Leituras de Páscoa (6)

“Algumas Palavras Antes do Apocalipse”

| 30 Mar 2024

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Hoje, 28 de Março, os cristãos celebram Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa.

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa.

 

 

No meio dos “apocalipses” 

 

“Seria ingénuo pretender lutar contra os desastres climáticos remetendo-nos exclusivamenteà oração, mas não seria menos ingénuo imaginar que se consegue vencer o mal sem atacar as suas causas e esquecer que o primeiro lugar de onde eu posso esperar arrancá-lo pela raiz é da minha própria vida.” Algumas Palavras Antes do Apocalipse coloca o leitor bemno meio dos vários «apocalipses»a acontecer por estes anos – pandemia, guerras, crises económicas e sociais – não para dizer que tudo isso é sinal do fim do mundo a chegar, mas antes do Reino de Deus que, no entendimento dos cristãos, já está entre nós e do combate escatológico que acontece em cada um e cuja vitória já foi dada na cruz de Cristo. Uma obra belíssima, que respeita o texto evangélico (Evangelho de Marcos 13, onde se relatam as profecias de Jesus sobre a destruição do Templo em Jerusalém, bem como o discurso escatológico) e ajuda o leitor a entender como as palavras de Cristo sobre o fim dos tempos são «daquele tempo», «de agora» e «de sempre».

 

Uma história sombria

 

Apocalipse. Adrien Candiard

Pormenor da capa do livro “Algumas Palavras Antes do Apocalipse”

 

Se este discurso de Jesus nos revela o sentido da história, quer dizer que esta é particularmente sombria. Os diversos pensamentos que têm proposto filosofias sobre a mesma, desde o Iluminismo, habituaram-nos a compreendê-la como uma forma de progresso, certamente descontínuo, suscetível de fracassos provisórios e de retrocessos, mas apesar disso caminhando com um passo tão resoluto como inexorável rumo ao bem, à abundância, ao triunfo da ciência, à democracia, à sociedade sem classes ou à abolição das subjugações.

O excecional progresso científico e técnico que conhecemos nos últimos séculos, de modo particular os êxitos incontestáveis da medicina, confirmava esta visão das coisas, como a notável expansão económica que o acompanhou, a qual, começamos agora a compreender, também produz efeitos negativos. Sabíamos, naturalmente, que nem tudo estava bem, embora pudéssemos acreditar que as coisas estavam a melhorar. Estes esquemas de pensamento estão tão profundamente arraigados, informam com tanta força a nossa apreensão da realidade que temos dificuldade em renunciar-lhes completamente perante os flagrantes desmentidos que a atualidade nos oferece. Permanecemos – voluntariamente ou não, conscientemente ou não – órfãos dos mitos do progresso e ficaríamos muito contentes se encontrássemos um sucedâneo cristão para os mesmos, uma garantia divina de que, apesar de algumas vicissitudes, tudo correrá pelo melhor. Não seria essa uma contrapartida justa, visto que, segundo a opinião geral, tais filosofias da história teriam simplesmente transposto para a terra a esperança cristã, laicizando a fé na salvação e no paraíso? Assim, não seria razoável esperar que a difusão da Boa Nova no mundo inteiro – apesar de alguns fracassos, como o declínio atual do Cristianismo na Europa – fosse construindo progressivamente uma sociedade mais justa e mais fraterna, mais conforme com o ensinamento de Jesus, onde a pobreza, a violência e a guerra fossem desaparecendo pouco a pouco?

Infelizmente, Jesus não nos promete absolutamente nada disso. Ele prevê, de facto, a difusão do Evangelho, «proclamado a todas as nações», mas não espera de modo algum os frutos que nós, aparentemente, teríamos direito a esperar dessa evangelização do mundo. Pelo contrário, segundo Cristo, ela será acompanhada por perseguições de uma grande violência, que chegarão até a dividir mortalmente as famílias, num contexto de conflitos, terramotos e fome, onde pulularão os falsos profetas. Será que vale a pena anunciar uma Boa Nova que produz tais efeitos?

Menez, sem título: “Uma cena do Apocalipse, uma espécie de luta entre o Bem e o Mal, entre a Luz e as Trevas.” Foto © Teresa Vasconcelos

Menez, sem título: “Uma cena do Apocalipse, uma espécie de luta entre o Bem e o Mal, entre a Luz e as Trevas.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Aliás, como explicar tal paradoxo? O anúncio do amor de Deus ao mundo não deveria torná-lo melhor? Na realidade, esse anúncio atua como uma revelação – ou, se preferirmos, como um apocalipse – daquilo que se passa no coração de cada um. O amor nem sempre provoca amor; pelo contrário, pode provocar rejeição, desprezo, ódio. O cisterciense americano Thomas Merton conta como, na sua infância, por vezes rejeitava o seu irmãozinho, chegando ao ponto de lhe atirar pedras, embora ele só desejasse segui-lo e acompanhá-lo por toda a parte; já adulto, vê nessa sua reação uma imagem perfeita do pecado: a rejeição manifesta, definitiva, violenta de um amor simplesmente oferecido. Neste seu exemplo, convém, sem dúvida, ter em conta a necessidade de autonomia, que permite o crescimento das crianças, e as complexas situações de rivalidade sempre presentes entre irmãos: não nos precipitemos, portanto, também nós, a atirar pedras à criança que ele era. No entanto, o mecanismo por ele descrito é muito real. O amor obriga-nos a escolher. Constrange-nos a responder, mediante a gratidão ou a rejeição, e não é assim tão fácil como se pensa aceitar ser amado. Todos nós o desejamos ser, é certo, e, no entanto, nada nos desestabiliza tanto como sabermo-nos amados. Todas as nossas relações pessoais – experimentamo-lo diariamente – são complicadas por este facto simplicíssimo de que estamos marcados, precisamente, por aquilo a que os teólogos chamam «pecado original», o pecado presente em nós: é difícil aceitar ser amado. O amor com que somos amados faz-nos entrar em crise, no sentido de que nos coloca perante uma escolha imprevista e necessária, que nos faz perder momentaneamente o equilíbrio.

A situação não é muito diferente quando se trata do amor de Deus. De facto, a evangelização do mundo não corresponde à expansão do clube dos cristãos, mediante o recrutamento de novos membros; é o anúncio, a propósito e a despropósito, do amor de Deus pelo mundo revelado em Jesus Cristo. As nossas tentativas nesse sentido são muitas vezes desajeitadas ou com um misto de vontade de convencer e de paixão pela nossa razão; devemos, pois, guardar-nos de pensar, quando elas são repelidas, que é o próprio Deus a ser assim rejeitado. Mas quando eu, por graça de Deus, entrevejo aquilo que poderá ser o seu amor por mim, o seu amor pelo mundo, as coisas não ficam mais fáceis: esse amor incondicional, total, é muito perturbador”.

 

Algumas Palavras antes do Apocalipse – Ler o Evangelho em tempo de crise, de Adrien Candiard
88 págs., Editorial AO.

 

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