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Entre Margens

Alinhar explicação e “sentificação”

| 23/10/2025

 

Um sistema finito evolui e persiste no tempo se facilitar o movimento daquilo que o estrutura. Cada país, cidade ou pequena comunidade é um sistema finito que evolui e persiste no tempo na medida em que se facilitam os relacionamentos que os estruturam. Porém, o que acontece quando os relacionamentos assentam em versões da verdade que não têm sentido senão para aqueles que nelas acreditam?

O modo natural de procurar viver na verdade é questioná-la a cada momento e confrontá-la com a nossa experiência de vida. A necessidade de relativizar a verdade surge também como modo natural de manter a mente e o coração abertos ao aprofundamento da verdade que nos estrutura como sociedade e comunidade. Mas o que tenho assistido é a um crescente sentimento de que a verdade penetra cada vez menos nas bolhas de crenças comuns que podem nada ter a ver com a verdade. Questiono se na evolução da sociedade finita, o fluir de informação não esteja a produzir cada vez mais poças de lama com águas paradas, em vez de leitos que se ramificam para manter a água em movimento até ao mar. Seria uma sociedade feita de comunidades fechadas em bolhas digitais, em vez de comunidades abertas em aldeias, vilas e cidades com estradas que as ligam entre si.

Os que vivem dentro de bolhas possuem filtros mas aparentam estar inconscientes disso. Cada vez que olham o mundo através dos ecrãs, não é o mundo que lhes fala, mas o reflexo de si mesmos, devolvido por algoritmos que aprenderam a agradar-lhes. A promessa de uma rede aberta transformou-se num labirinto de espelhos. As bolhas com filtros vivem do modo como a tecnologia imita a nossa tendência ancestral de procurar apenas aquilo que confirma o que já pensamos. Assim, o espaço público rarefaz-se de encontros autênticos com a verdade.

Deixamos de partilhar um caminho comum de sentido. Cada um respira o seu próprio ar, consome a sua própria verdade, e acredita que o mundo cabe dentro da sua linha temporal. O problema não é apenas técnico, mas espiritual. Arriscamo-nos a perder o contacto com o outro, cuja alteridade nos inquieta e obriga a crescer.

“Romper a bolha para construir a aldeia com estradas até onde vivem outras comunidades é, portanto, um acto de coragem interior. Significa aceitar o desconforto do real, da verdade que desafia o que conhecemos, o encontro com o que não cabe no nosso padrão de previsibilidade.” Fotografia gerada com IA./ Freepik.

Romper a bolha para construir a aldeia com estradas até onde vivem outras comunidades é, portanto, um acto de coragem interior. Significa aceitar o desconforto do real, da verdade que desafia o que conhecemos, o encontro com o que não cabe no nosso padrão de previsibilidade. É reaprender a ouvir, não o eco do nosso gosto, mas o rumor plural da vida que reside fora das nossas preferências.

Antigamente estávamos habituados a confiar naquilo que alguém nos dizia, sem necessidade de o verificar. Isso acontecia particularmente no espaço público através da comunicação social. Mas neste tempo em que alguém permanece impune diante da falta de verdade naquilo que diz, argumentando que a verdade que desafia a sua verdadez é falsa, faz-me pensar numa expressão forte que encontramos nos Irmãos Karamazov de Dostoevski—”Se não há Deus, então tudo é permitido.” Sinto que tudo está a ser permitido, não há Deus?

Por que razão haveria de insistir em Deus quando a crença n’Ele parece ser tudo menos universal? Talvez seja por ter experimentado Deus como a sentificação da verdade. Sentificar foi um verbo que senti a necessidade de inventar para expressar “o que dá sentido a” (seja o que for). Mesmo sendo cientista em engenharia, reconheço que a ciência é insuficiente para ajudar cada ser humano a caminhar no encontro da verdade.

A ciência oferece explicações para o modo como as coisas são na realidade física, mas o encontro com a verdade inclui aspectos que fazem parte da realidade para além da física, como a mental e a espiritual. A explicação parece ser insuficiente. Será preciso também a sentificação. Isto é, aquilo que dá sentido ao caminho que fazemos na direcção da verdade.

Creio que seja o alinhamento entre a explicação de alguém e a sentificação daquilo que explica que poderá orientar cada pessoa no caminho que juntos fazemos na direção da verdade. Se explico, mas não sentifico,—quando produzo uma ideia muito lógica, elaborada, mas sem tocar a consciência e o coração—, ou se sentifico, mas não explico— quando produzo um sentimento que preenche de tal modo a consciência e coração da pessoa que a razão não encontra espaço para falar—o desalinhamento afasta-nos da verdade.

Nos relacionamentos que estabelecemos no interior de nós próprios e com os outros, o valor de alinhar a explicação com a sentificação da realidade parece-me ser o caminho mais seguro para viver no esplendor da verdade.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook, Fnac). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos.

 

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