tive a sorte de testemunhar a Revolução dos Cravos, momento de êxtase na história portuguesa que, como todos os grandes êxtases da História, nos marcou para sempre com a sua poesia, iluminadora e fugitiva, antes que o mundo volte a cair na prosa..”

Fiéis ao antigo espírito de Emmanuel Mounier de ligar católicos e não católicos no compromisso político contra a “desordem estabelecida”, o grupo de O Tempo e o Modo representou um momento decisivo na transição democrática portuguesa (leia-se de Guy Coq: Mounier – o Compromisso Político, Gradiva). Tal como aconteceu em Espanha com os Cuardernos para el Dialogo, de Joaquin Ruiz Gimenez, Mário Soares bem compreendeu que a democracia haveria de construir-se alargando a influência das oposições tradicionais, comunista e republicana a novos protagonistas. Havia que considerar os católicos, não confessionalmente, mas como uma semente inovadora. O tempo do Concílio Vaticano II e o impulso de João XXIII e Paulo VI facilitariam as coisas, ligando os temas sociais do desenvolvimento à autodeterminação dos povos africanos. Aí havia uma nova dimensão do debate político. E é assinalável que os oficiais milicianos assinantes da revista de Alçada Baptista, como Ernesto Melo Antunes, tenham tido uma influência importante. A abertura cultural torna-se decisiva: aos jovens estudantes da crise académica, como Jorge Sampaio, aos escritores heterodoxos, como Eduardo Lourenço, a poetas como Sophia de Mello Breyner, Alexandre O’Neill, Herberto Helder e António Ramos Rosa, a romancistas como Agustina Bessa-Luís ou José Cardoso Pires…

Edgar Morin, António Alçada Baptista De facto, a construção democrática portuguesa apenas pode ser plenamente compreendida a partir de uma transição gradual, cabendo ao Centro Nacional de Cultura (agora com uma existência de 80 anos) um papel importante, como estrutura permanente de enquadramento. Além de Edgar Morin, importa recordar Pierre Emmanuel e o Congresso para a Liberdade da Cultura, que Alçada Baptista trouxe para Portugal através da Comissão Portuguesa para as Relações Culturais Europeias. Aí estiveram: Lindley Cintra, José Ribeiro dos Santos, Joel Serrão, José Cardoso Pires, Adérito Sedas Nunes, Miller Guerra, João Salgueiro, José-Augusto França, Padre Manuel Antunes, Maria de Lourdes Belchior, João de Freitas Branco, Nuno de Bragança e José Palla e Carmo; sendo secretário-geral João Bénard da Costa.

É extraordinário como este grupo pôde preparar o terreno em vários domínios para o sucesso da democracia portuguesa, através de um método de intervenção em vários domínios do pensamento e ação, como se se tratasse de sementes germinando na terra. António Alçada Baptista merece lembrança atenta. Só através da sua coragem e sacrifício pessoal foi possível a Portugal combater o atraso, recusando o fatalismo e a indiferença. A leitura deste pequeno livro dá-nos conta de que a democracia não se constrói instantaneamente, mas graças a uma partilha de projetos e vontades.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é presidente do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura.

 

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