Aldo Moro, o Professor

| 18 Mai 20

Duas imagens do documentário Aldo Moro, o Professor: um homem próximo dos alunos.

 

Quarenta e dois anos depois do assassinato de Aldo Moro, a RTP2 exibiu o filme-documentário Aldo Moro, o Professor, que pode ainda ser visto na RTP Play, proporcionando assim uma boa oportunidade para conhecer um dos mais prestigiados políticos italianos e europeus do século XX. Baseado num livro homónimo da autoria do jornalista Giorgio Balzoni, aluno de Moro, o filme-documentário, que tem a realização de Francesco Miccichè, reconstitui os derradeiros dias de vida de um professor afectuoso e estimulante e de um político tolerante e livre.

As primeiras imagens de Aldo Moro, o Professor, do arquivo televisivo da RAI, co-productora do filme-documentário, fornecem algum contexto. Mostram várias concentrações e manifestações estudantis e, numa parede. um slogan: “Somos realistas, pretendemos o impossível”. O filme começa com uma aula de Aldo Moro na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade La Sapienza, de Roma. “É a diferença entre o bem e o mal que delimita a moral, mas é sempre o homem, o indivíduo singular, que escolhe”, explica o professor, interpretado por Sergio Castellitto.

Pouco depois, subitamente, irrompe na sala um grupo, liderado por uma aluna da faculdade. Julia, que Valentina Romani interpreta, acusa os democratas cristãos de estarem a destruir “à mão armada” a vida social e questiona-lhes a cumplicidade em diversos atentados, que, como se sabe, foram cometidos pela extrema-direita para justificar um acréscimo de poder do Estado e severas restrições às liberdades dos cidadãos. Na resposta, afirma Moro: “Menciona factos gravíssimos que sujeitaram o país ao risco de um desvio inconstitucional. E se isso não aconteceu foi sobretudo graças à presença das grandes massas populares, à sua vigilância. Em especial, as de orientação católica”.

A troca de palavras passa para outro assunto. Pretendendo comprovar quão os políticos se encontram alheados da vida concreta das pessoas comuns, Julia interroga o professor sobre os preços das coisas. Moro, porém, conhece-os. Sabe quanto custa um bilhete de autocarro – “200 liras, uma viagem” – e um quilo de massa – “600… 650… depende da marca”. “De vez em quando, cozinho em casa”, acrescenta Moro. Os estudantes saem da sala.

Quando volta a ver Julia nos corredores universitários, Aldo Moro saúda-a e diz que a reconheceu numa fotografia de uma manifestação publicada no jornal Lotta Continua. A jovem fica surpreendida por Aldo Moro ler a imprensa revolucionária. O professor, que também era ministro dos Negócios Estrangeiros, revela-lhe que tem em conta todas as contestações, excepto as violentas, e convida-a a assistir às suas aulas. Julia comparece e tornar-se-á a melhor aluna. É sobretudo a partir do ponto de vista dela e também do do namorado Emilio, interpretado por Andrea Arcangeli, que se observam os 55 dias que medeiam entre o sequestro e o assassinato de Aldo Moro.

A entrecortar o fluxo narrativo, vão surgindo múltiplos depoimentos de antigos alunos, de antigos dirigentes dos vários campos políticos e de outras personalidades, que falam sobre o homem, o mestre, o político – primeiro-ministro em várias ocasiões – e um assassinato que está longe de se encontrar esclarecido. Aldo Moro, diz-se, foi morto pelas Brigadas Vermelhas. No filme-documentário, o deputado Gero Grassi, corrige, precisando que, em Dezembro de 2017, a comissão parlamentar que investigou o atentado e morte de Aldo Moro “revolucionou, de facto, a verdade” ao sustentar que o político “também” foi morto pelas Brigadas Vermelhas. As responsabilidades pelo crime são também imputadas a membros dos serviços secretos italianos, à loja maçónica P2 e à mafia.

As omissões de auxílio também são assinaladas e, de um modo geral, correspondem às que tinham sido apontadas nas cartas que Aldo Moro escreveu durante o sequestro. No campo político, quase só Bettino Craxi, anos depois, acusado de corrupção, e a generalidade da direcção do Partido Socialista o defenderam verdadeiramente, abrindo a porta a uma negociação com as Brigadas Vermelhas, considerada imprescindível para a salvar a vida de Aldo Moro. A libertação de uma brigadista com um problema de saúde seria um possível gesto simbólico susceptível de resgatar o professor. Triunfaria, porém, a ideia trágica: qualquer entendimento com os terroristas enfraqueceria o Estado. Ao pedir publicamente aos terroristas uma libertação sem contrapartidas, o Papa Paulo VI não impediu que essa perspectiva tivesse prevalecido. O apelo foi, mesmo assim, considerado excessivo no Vaticano, onde corre um processo de beatificação do estadista, contra a vontade da filha que, recentemente, veio pedir ao Papa Francisco que travasse a iniciativa, transformada numa espécie de guerra de gangues que a querem rentabilizar em proveito próprio.

A estratégia de Aldo Moro, considera o historiador Miguel Gotor, sempre foi inclusiva, sempre teve a intenção de alargar a base democrática e popular do regime. No dia do seu rapto, o Partido Comunista tinha decidido apoiar o governo democrata-cristão de Giulio Andreotti, o que era a única forma de dar estabilidade ao país (e um modo de evitar um golpe de Estado como o que tinha sucedido no Chile, diz Emilio a Julia). Era o resultado do “compromisso histórico” de que Aldo Moro foi o grande ideólogo e artífice. O ex-senador do Partido Comunista Emanuele Macaluso afirma que o entendimento entre democratas-cristãos e comunistas suscitou alarme tanto nos Estados Unidos da América quanto na União Soviética e em todas as forças conservadoras italianas.

Querer um país melhor foi fatal para Aldo Moro.

Aldo Moro

Aldo Moro. Direitos reservados

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