Alegria e Misericórdia: as revoluções de Francisco

| 6 Set 2020

Inflexão na doutrina e mudança nas práticas pastorais são os dois temas mais polémicos associados à exortação apostólica Amoris Laetitia que o Papa Francisco publicou há quatro anos e meio. Mas os especialistas reunidos por Miguel Almeida, sj, no livro Alegria e Misericórdia – A teologia do Papa Francisco para as famílias mostram que as revoluções operadas por Francisco na exortação não se limitam àqueles dois aspetos. E estas são para a Igreja desafios tão grandes ou maiores do que aqueles.

Talvez o título do livro seja comprido demais. Poderia ser apenas Alegria e Misericórdia – A teologia do Papa Francisco. De facto, apesar da dúzia de autores que nele escreve o fazer sempre a partir da exortação e do discurso eclesial sobre a família e o matrimónio, o que nos vai sendo apresentada é a teologia do Papa Francisco, não apenas sobre as famílias, mas o seu discorrer de fé sobre o Deus de Jesus Cristo e o modo como Ele se relaciona com a história humana. E a propósito das famílias – plural de realidade bem diferente do singular “a família” – muitas coisas têm de mudar. Não tanto nestas, mas mais na Igreja. Como tem sido seu costume, impelido pela urgência de Deus, Francisco começa por fazer o seu trabalho de casa e muda o que pode mudar, incitando a que bispos, padres, consagrados e leigos mudem o que lhes compete mudar.

A função do magistério, o exercício da autoridade (em especial da autoridade papal), a revolução na linguagem, os critérios pastorais, o direito canónico, a importância salvífica da realidade humana são alguns exemplos das múltiplas áreas em que os autores detetam (e descrevem) verdadeiras revoluções realizadas pelo Papa nesta exortação. Neste quadro, a importância do texto pontifício ultrapassa em muito a questão da pastoral familiar. O que explica a reação violentamente adversa dos sectores mais conservadores.

A diversidade de áreas de investigação dos autores reunidos permite uma visão multifacetada da exortação e dá ao leitor a possibilidade de se interessar mais por um ou outro ponto de vista. Neste leque de especialistas nota-se a ausência de alguém vindo da área da sexualidade. Mas esse é também, a meu ver, o “terreno esquecido” pela exortação.

De qualquer modo este é um livro indispensável para relembrar a novidade e a importância decisiva de uma exortação que alguns, na Igreja portuguesa, apresentaram como não contendo nada de novo. E para mostrar o caminho que nos falta percorrer para que se torne realidade a afirmação contida no relato final da XIV assembleia-geral ordinária do Sínodo dos Bispos: “o anúncio cristão sobre a família é verdadeiramente uma boa notícia”.

 

O livro Alegria e Misericórdia – A teologia do Papa Francisco para as famílias será apresentado na Brotéria, em Lisboa, na próxima sexta-feira, 11 de setembro, às 18h30, numa sessão com a participação do padre Miguel Almeida, sj (coordenador da obra) e dos casais Ana Cordovil e Jorge Wemans, e Teresa e Bernardo Cunha Ferreira; é necessária inscrição, que pode ser feita através deste link.

 

Alegria e Misericórdia – A teologia de Papa Francisco para as famílias
Miguel Almeida, SJ (coordenação); textos de: Andrea Grillo; Antonio Autiero; Antonio Spadaro, sj; Austen Ivereigh; Conor M. Kelly; Irene Guia, aci; James F. Keenan, sj; Julie Hanlon Rubio, Miguel Almeida, sj; Pablo Guerrero Rodriguez, sj; Philippe Bordeyne; Stella Morra.
Editorial Frente e Verso, 310 páginas; preço: €14,00; 1ª edição: julho de 2020.

 

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