Reza a lenda que os médicos são como Deus na terra. Eles curam os incuráveis e passam receitas milagrosas aos seus pacientes.
Certo dia desta semana, vi-me na sala de espera de um Hospital em Lisboa, quando, para meu enorme espanto, as senhas de chegada deixaram de funcionar.
Como um truque de magia, as senhas saltavam num frenesim. Saíam das máquinas automáticas para cima dos pacientes que chegavam ao Hospital. Pareciam as cartas de Hogwarts para o Harry Potter que entravam sem cessar dentro da casa dos seus tios Dursley, em Little Whinging, Surrey.
Nesta confusão, as pessoas exclamavam atónitas:
— Não funciona!
— Sem senha, como sei qual é o meu número?
— Será que a doutora vai-se esquecer de mim?
— Minha senhora, isto hoje está muito complicado. — Respondiam as funcionárias.
Ora, não é que, para além das máquinas avariadas, também os próprios sistemas informáticos davam erro? A internet nem vê-la. Voltaria o mundo aos tempos da caligrafia?
De repente, abrindo as portas automáticas que levam aos consultórios, surgiam médicos esbaforidos e completamente alheados da realidade.
Saíam dos seus templos trancados a sete chaves e chamavam os seus pacientes pelo nome, imagine-se lá tamanha ousadia!
— Pode vir, senhor Anacleto Bonifácio. Estou a chamá-lo há mais de uma hora.
Ao que o senhor Anacleto prontamente respondia:
— Peço desculpa, doutor. É que ainda ninguém me tinha chamado pelo altifalante.
Nesse instante, um cheiro enjoativo invadiu a sala de espera. Primeiro, era uma vaga lembrança de algo familiar, mas logo tomou ares de uma podridão insuportável.
Os doentes torciam o nariz, trocavam olhares desconfiados e sussurravam entre si.
— Mas que raio… O cheiro do lixo entrou cá dentro? — murmurou uma senhora idosa, abanando-se com um jornal amarrotado.
— Parece azeitona… Mas estragada! — exclamou um rapaz, franzindo o rosto em repulsa.
Lá fora, os bairros de Lisboa também eram tomados pelo mesmo odor. Misturava-se com o fumo dos escapes e o aroma dos cafés da manhã tardios, mas não havia dúvida: algo não estava certo. O cheiro a azeitonas invadia cada viela, cada beco, cada avenida.
Contudo, os médicos, isolados nos seus consultórios, pareciam ignorar esta nova anomalia olfativa.
O senhor Anacleto Bonifácio, ao entrar no gabinete, ainda abanava a mão diante do nariz.
— Doutor, o senhor desculpe, mas sente este cheiro? Parece que estamos dentro de uma prensa de azeite podre!
O médico ajeitou os óculos, analisou o seu paciente de cima a baixo e, sem sequer levantar o sobrolho, respondeu:
— Senhor Anacleto, o que me descreve não tem qualquer relevância clínica. O senhor veio cá por causa das dores de costas, não foi?
— Sim, doutor, mas veja bem, até parece que o cheiro se entranhou na roupa, na pele, em todo o lado! Nunca senti nada assim!
O médico suspirou, exasperado.
— O olfato humano é altamente subjetivo. Pode ser algo psicológico. Recomendo que evite pensar nisso. Agora, falemos das suas dores de costas.

Capa do livro “Cantiga para poeta em águas furtadas”, de Francisco Teles da Gama. [Tennis at Newport, George Ballows (1920), Virginia Museum of Fine Arts]
Lá fora, o cheiro tornava-se mais intenso. Os pacientes continuavam na sala de espera, alguns tapando o nariz com lenços, outros olhando os telemóveis sem conexão, como se esperassem um milagre digital. Mas os médicos, trancados nos seus templos de ciência, ignoravam o que acontecia para além das quatro paredes dos seus consultórios.
Até que, subitamente, uma enfermeira entrou no gabinete, pálida como cera:
— Doutor… Há algo de errado. Todos os pacientes queixam-se do mesmo cheiro. Mas veja isto: alguns já sentem náuseas, outros têm tonturas… e há quem jure que até as luzes piscam quando inspiram fundo. Há algo nesta cidade que não estamos a perceber.
O médico suspirou de novo, mas desta vez hesitou. Levantou-se da cadeira, foi até à janela e expirou lentamente.
Foi então que percebeu. Não era lixo. Não eram azeitonas. Era um aviso. Algo que escapara aos relatórios, aos diagnósticos, aos exames laboratoriais. Algo que só quem estivesse atento à História conseguiria reconhecer.
Os grandes desastres começam sempre com pequenos sinais. Os médicos, como deuses na terra, deveriam lembrar-se disso. Mas será que ainda tinha tempo?
O médico virou-se para a enfermeira e murmurou, como se segurasse um segredo há muito tempo guardado:
— Talvez devêssemos começar a ouvir mais e a diagnosticar menos.
E, pela primeira vez em anos, sentiu que não tinha uma resposta pronta. Apenas perguntas. O silêncio da sala pareceu engolir o comentário. No fundo, o doutor soube que aquele aviso continha uma verdade maior do que qualquer diagnóstico que já fizera.
No dia seguinte, os pacientes receberam prescrições pouco usuais: “Visite o Museu Nacional de Arte Antiga. Observe os Painéis de São Vicente de Fora, as seis pinturas atribuídas a Nuno Gonçalves, criadas em meados do século XV,” “Passe uma tarde de sol no MAAT. Sinta a estrutura em forma de baleia no espaço projetado pelo atelier de arquitetura Amanda Levete.” ou “Sente-se nos bancos do Jardim da Gulbenkian, desenhado por Gonçalo Ribeiro Telles, e ouça os pequenos patos a chapinhar na água.”
Quando questionado pelos colegas, o médico apenas sorriu e disse:
— A medicina cura o corpo. Mas talvez seja a História da Arte a curar o coração. Ou talvez tenha sido inspirado pelo último livro que li: Cantiga para poeta em águas-furtadas, de Francisco Teles da Gama.
E, pela primeira vez em anos, sentiu que estava a prescrever algo verdadeiramente essencial.
Nota: Este artigo dispensa receita médica. Para mais informações consulte o seu médico ou farmacêutico.
Francisca Gigante é fundadora da FITA – Friends In The Arts e doutoranda em História da Arte na Universidade Nova de Lisboa. Trabalha entre Veneza e Lisboa em instituições culturais sem fins lucrativos. Contacto: franciscagigante@gmail.com.










