Quem pode cantar uma canção de mudança, perguntava a música do Nyado, grupo dedicado à acção positiva através da música e das artes visuais. O planeta está a ficar sem bateria e o único modo de o recarregar é através de uma economia mais sustentável e sem exclusão, mostrava um vídeo de jovens com deficiência. Ideias do encontro A Economia de Francesco, que se iniciou nesta quinta-feira, em Assis (Itália), convocado pelo Papa.

Um planeta exaurido e com a bateria quase no fim. Imagem do vídeo dos jovens do Instituto Seráfico.
Se tivesse de enfrentar dois problemas do mundo e tentar resolvê-los, Rita Sacramento Monteiro, 34 anos, escolheria o trabalho e o cuidado. O trabalho, por causa do desemprego e da tecnologia, mas também pela “necessidade de perceber quais podem ser as profissões do futuro ou as novas modalidades de contratação”. O cuidado, porque para ela é importante imaginar como cuidamos de forma mais ágil, possibilitando mesmo a contratação de quem está fora do mercado e não flexibilizando empregos.
Rita Monteiro é responsável pelo programa de voluntariado da EDP desde 2016. Formada em Comunicação, também é escuteira. “O cuidado é um “tema de futuro”, ainda mais num país envelhecido e onde não há uma estratégia para o envelhecimento activo. “Como cuidamos dos mais velhos? Mantendo o modelo de residências? Tornando-as mais humanizadas? As profissões do cuidado na saúde, ou em milhares de organizações são vistas como “de segunda” categoria, diz Rita. Mas têm de ser valorizadas, defende, em declarações ao 7MARGENS.
Esta posição coincide muito com a defesa que o Papa Francisco fez da importância das actividades de cuidadoras quando, em Março, presidiu à oração pela humanidade, na praça de São Pedro, em directo para o mundo inteiro. É tempo de ver a forma como tantos são capazes “de resgatar, valorizar e mostrar como as nossas vidas são tecidas e sustentadas por pessoas comuns (habitualmente esquecidas), que não aparecem nas manchetes dos jornais e revistas, nem nas grandes passarelas do último espectáculo”, afirmou na ocasião. São elas que, “hoje estão, sem dúvida, a escrever os acontecimentos decisivos da nossa história: médicos, enfermeiros e enfermeiras, trabalhadores dos supermercados, pessoal da limpeza, responsáveis, transportadores, forças policiais, voluntários, sacerdotes, religiosas e muitos – mas muitos – outros que compreenderam que ninguém se salva sozinho”.
Rita também tem esta perspectiva e está interessada em debater como é que a organização económica pode ser diferente. Por isso aderiu ao encontro A Economia de Francesco, convocado pelo Papa em Maio de 2019 para que, tendo por referência a vida de São Francisco (Francesco, em italiano), imaginassem uma “economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta”
A convocatória é para jovens economistas e empreendedores, até aos 35 anos. Por isso Rita aderiu à ideia e é uma das 16 que dinamiza o grupo de 50 jovens portugueses que se inscreveram para participar no encontro, que decorre ainda sexta e sábado e pode ser acompanhado, em ambos os dias, entre as 13h e as 17h (hora de Lisboa).
“Não sendo economista, não sei como se resolve o problema de aumentar ordenados a pessoas que são tendencialmente mal pagas.” Mas sabe que “somos todos importantes e temos de dar atenção às pessoas, porque elas é que são importantes”. E temos de “trabalhar a forma como olhar e cuidar do outro” numa empresa ou organização, porque “não somos máquinas”. Sabendo tudo isto, Rita Monteiro também sugere que, em vez de discutir questões de fim de vida, deveríamos estar a rever os cuidados paliativos ou a forma de gestão dos lares, entre outras questões.
“Questionar a lógica da economia”

Vila Verde (Portugal), 2000: debater o papel das mulheres mães e profissionais foi uma das sugestões dos portugueses participantes. Foto © Alfredo Cunha/O Tempo das Mulheres, cedida pelo autor.
E porque não outras ideias? Ricardo Zózimo, 43 anos, professor de Impacto na área de Gestão da Universidade Nova de Lisboa, é um dos cinco académicos que se ofereceram para acompanhar os jovens portugueses na preparação do encontro. Nos debates que foi havendo, o papel dos professores foi o de enquadrarem as propostas que surgiam entre os jovens e jovens adultos.
Uma das sugestões que surgiram procurou enfrentar o papel das mulheres na economia e que procura responder à necessidade de não estrangular o papel das mulheres como mães e como trabalhadoras, permitindo também a sua realização profissional.
Os jovens propuseram que a baixa por maternidade e paternidade deveria ser obrigatória e igual para os dois membros do casal. “Isso permitiria que o empregador visse como igual o facto de contratar um homem ou uma mulher, no caso de a pessoa poder vir a ter filhos”, explica Ricardo Zózimo ao 7MARGENS, sobre a proposta dos jovens participantes no encontro.
É preciso “procurar caminhos novos e diferentes e questionar a lógica da própria economia”, diz Rita Monteiro. “A pandemia tem mostrado que os modelos que temos estão a falhar em várias direcções.” Desde logo, no que às alterações climáticas diz respeito: tem de se encarar esse problema de forma global e percebermos que se trata de uma crise sócio-ambiental “que não se vai resolver sem as pessoas”. Sem olhar “para a forma como trabalhamos, como produzimos, como consumimos” não se conseguirá resolver o problema, diz.
Quem senão os jovens participantes pode ajudar a “mudar o actual sistema económico e a construir um mundo melhor”, perguntava, na sessão de abertura, Francesca di Maolo, presidente do Instituto Seráfico de Assis, uma instituição católica de integração de crianças e jovens com incapacidades físicas, mentais ou sensoriais.
Pouco antes, um duo proveniente do Nyado fazia uma pergunta em forma de música: quem pode cantar uma canção de mudança? E um vídeo produzido pelos jovens do Seráfico mostrava um planeta a esvair-se até ao 1% de bateria, e que só se recarregava com gestos de desenvolvimento sustentável, distribuição de riqueza, partilha e fraternidade.
Ela própria uma jovem adulta, Francesca di Maolo dizia que é preciso um sistema que não produza “pobres, esquecidos ou excluídos” (as sessões do primeiro dia podem ser revistas no canal do encontro no YouTube, a seguir reproduzido:)
“Tecnologicamente avançados, mas empobrecidos…”
Para Rita Monteiro, as grandes opções são claras: valorizar o conhecimento científico, partilhar informação, investir na educação, combater a corrupção na política ou nas empresas – mesmo se “muitas vezes é preciso entrar na dança para poder transformar”.
Há uma “pressão insustentável sobre as pessoas” que cria um profundo “desequilíbrio na sua vida na dimensão humana e familiar”. As empresas, acrescenta, devem dar lucro, mas também “partilhar o valor que criam, porque se destroem o valor humano” não têm futuro.
A ideia de crescimento não pode reduzir-se a números, antes deve alargar-se ao “acesso ao trabalho digno e ao sentido colectivo e da pertença”. E “não pode haver uns a crescer e outros a ficarem para trás”. Caso contrário, continuaremos “tecnologicamente avançados, mas empobrecidos em muitas dimensões”.
Outro desafio é o do envolvimento das pessoas na política, diz Rita Monteiro, e o encontro convocado pelo Papa atraiu-a porque lhe abriu “horizonte e oxigénio, uma possibilidade de olhar o mundo com olhos de ver”. Mesmo que o encontro não se faça com muitas “receitas económicas”, o facto de se poder questionar e fazer perguntas é o primeiro passo para encontrar respostas.
Para o caso português, é importante também aproveitar esta oportunidade num país onde se acentuaram problemas sociais. E o discurso dos católicos precisa de voltar a olhar para a o pensamento social da Igreja e a ética social.
Rita Monteiro diz que há coisas boas a acontecer, que é preciso valoriza. E Ricardo Zózimo concorda: “Há sinais de esperança no mundo inteiro e este encontro procura esses sinais de esperança. Precisamos de oferecer alternativas, figuras e modelos diferentes do que existe”, afirma.
Uma grande virtude deste encontro é a possibilidade de “formar comunidade: os problemas são globais, precisamos de uma comunidade à escala global; as pessoas que estão no encontro estarão em sítios de responsabilidade e isso permite criar redes internacionais que permite provoquem a mudança”. Sinal disso mesmo são os rostos que apresentam o encontro: duas jovens oriundas do Equador e Filipinas e um argelino – significativo, aliás, que não haja ninguém da Europa ou dos Estados Unidos.
Extra-programa, os jovens portugueses encontram-se diariamente depois das 17h numa plataforma virtual, onde também podem estar outras pessoas interessadas que se devem inscrever previamente.









