Alguns capacetes azuis e países coniventes com violência na RCA, acusam bispos

| 18 Jan 19 | Destaques, Estado, Política e Religiões, Sem categoria, Sociedade

A destruição numa aldeia na República Centro-Africana depois de atacada por um dos grupos rebeldes; foto © ACN Portugal

Vários contingentes militares da missão das Nações Unidas na República Centro Africana (RCA) não cumprem o dever de proteger as populações e, ao invés, permitem que a guerra se agrave no país. A denúncia foi feita esta semana pelos bispos católicos da RCA, no final da sua assembleia plenária, e dirige-se especialmente às tropas marroquinas, mauritanas e paquistanesas que integram a MINUSCA(Missão Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro Africana). Um dos bispos acusa ainda o Chade, a França, a Rússia e a China de se aproveitarem da situação.

“Prestamos homenagem aos contingentes da Minusca que, com profissionalismo, garantem a protecção dos civis. No entanto, deploramos a duplicidade  de alguns contingentes, que permitem que a situação se deteriore diante dos seus próprios olhos como se beneficiassem disso”, acusam os bispos, num comunicado citado pela agência Fides, do Vaticano. O texto refere “os marroquinos no leste, os paquistaneses em Batanfago e os mauritanos em Alindao”, cujo comportamento “não faz mais que exacerbar a situação, já de si crítica”, que se vive no país.

Em declarações ao 7MARGENS, por correio electrónico, o bispo auxiliar de Bangassou, Jesús Ruiz, recorda: a 12 de Outubro de 2016, em Kagabandoro, o contingente paquistanês “deixou passar uma multidão muçulmana excitada que gritava ‘o nosso Deus é mais forte’” e que massacrou “várias dezenas de pessoas indefesas”; em Novembro último, em Batangafó, os rebeldes ex-seleka atacaram um campo de deslocados “enquanto os capacetes azuis paquistaneses contemplavam a queima e guardavam as motos dos incendiários”; a 15 do mesmo mês, em Alindao, a UPC, um dos grupos armados, atacou o campo de refugiados junto da catedral, matando 80 pessoas, entre as quais dois padres. “Tudo isto se passou diante dos olhos dos capacetes azuis da Mauritânia, que não fizeram nada para impedir o massacre”, diz o bispo espanhol de Bangassou.

A MINUSCAreconhece que esse tipo de informações tem circulado, “geralmente após a ocorrência de incidentes graves”, diz Vladimir Monteiro, porta-voz da missão das Nações Unidas na RCA. O mesmo responsável acrescenta que a MINUSCA“conduz investigações para ver o nível de desempenho dos capacetes azuis na sua missão de protecção dos civis”. Em caso de incumprimento, diz, há sanções disciplinares.

Vladimir Monteiro acrescenta ao 7MARGENS que, no caso da MINUSCA, “há igualmente muita manipulação para tentar denegrir a imagem” da missão. “Algumas comunidades, consoante os interesses, criticam um ou outro contingente, muitas vezes destacando a religião desses soldados. A nossa mensagem é que são todos capacetes azuis das Nações Unidas com a missão de proteger as populações civis e ajudar a consolidar a presença do Estado sobre todo o território.”

O cardeal Dieudonné Nzapalainga a rezar, juntamente com o imã Kobine Layama, presidente da Comunidade Islâmica da República Centro-Africana; foto © ACN Portugal

 

O “jogo sujo” do Chade, França, China e Rússia

Precisamente sobre essa presença do Estado no território, o comunicado dos bispos traça um quadro pessimista:“Para lá da capital e de algumas cidades, o Estado tem apenas uma presença formal. As funções civis e militares, incluindo em zonas onde não há grupos armados, não têm meios para operar e o seu número é simbólico. Grandes zonas da RCA escapam ao controlo do Estado e estão nas mãos de grupos armados que cometem repetidamente actos de violência desumana e graves violações de direitos humanos: extorsão, queima de lugares de pessoas deslocadas, impedimentos à livre circulação, detenções arbitrárias, sequestros, torturas, execuções sumárias.”

O bispo Jesús Ruizvai mais longe nas denúncias ao 7MARGENS: o exército nacional está sob embargo da própria ONU, enquanto os grupos rebeldes são rearmados “até aos dentes, mesmo diante do nariz dos capacetes azuis”. As armas destinadas a estes grupos entram pelo Sudão, Chade, Camarões e Congo, diz. “Toda a gente sabe, mas o nosso exército não pode defender o país. Este é o grande cinismo internacional…”

Há países concretos apontados: “O grande protagonista da crise é o Chade, com Idriss Deby, que desde há décadas decide a sorte do nosso país com a bênção da França.” Esta última, que não faz “jogo limpo”, tem “muitos interesses e receia ficar fora de jogo na partilha do bolo nacional, por isso instiga a uns e outros”. A China continua “silenciosamente a sua exploração mineira”. E a Rússia enviou 165 soldados, mas apenas cinco deles são do exército russo. “O resto são mercenários da empresa Wagner.” E os russos, aparentemente, armaram um dos grupos, o FACA, com equipamentos e armamento, acrescenta. (Na semana passada, o Presidente russo recusou as conclusões de um inquérito que liga a Wagner ao assassinato de três jornalistas russos que investigavam a empresa, considerada próxima do Kremlin.) “No meio de tudo isto, o nosso é um Governo títere, sem nenhuma autonomia nem poder. São os outros os que movem os fios”, conclui o bispo.

Destruição no mercado de Bossemptele, em Janeiro de 2014, na primeira fase da guerra; foto © ACN Portugal

 

“Porosidade” e transumância

No comunicado, os bispos referem ainda que “a porosidade das fronteiras à transumância” aumenta a instabilidade nas zonas controladas por rebeldes e provoca não só conflitos com agricultores, mas também “facilita o tráfico de armas e a chegada de mercenários” de países como o Chade, Sudão, Camarões, Níger e Uganda. Ajudem a RCA a “sair da anarquia para o bem de todos”, apelam os bispos aos governos vizinhos, porque “um país desestabilizado é um problema internacional”.

Jesús Ruiz refere ainda que a visita do Papa Francisco à RCA, em 2015, “criou um cima de optimismo e reconciliação nacional” que permitiu mesmo a realização de eleições em 2016. “Desgraçadamente, em meados” do ano, a violência voltou e terá atingido neste momento o ponto mais alto desde o começo da crise, diz, com o Governo do Presidente Faustin-Archange Touadér a a controlar apenas 20 por cento do território.

As denúncias dos bispos surgem poucos dias depois de os pára-quedistas portugueses ao serviço da MINUSCA terem participado numa operação armada para expulsar os rebeldes da UPC (União para a Paz na Centro-África) de Ali Darassa (Bokolobo).

O porta-voz do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA), comandante Pedro Coelho Dias, explica ao 7MARGENS que a UPC tem feito cobrança ilegal de impostos a mineiros e está envolvida em disputas de território e recursos de gado e minas. A operação, que durou 50 horas no último fim-de-semana, foi “uma das mais complexas” em que os militares portugueses já estiveram envolvidos. Um contingente da ONU foi atacado por um grupo armado e a missão teve como objectivo expulsar o grupo de Bambari, a segunda cidade do país, para cerca de 70 quilómetros a sul. A operação militar resultou em vários mortos e 30 feridos do lado do grupo rebelde, bem como na captura de vários dos seus líderes. Dois membros da polícia local foram também mortos.

Por telefone a partir de Bambari, onde chegou esta semana para se juntar ao contingente português, Coelho Dias diz que as acusações dos bispos podem ser compreendidas: por vezes, “alguns capacetes azuis não terão sido diligentes na protecção dos civis”. A própria ONU e a MINUSCA têm evitado falar num problema religioso, acrescenta. “O conflito é muito mais inter-étnico, com vários grupos que, depois, instrumentalizam a questão religiosa”.

De resto, diz, há uma boa relação da população civil com os militares portugueses. Prova disso são algumas imagens recolhidas pelos pára-quedistas, com dezenas de pessoas a cantar e a dançar, no final da operação, como forma de agradecimento. “Estavam a dizer ‘obrigado, Portugal’ na língua local e isso traduz o grande prestígio e imparcialidade dos portugueses.”

Militares portugueses em contacto com a população local; foto cedida pelo EMGFA

As operações militares, acrescenta entretanto o porta-voz da MINUSCA, coincidiram com uma missão de alto nível da União Africana e da ONU, destinada à relançar o diálogo entre o Governo e os 14 grupos armados, previsto para o próximo dia 24, no Sudão. Perante os últimos acontecimentos, o bispo Ruiz teme, no entanto, que elas não se realizem…

 

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