Sempre os mais pobres dos pobres nas suas preocupações: seja no trabalho que faz como médica, seja no apoio que dá, através de uma associação que criou com uma amiga, a médicos e outros profissionais de países desfavorecidos. Alexandra Fernandes, 61 anos, médica do Serviço Nacional de Saúde (SNS), foi a última entrevistada do programa Rostos e Rumos, uma parceria do 7MARGENS e da TSF.
A sua opção foi, desde o início, pela carreira de médica de família precisamente por essa razão: o SNS é “o único sítio, no nosso país, onde é possível tratar de toda a gente”, explica ela na entrevista. “Uma das razões pelas quais sou médica de família é por uma tentativa de repor a grande injustiça, as grandes diferenças que há”, explica, para acrescentar: “Não me faz nenhum sentido, e custa-me imenso aceitar que uma pessoa que já seja pobre, que já tenha menos acesso a tudo, ainda possa ter pior acesso à saúde; por isso, decidi dedicar a minha vida médica precisamente aos que ficam no fim da fila.”
Mas na Associação Ruben Fernandes, que evoca o nome do seu pai e criou com a amiga Mónica Rocha e Melo, a médica também pôs aquele mesmo princípio em prática: muito do dinheiro que é dado para a cooperação e a ajuda ao desenvolvimento “fica pelo caminho”, com viagens, pagamentos a técnicos ou o próprio processo. Por isso, com o dinheiro que recebeu da herança do pai – um dos criadores da Papelaria Fernandes, em Lisboa – Alexandra pensou que interessava antes “colocar o dinheiro nas mãos certas”. Ou seja, a associação apoia “projectos de jovens líderes servidores, que moram em países muito pobres, e esses projectos têm o objectivo de melhorar a vida dos mais pobres dos pobres desses sítios”.
O balanço é claramente positivo. “É uma coisa maravilhosa: um pouco de dinheiro colocado nas mãos de pessoas que estão desejosas de melhorar a vida dos seus compatriotas, tem um resultado que não se consegue imaginar.”
Voluntariado em São Tomé e “uma desigualdade inaceitável” em Portugal

“Um milhão e 600 mil pessoas sem médico de família é inaceitável do ponto de vista dos direitos humanos”. Foto © António Marujo/7MARGENS
O voluntariado que fez em São Tomé com os Leigos para o Desenvolvimento também a confirmaram nessas opções: “As sociedades têm organizações próprias; o melhor que temos a fazer é ajudar as pessoas daquelas terras a fazer o bem pelos seus povos.” Durante meses de voluntariado, sentiu-se “sempre estrangeira”. Por isso, o melhor que há a fazer “é ajudar as pessoas daquelas terras a trabalhar, não tinha sentido eu estar lá e os colegas sãotomenses estarem a trabalhar fora”. Daí a criação da Associação, que apoia os profissionais nos seus países de origem, dando-lhes condições para trabalharem lá dignamente.
Essa dinâmica sempre a orientou: há pouco mais de quatro anos, em Janeiro de 2022, Alexandra Fernandes decidiu deixar os utentes da Unidade de Saúde Familiar do Seixal (Fernão Ferro), onde trabalhava há 25 anos, para se dedicar inteiramente à Via Verde Saúde Seixal. Este serviço piloto do Agrupamento de Saúde Almada-Seixal pretendia prestar cuidados primários de qualidade a mais de 47.000 utentes do concelho do Seixal que não têm médico de família – chegou a perto de metade. Sucessivas alterações de orientação do Ministério da Saúde acabaram com o projecto.
A decisão de Alexandra Fernandes surgira como mais um passo na vida de alguém que desde o início quis fazer da profissão um serviço sobretudo aos mais favorecidos. E de alguém que fez da fé católica uma tradução do seu desejo de justiça, sobretudo para os que estão fora do acesso ao SNS, Serviço Nacional de Saúde.
“Um milhão e 600 mil pessoas sem acesso a médico de família é de uma desigualdade inaceitável do ponto de vista da nossa Constituição e dos direitos humanos”, diz Alexandra Fernandes na entrevista. “Se acrescentarmos os que estão em situação irregular, e que não podem ter acesso, “então a injustiça é ainda maior”.
Uma catequista na Capela do Rato

Nascida em Lisboa em 1964, na zona do Largo do Rato, em Lisboa, Alexandra é casada, mãe de três filhos e avó de cinco netos. A família adoptou ainda uma criança e acolhe em casa, neste momento, uma ucraniana com a sua filha.
No 25 de Abril de 1974, com dez anos, recorda-se de, na escola, os alunos fazerem manifestações a pedir recreios mistos. Transportou o gosto reivindicativo para casa, passando a pedir um irmão – “veio a minha querida irmã Joana”.
Aos 16 anos, Alexandra fez voluntariado na pediatria do Instituto de Oncologia. Foi depois de fazer um teste vocacional que percebeu que o seu caminho não seria a engenharia, como os pais, mas a medicina.
Licenciada em Lisboa, em 1988, elegeu a especialidade de Medicina Geral e Familiar, que concluiu em 1995. Há 23 anos, é ainda a responsável da consulta de Alcoologia, criou a Associação com o nome do pai e recebeu, em 2024, o Prémio Médica de Família do Ano, orgulhando-se ainda da história e das conquistas do SNS.
A sua abertura para a ideia da justiça vai buscá-la aos tempos da infância, quando via a separação das empregadas domésticas, e à catequese, quando na Capela do Rato a catequista Maria Eugénia lhe disse: “Deus é nosso pai, ele ama-nos.”
“Não é o facto de ser católica e acreditar em Jesus que me faz ter uma preocupação com a justiça. Isso é anterior: desde criança que me lembro de ter essa preocupação”, diz. “E quando conheci melhor Jesus, percebi que estamos completamente alinhados.”
Foi essa fé que a ajudou a ultrapassar um momento trágico quando, aos 28 anos, ficou viúva do primeiro marido. Reconstituiu a vida. E apesar da força dessa fé, confessa que ela inclui muitas dúvidas e diz ter uma pergunta a fazer um dia: “A primeira coisa que pergunto a Deus quando o encontrar face a face” será confrontá-lo com a “dificuldade de encaixar que um Deus bom, Pai, permita, na natureza, a existência de determinadas doenças” – nomeadamente as que “atingem crianças pequenas, que são incuráveis, que causam dor”.
Enquanto esse momento não chega, Alexandra Fernandes continua a “fazer a parte que [lhe] cabe de aliviar o mais possível e de prevenir o mais possível essas situações”.
Jesus “acharia natural” mulheres no altar

Alexandra Fernandes: “Jesus foi muito para a frente em relação às mulheres.” Foto © António Marujo/ 7MARGENS.
No seu trajecto espiritual, Alexandra Fernandes ligou-se à Família Missionária Verbum Dei, uma experiência que vem da década de 1960. “Tem o carisma de rezar a palavra de Deus e vivê-la e anunciá-la. Rezar a palavra até ao ponto de ela ser a nossa própria vida e depois levá-la aos outros pela palavra e pelo próprio testemunho de vida.” A médica de família não tem dúvida sobre o que a constitui como cristã: “Conhecer a palavra de Deus, conhecer a maneira como Jesus viveu, como pensou, deixar-me influenciar por ele. Viver, tentar viver isso. E depois anunciá-lo. Eu diria que Jesus é o meu amigo, é alguém que me entusiasma e que me chama a atenção para ir mais além.”
Nem tudo no catolicismo lhe agrada. Desde logo, a questão de as mulheres não poderem ser ordenadas. “Jesus foi muito para a frente em relação às mulheres; [pelo] modo como ele tratou as mulheres na sua época imaginaria que ele acharia natural que as mulheres fossem padres”, afirma. O mesmo sobre o celibato eclesiástico: “São Pedro era casado. Um padre diocesano que assim o quisesse, que mal teria ter uma vida familiar, ter mulher e ter filhos, conhecer melhor o que é a realidade da vida do dia-a-dia e, ao mesmo tempo, dedicar-se a Deus e às suas paróquias?”
Também fica perplexa “perante o modo como são tratadas as pessoas homossexuais” na Igreja Católica. “O Papa Francisco também o dizia: ser homossexual não é uma escolha. A pessoa verdadeiramente interessa-se afectivamente por pessoas do mesmo género. A Igreja aceita que se interesse, mas pede-lhe que não o manifeste numa expressão física”. A médica não entende porquê: “Se a pessoa é assim e se aquilo que comanda é o amor, porque se há-de pedir a estas pessoas que mantenham castidade em relação à expressão desse amor?”, pergunta também.
Sonhos concretizados

Alexandra Fernandes durante a entrevista com Manuel Vilas Boas. Foto © António Marujo/7MARGENS.
No final da entrevista, Alexandra Fernandes escolhe a Pedra Filosofal como música que sintetiza as razões do seu percurso de vida: “A letra é de [António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho], um dos poetas de quem mais gosto, foi professor no meu liceu”. A música composta por Manuel Freire, é uma melodia “maravilhosa e perfeitamente adequada”.
“Corresponde bastante à minha vida: tenho tido sonhos, Deus colocou no meu coração sonhos que me tem, ao longo da vida, ajudado a concretizar; e eu sinto-me uma pessoa muito feliz.”
A entrevista pode ser escutada na íntegra na página do programa na TSF: https://www.tsf.pt/programa/rostos-e-rumos










