A Conferência dos Bispos da África Austral (SACBC) acaba de apresentar um documento de advocacia histórico à presidência sul-africana do G20 e à ONU Mulheres. Intitulado “Alimentar. Curar. Libertar África”, o texto desafia as economias mais poderosas do mundo a garantir que a dívida sirva a vida, e não o contrário, propondo uma ordem económica na qual “cada refeição partilhada seja uma semente de justiça; cada corpo curado, um sinal de libertação”.
O documento foi elaborado em colaboração com a Cáritas África, o Serviço Jesuíta aos Refugiados e várias congregações religiosas católicas presentes no continente africano, e apresentado esta terça-feira, 28 de outubro, em Pretória, pelo bispo Thulani Victor Mbuyisa CMM, presidente do Departamento de Ação Social da SACBC, tendo sido recebido oficialmente por Lawrence Matemba, representante da Presidência sul-africana do G20.
“Hoje apresentamos ao G20 e à ONU Mulheres um apelo moral que não pode permanecer à margem”, disse Mbuyisa, citado pelo Vatican News. “As questões de alimentação, saúde e justiça da dívida devem ocupar o centro das atenções quando os líderes globais se reunirem. Trata-se da dignidade humana, trata-se da própria vida”, apelou.
No seu discurso, intitulado “Alimentar. Curar. Libertar. África — Fé em Ação por uma Recuperação Justa”, o prelado apontou como a fome, as mortes maternas e o peso insuportável das dívidas ameaçam o futuro do continente. “O nosso continente abriga a população mais jovem do mundo, dons naturais abundantes e uma profunda sabedoria moral enraizada na fé e na comunidade,” afirmou. “Contudo, a nossa promessa é enfraquecida pela fome, pela doença e pela dívida.”
E explicou: “Muitas crianças passam fome não porque falta comida, mas porque falta justiça. Muitas mães morrem não porque a cura seja impossível, mas porque os sistemas de saúde são subfinanciados. E muitas nações continuam endividadas não porque tenham falhado, mas porque as estruturas da economia global não foram construídas para servir aos pobres.”
Considerando que a Presidência sul-africana do G20 é “não apenas uma oportunidade diplomática, mas uma responsabilidade moral”, o representante da SACBC apelou aos líderes mundiais para que repensem os sistemas económicos ao serviço da vida: “Que cada alívio da dívida se torne um investimento nas mulheres e nas crianças. Que cada decisão fiscal proteja a dignidade de uma mãe, o futuro de uma criança e o bem-estar de uma nação”.
O bispo Mbuyisa fundamentou o seu apelo na Doutrina Social da Igreja e pediu a inclusão formal das comunidades de fé — especialmente das mulheres consagradas — na formulação e monitoramento das políticas do G20, sublinhando que “a parceria com elas não é caridade; é boa governança”.
A Iimã Macdelyn Mosalagae SC, uma das principais vozes da campanha, descreveu por seu lado a iniciativa como uma missão tanto espiritual quanto social: “Já não somos apenas mulheres de véu. Somos curadoras, educadoras e agricultoras. Enfrentamos de perto as realidades da fome e da pobreza, e queremos que o G20 saiba — verão mais de nós”, prometeu.
Já Wesley Chibamba, da Caritas África, fez um apelo a uma liderança global corajosa: “Isso já foi feito antes, a dívida pode ser cancelada novamente. Precisamos de um reajuste económico em que ninguém vá dormir com fome, em que as mulheres sejam tratadas com igualdade e em que as economias sirvam à humanidade, não aos mercados”.
A sua mensagem foi reforçada por Victoria Mutambaa, do Serviço Jesuíta aos Refugiados, que destacou a necessidade de incluir refugiados, migrantes e crianças indocumentadas nos programas de proteção social e de alimentação escolar, pois “se a inclusão não estiver no coração dos nossos sistemas, então a justiça está apenas pela metade”, alertou.
No final, o bispo Thulani Mbuyisa resumiu assim a apresentação do documento: “Isto não é apenas um momento de advocacia — é um momento de fé. A África está a levantar-se para lembrar ao mundo que a justiça começa à mesa, onde cada criança é alimentada, cada mulher é curada e cada nação é libertada”.










