“pelo rigor da forma sob o imperativo da comunicação”
(Francisco Providência)
O recente desaparecimento de Alda Rosa (1936-2025) representa a perda de uma das figuras fundadoras do design gráfico português e de uma mulher que, num país ainda fechado e desigual, soube inscrever o seu nome numa disciplina que estava a nascer entre homens. Fez do design um exercício de lucidez, cultura e sobretudo de serviço, muito antes de se falar de igualdade ou de visibilidade feminina no design.
A invisibilidade das mulheres na história do design e da arquitectura é uma realidade persistente, alimentada por décadas de silêncio institucional e pela escassez de estudos dedicados. Apesar dos esforços de alguns movimentos, historiadores e da crescente atenção académica, o reconhecimento das mulheres em particular no design gráfico e a consolidação da sua profissionalização continuam a ser temas de preocupação.

Alda Rosa com cerca de 30 anos DR
O design gráfico ainda luta por legitimar a presença feminina nas suas narrativas. Grande parte da literatura existente fala de homens, autores, criadores e dos pioneiros, e muito raramente de mulheres. O nome de Alda Rosa emerge, assim, como uma exceção luminosa, um exemplo que ajuda a revelar o muito que a história omitiu no contexto português.
Alda Rosa formou-se num ambiente de reflexão ética e social. A sua passagem pela Juventude Universitária Católica Feminina (JUCF), e mais amplamente pela Juventude Universitária Católica (JUC), permitiu-lhe acompanhar as mutações sociais no nosso país num dos raros espaços de pensamento livre do Portugal dos anos 50. O I Congresso Nacional da Juventude Universitária Católica (JUC) subordinado ao tema “O Pensamento Católico e a Universidade”, liderado por Maria de Lourdes Pintasilgo e Adérito Sedas Nunes, acabou por ser um momento decisivo para uma geração que acreditava que a fé podia ser uma forma de consciência social e política. E na JUC, imbuída do Movimento de Renovação da Arte Religiosa e pelos chamados católicos progressistas, priva com figuras como Jorge Sampaio, Vasco Pulido Valente ou João Cutileiro. Actores proeminentes da nossa sociedade que viriam a marcar a cultura e a política portuguesas.
Foi nesse contexto que Alda Rosa colaborou na paginação da revista Presença, da JUCF, publicação onde também participaram entre muitos outros (desenho de capa) Lourdes de Castro, Diogo Lino Pimentel, Maria Flávia de Monsaraz ou José Escada. Nesse espaço, o Design colocava-se ao serviço da palavra, e a forma gráfica surgia como extensão natural de uma reflexão cristã e humanista, onde a estética e o pensamento se encontravam num mesmo gesto de construção cultural. As suas composições, nada pretensiosas, mas equilibradas, revelavam já o que viria a ser a sua marca: um design de comunicação, claro e essencial, que recusava o virtuosismo gratuito e defendia a ética da legibilidade.

Revista Presença – Biblioteca Nacional
Em 1964, inicia a sua colaboração com os arquitectos José Daniel Santa-Rita e Duarte Nuno Simões, dois arquitectos muito envolvidos no Movimento da Renovação da Arte Religiosa, onde colaborou em projetos de interiores e design gráfico. Essa experiência cedo lhe deu uma visão interdisciplinar entre espaço e comunicação. Anos mais tarde, torna-se sócia-fundadora nº 29 da Associação Portuguesa de Design, com certeza, reflexo do seu percurso associativo na JUC.

Revista Presença nº 23 – Exposição Sociedade Nacional de Belas Artes 2023. Foto © André Rosa Biscaia
Alda Rosa pertence à primeira leva de pioneiros do design em Portugal, os que abriram caminho sem reconhecimento institucional. Para ela, o design não era um gesto de autoria, mas um exercício funcional de comunicação. Assume que se distanciava de um “design de autor”, então emergente, e via o seu ofício mais como uma disciplina de rigor e de clareza disponível para todos.
Na década de 70, o seu trabalho atinge maturidade e complexidade conceptual. Foi nesse âmbito que desempenhou um papel fundamental nas primeiras exposições de design português, em 1971 e 1973, criando o cartaz e o catálogo da exposição, trabalhos que hoje se reconhecem como peças fundacionais do design português contemporâneo. As suas anamorfoses desconstrutivistas colocam-na em diálogo com o pensamento contemporâneo à época do franco-magrebino Jacques Derrida e com as linguagens da arquitetura contemporânea de Rem Koolhaas (Países Baixos), Bernard Tschumi (França) ou Peter Eisenman (EUA). O seu design é, nesse sentido, uma reflexão sobre a ausência e a desestruturação. Os seus cartazes e capas de catálogo exprimem essa ideia com rara subtileza: tramas lineares, varrimentos oblíquos, monocromias austeras e, na segunda versão, o uso expressivo do amarelo, cor que introduz luz e energia num universo de contornos racionais. A sua obra é simultaneamente crítica e construtiva, onde questiona o modernismo, mas também o reconstrói.

Imagem do Catálogo da 1ª e 2ª exposição de Design em Portugal. Arquivo – Pedro Novo
Essas opções formais não eram apenas estéticas. Traduzem um pensamento humanista cristão, um modo de ver o design como serviço, na época em que o mundo do pós-Concílio Vaticano II procurava o aggiornamento, aproximando fé, ciência e justiça social. Acredito que Alda Rosa desenhava com a mesma convicção com que acreditava. Via o design como uma forma de responsabilidade cívica, um instrumento de mediação entre pessoas e instituições. Ao lado de Maria Helena Matos, Cristina Reis, António Sena da Silva e Tomás de Figueiredo, no Núcleo de Design Industrial do Instituto Nacional de Investigação Industrial, consolidou paralelamente uma linguagem que combinava racionalidade, clareza e compromisso ético. E sem nunca o reclamar, inscreveu o nome de uma mulher entre os fundadores de uma disciplina que até então falava quase só no masculino.
Hoje, ao evocarmos Alda Rosa, não basta lembrá-la como pioneira no Design Gráfico em Portugal como muito se embandeirou nos noticiários do dia do seu falecimento. Devemos reconhecê-la como autora de pensamento visual, alguém que soube articular fé, ética e modernidade num gesto gráfico que continua a interpelar-nos.
Num tempo de excesso de ruído visual, o seu legado é um lembrete de sobriedade e de humanidade. Alda Rosa ensinou-nos que o design, quando verdadeiro, é como os passos do Torga, livres mas crentes…
(…)
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
(Miguel Torga [1977], Diário: Vols. XIII a XVI. Lisboa.)
Pedro Novo é arquitecto; desempenha actualmente o cargo de presidente da Secção Regional de Lisboa e Vale do Tejo da Ordem dos Arquitectos.










