Os homens tornaram-se raros. Pouco a pouco, as mulheres tomaram os trabalhos que eram deles e as tarefas que só eles desempenhavam, fazendo cair os mitos antigos. Também as crianças deixaram de ser simples ajudantes de ocasião, para passarem a assegurar fainas de fio a pavio. Eram os anos sessenta, a pobreza e a emigração. Levei tempo a dar-me conta do que se estava a passar. Ou talvez tivesse visto, mas não tivesse logo percebido. Eu só ia à aldeia de férias… E vivia esse mês na maior e mais abastada casa da terra.
A casa do meu avô. Numa aldeia perto de Chaves. Ele, a única figura masculina. Tudo o mais, mulheres. Surdo, muito surdo, ex-combatente do Corpo Expedicionário Português, geria a lavoura como um fardo. Tinha estudado em Coimbra, iniciado uma vida em Lisboa, mas a Monarquia do Norte e outras aventuras antirrepublicanas em que se envolveram familiares, obrigou-o a regressar à aldeia para viver uma vida de que procurara livrar-se.

Vista da cidade de Chaves. Foto © José Centeio
Mas naquele tempo eu não sabia nada dessas histórias. Enquanto criança aceitava as coisas como elas me surgiam na sua imediatez indiscutível. Já no início da adolescência, as explicações que procurava e as interrogações que me punha eram outras, mais abstratas, sem respostas fáceis e mais importantes (julgava eu!…).
Era o verão, dias longos, noites quentes e intermináveis. Nós, um rancho de miúdos, manos ou primos, apaparicados por algumas das mulheres da casa. De manhã, sair para os pinhais, descobrir novos carreiros, andar escondido, ficar deitado no chão enquanto o calor ia aumentando. Depois de almoço, leituras, caves, jardim, procura das sombras, ou ficar longamente a ver os cães deitados a tentarem abocanhar as moscas que os incomodavam. As tardes depois do lanche e as noites eram os melhores tempos: longos passeios até ao pôr do sol, ir buscar os animais aos lameiros, banhos no rio… noites a ouvir os mais velhos a contarem histórias antigas e divertidas, brincar num casarão às escuras, ou no jardim em que um luar tardio mal deixava distinguir canteiros, muros e árvores de fruto.
Calhou ali viver, por vezes, sozinho, sem primos nem manos. Apenas eu e os adultos. Não sei quando fui mais feliz. Se quando abandonado a mim próprio, ou naqueles dias de confusão, jogos, partidas, desastres, gargalhadas e muita cumplicidade com os da minha idade. Em qualquer um desses tempos fui feliz, inteiramente feliz, como só muito novo se pode sê-lo.
A casa já não existe, os pinhais arderam, as vinhas foram arrancadas, os campos têm agora outro aspeto.

Caminho por entre floresta de Carvalhos. Foto © José Centeio
Porque vos faço perder tempo falando-vos de um lugar que já não existe, de uma terreola a que não vos recomendo irem? Porque espero que quem me lê também tenha um lugar de memória semelhante. Um espaço, um sítio, um lugar a que posa sempre regressar quando atormentado pela vida, derrotado por combates perdidos, dilacerado por males próprios ou alheios, triste de já não poder rir com os que partiram, ou se afastaram.
Lugares assim, a que só podemos regressar por exercício de memória, de que temos saudades, mas que não nos impelem ao saudosismo, antes nos recordam raízes que nos fazem desejar a realidade de coisas novas, o gosto por relações a construir no futuro que chega até nós, lugares assim todos deviam ter na bagagem com que se fazem à vida. Infeliz de quem carrega malas cheias de recordações de viagens e andanças, sem encontrar tesouro parecido. Infelizes também aqueles que, encontrando-os, não têm ninguém com quem sobre eles conversar.
Bem-aventurados os que atravessam a vida partilhando com outros lugares de infâncias felizes! Mais do que lugares revelados, esses são lugares que nos revelam e nos sustêm.
Jorge Wemans










