Alegria com raízes – Raízes de alegria

| 25 Ago 2023

Cada um pense naqueles que nos deram algo na vida, que são como as raízes de alegria.
(Papa Francisco, discurso na vigília JMJ Lisboa 23)

O Papa esteve sempre muito próximo dos jovens durante a JMJ. Foto Sebastião Rôxo / JMJ Lisboa 2023

O Papa esteve sempre muito próximo dos jovens durante a JMJ. Foto Sebastião Rôxo / JMJ Lisboa 2023

 

A Alegria está quase omnipresente nos escritos do Papa Francisco, talvez por isso não seja de admirar que tenha desafiado os jovens reunidos em Lisboa à alegria e a perceberem onde é que ela está enraizada.

Dos muitos desafios lançados pelo Papa, na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, este parece-me particularmente provocatório, pelo que tem de exigência e  pelo desafio que acarreta.

Poucos, como o Papa, terão uma visão tão abrangente da Igreja, tendo a perceção, o mais exata possível, do que nela acontece, nos quatro cantos do mundo. Talvez por isso, consciente das adversidades que a barca de Pedro vive em cada região do mundo, tenha feito em primeiro o convite ao recolhimento, para permitir o exercício da memória e da gratidão.

Não somos, de modo algum, fruto do acaso, mas sim de uma história que nos vai permeabilizando e moldando. É no tempo e no espaço, palcos da existência, que nos vamos burilando, percebendo quem somos e onde estamos enxertados.

Conhecer as nossas raízes, avivar na nossa memória rostos, perceber como paulatinamente fomos esculpidos, ajuda-nos a abraçar, com gratidão, os alicerces nos quais fomos sendo edificados.

Conhecendo as dificuldades que povoam os anos juvenis, as angústias que experimentam os jovens nas diversas latitudes geográficas, sabendo os desafios que hoje são colocados ao pequenino rebanho que é a Igreja, especialmente aos jovens, minúsculo membro deste povo chamado (ekklesia), o Papa convida-nos a uma fascinante e bela viagem às profundidades de quem somos, para entendermos quem é a causa primeira da nossa alegria.

O Papa sabe que a Igreja em cada país, de modo algum, é aquela multidão exultante presente em Lisboa, que contagia e arrebata, mas sim um pequeno grupo que experimenta perseguições de diversa ordem, que enfrenta adversidades, que está envolta em tribulações e que tem desafios permanentes para perseverar, daí convidar a não ter medo.

Não se trata de levar uma alegria passageira, uma alegria do momento, trata-se de levar uma alegria que crie raízes. (Papa Francisco, discurso na vigília JMJ Lisboa 23)

É na banalidade da vida, no corriqueiro dos nossos afazeres, que se torna grandiosa a vivência da alegria.

O nosso grande feito será, quando confrontados com a nossa insignificância social, a nossa pequenez numérica, o desdém endémico que provamos, perseverarmos e permanecermos fiéis à alegria que nasce do encontro solitário e preenchido com Aquele que é a razão primeira da nossa alegria.

Se somos herdeiros, também somos transmissores. Recebemos e somos chamados à partilha. É demasiado grande o que recebemos para que fique entrincheirado nas masmorras do egoísmo e confinado nas nossas conveniências conjunturais.

Se a vivência da fé não alarga horizontes para lá da realização de necessidades, por muito nobres que sejam, será uma vivência condenada à amargura e à desilusão, porque nem sempre coincidirão os nossos desejos e vontade com o projeto de Deus. Por isso é necessário cultivar uma relação de proximidade, que nos faça permanecer unidos à fonte da alegria.

O desafio de agora e de sempre para a Igreja é proporcionar a todos, mas especialmente aos jovens, que estão a criar raízes, experiências de encontro, onde acolhimento, escuta e conversa aconteçam naturalmente, sem agendas prévias nem propósitos apologéticos.

Que nós, Igreja de Jesus, saibamos ser vides por onde a seiva criativa do Espírito circule, levando ao encontro amoroso e sedutor com o Deus que Jesus nos revela, para que vivamos uma alegria duradoura.

Que a Igreja tenha sabedoria para exigir somente aos jovens que não desistam de caminhar. Que lhes é lícito cair, que lhes é permitido vacilar, que é normal terem dúvidas, que é comum serem assaltados pela confusão, mas que não é lícito, não é permitido, não é normal nem é comum um jovem permanecer derrubado e desistir da alegria de viver.

E pergunto-me, como podemos converter-nos em raízes de alegria? Olhemos para as nossas raízes, sem medo, não tenham medo!(Papa Francisco, discurso na vigília JMJ Lisboa 23)

A alegria com raízes, será aquela que está consciente da tribulação, mas permanece enraizada no amor fontal, porque sabe que, mesmo na escuridão da vida, há uma luz que ilumina todos os recônditos da vida, uma chama que incendeia todos os poros da nossa existência e há um oxigénio ainda para respirar, o da esperança e da presença.

Será esta a missão comum de nós todos, discípulos de Jesus: ser raízes de alegria. Homens e mulheres enxertados na raiz primordial, que se alimentam do pão da fraternidade e da palavra transformadora. Será este encontro que fará brotar da profundidade de cada um o desejo ardente de partilhar a alegria em que mergulhámos, partilhando-a afavelmente com os que se cruzam connosco nas veredas da vida.

O repto foi-nos lançado. Que não tenhamos medo de mergulhar no assombroso amor de Deus e não tenhamos medo de sermos, também nós, raízes de alegria, ainda que frágeis e débeis, mas acompanhados pelo Espírito, que renova a cada dia todas as coisas.

 

António Ribeiro está aposentado e é cristão católico; contacto: amvribeiro@sapo.pt.

 

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Na Calábria, com Migrantes e Refugiados

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Estou na Calábria com vista para a Sicília e o vulcão Stromboli ao fundo. Reunião de Coordenadores das Redes Internacionais do Graal. Com uma amiga mexicana coordeno a Rede de Migrantes e Refugiados que abrange nada mais nada menos que 10 países, dos Estados Unidos, Canadá e México às Filipinas, passando por África e o sul da Europa. Escolhemos reunir numa propriedade de agroturismo ecológico (Pirapora), nas escarpas do mar Jónio, da antiga colonização grega. Na Antiguidade, o Mar Jónico foi uma importante via de comércio marítimo, principalmente entre a Grécia e o Sul da Itália.

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