Alma mutilada

| 4 Mai 2021

Ben Lugamba

“Molhava, num gesto arrepiado, as palmas da mão levando-as a banhar as bochechas consoladas: como era feliz! Tinha finalmente um amigo e experimentava pela primeira vez o odor fresco do mar.” Ilustração: Ben Lugamba, cedida pelo artista

 

Samuel caminhava dançante num jogo de toca e foge com a suave rebentação da extensa e espelhada beira-mar de Keri Beach. Entusiasmado com a chegada à nova cidade, discursava e gesticulava comparações entre as imensas praias por onde passara. O fiel Odara escutava-o ao longe, absorto no encantamento da devoradora paisagem. Caminhava a passos curtos e lentos, sentindo atentamente a incomum textura da areia que se lhe entranhava nos dedos dos pés a cada novo pisar. Por vezes chegava-se à água, sorria a Samuel como sinal de concordância ao seu discurso, e molhava, num gesto arrepiado, as palmas da mão levando-as a banhar as bochechas consoladas: como era feliz! Tinha finalmente um amigo e experimentava pela primeira vez o odor fresco do mar.

O sol não tardava a desaparecer no horizonte e os rapazes decidiram sentar-se na areia para apreciar a sua camuflagem por entre os azuis imaculados do infinito. Odara, de dedo esticado e olhar pensante por entre as pálpebras semicerradas, apontou em frente perguntando:

– E ali?
– O quê? – murmurou desatento Samuel, sem entender ao que o amigo se referia.
– O que há ali, depois do mar?
– Ah, ali! Ali são os países do medo, Odara! Bem à nossa frente temos a Somália, o Quénia, a Etiópia… – o sorriso tornava-se triste nos lábios contidos de Samuel, enquanto continuava – Naquele continente nasceu o meu pai, sabias?
– Não. São nomes bonitos; e de que é que eles têm medo?
– De tudo! Das religiões, das guerras, da fome, dos homens …

Odara interrompeu o amigo num devaneio mecânico como se falasse consigo próprio, aliás, como toda a vida fizera.

– Às vezes eu também tenho medo dos homens e da fome.
– Os homens mutilaram-lhe a alma – retorquiu Samuel ainda se referindo aos medos do seu pai.

Odara, ingenuamente, achou o amigo insano por não entender o que significava uma alma mutilada, ainda que a sua própria alma fosse vítima do mesmo mal. Então calou-se ao tomar como sua a dor que via sobressair da voz tremida de Samuel.

Num gesto meditativo, Samuel baixou a cabeça deixando-a pender ligeiramente para a esquerda enquanto o indicador direito rabiscava mecanicamente a areia ensombrada; uma lágrima robusta e desobediente rolou-lhe pelo nariz indo, por destino final, pingar o desenho arenoso.

Odara não decifrou o que o amigo sentia; não conhecia a saudade porque nunca tivera uma família nem amigos. Nunca habitou uma casa, por isso não sabia o que significava perto ou longe. De coração bondoso, como só os inocentes podem, permaneceu imóvel respeitando o silêncio até que Samuel falasse novamente:

– Anda, escureceu e estou cansado, vamos buscar um lugar para dormir.

Levantaram-se e caminharam serenamente em passos mudos até ao bosque que fronteava a praia da cidade; tiraram das mochilas as mantas, aninharam-se entre os arbustos e não tardava sonhavam segredos.

 

Ana Sofia Brito é performer e artista de rua por opção, embora também mantenha a arte de palco; frequentou o Chapitô e estudou teatro físico na Moveo, em Barcelona.

 

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