Alterações climáticas: as decisões para hoje tardam a concretizar

| 19 Dez 18 | Casa Comum, Estado, Política e Religiões

“Dizemos várias vezes que a situação do nosso planeta precisa de decisões para amanhã” disse monsenhor Bruno-Marie Duffé, chefe da delegação da Santa Sé na COP24, a Conferência do Clima que terminou no fim de semana, em Katowice, no sul da Polónia. “Mas amanhã é hoje. Amanhã é hoje.”

Foi este sentimento de urgência que marcou a Conferência sobre Alterações Climáticas, organizada pelas Nações Unidas para verificar o cumprimento do Acordo de Paris, de 2015. 

Repetindo o alerta do Papa Francisco, de ouvir a voz da Terra e dos pobres, o padre Duffé pediu uma renovação de solidariedade global, por parte dos representantes de 200 governos do mundo presentes na conferência, incentivando-os a agir: “Temos que passar das intenções éticas acerca do clima e do futuro da vida na Terra para decisões financeiras e políticas.”

A conferência, que decorreu entre 3 e 14 de dezembro, pretendia reunir os países que integram o Acordo de Paris e delinear um “livro de regras” para o concretizar, já a partir de 2020. 

Este guião cobre vários assuntos, como o modo de comunicar as emissões de gases com efeito de estufa e as regras que devem ser aplicadas ao mercado de emissões de carbono. O acordo define linhas mestras  gerais para todos os países, deixando margem de manobra para os mais pobres, e usa linguagem legalmente mais vinculativa, trocando o deve indicativo (em inglês “should”) por um mais imperativo “irá” (“shall”).

No entanto, segundo diversos especialistas, o acordo ainda fica muito aquém do que foi delineado em 2015. Ao Carbon Brief, um site de informação com um foco ambiental, Joeri Rogelj, professor de alterações climáticas no Imperial College, em Londres, explicou uma das preocupações: “Sobre o Acordo de Paris, emissões e reduções de emissões propostas serão regularmente comparadas com os limites máximos de aquecimento estabelecidos: 2 e 1,5 graus Celsius (em relação à era pré-industrial). Mas, para fazer isto, o relatório não vai aderir a métodos científicos robustos mas sim deixar cada país usar a sua metodologia nacional – o que provavelmente levará os países a relatar cenários melhores do que eles realmente são.”

A falta de rigidez foi uma das críticas mais comuns tecidas às medidas que saíram da Conferência. Enquanto que o limite de aquecimento global tinha sido acordado nos 2 graus Celsius no Acordo de Paris, um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) publicado em outubro, gerou tensão em Katovice ao dizer que este limite não seria suficiente. 

Foto © Maria Wilton

“Não podemos fazer um acordo com a ciência, nem negociar com as leis da física”, alertou Mohamed Nasheed, antigo Presidente das Maldivas, a falar em nome das pequenas ilhas e países vulneráveis que vêm o seu território ameaçado pela subida do nível dos oceanos. Os mesmos defendem que a sua sobrevivência depende de alterar o objetivo de 2 graus para 1,5 graus Celsius até 2020, algo que requereria uma mudança económica radical e uma rápida descarbonização.

Rebecca Elliott, diretora de comunicações do Movimento Católico Global pelo Clima, uma rede de mais de 650 organizações católicas, mostrou o seu apoio aos países em questão: “Além de agir como voz moral e oferecer uma resposta robusta em fé, as organizações católicas estão a recolher relatos de pessoas da América Latina, África, Índia e ilhas do Pacífico que estão a ser gravemente afetadas pelas alterações climáticas.”

Por parte da Christian Aid, organização missionária cristã britânica, Mohamed Adow, delegado internacional à conferência, mostrou-se descontente com o resultado final: “O facto de a maioria dos países ter de ser arrastado a gritar até à meta mostra que algumas nações não acordaram para o apelo urgente do IPCC. (…) Países como os Estados Unidos, a Arábia Saudita, a Rússia, a Austrália e o Brasil não vieram preparados para fazer aquilo que prometeram. Sem trabalhos de casa, as nações não vão resolver a crise climática.”

A mais forte e mais nova crítica 

Os países chegaram a acordo mas algumas questões essenciais para combater as alterações climáticas, como o referido mercado de emissões de carbono, foram relegadas para a próxima conferência, no final de 2019, que terá lugar no Chile.

O encontro deste ano ficou marcado pela sensação de inércia dos governos de países abastados, algo que Greta Thunburg, ativista sueca de 15 anos, fez questão de salientar ao discursar perante durante os trabalhos. 

A jovem, que se tornou a cara e a voz da Climate Justice Now, foi notícia em todo o mundo ao criticar líderes mundiais: “Apenas falam de crescimento económico sustentável porque têm medo de não ser populares. Apenas falam de andar para a frente com as mesmas más ideias que nos colocaram nesta confusão quando a decisão sensata é puxar o travão de emergência. Não são maduros suficientes para dizer as coisas como elas são. Até essa tarefa deixam para nós crianças. Mas eu não me interesso em ser popular. Interesso-me em justiça pelo clima e pelo planeta onde vivemos.”

Greta Thunburg salientou que não vinha implorar aos líderes mundiais por mudança porque, tal como estes apelos teriam sido ignorados no passado, seriam ignorados hoje: “Vim para dizer que as mudanças vêm aí, quer queiram quer não. O verdadeiro poder (de mudança) pertence às pessoas.”

O seu discurso, que se tornou viral nas redes sociais, está a ser comparado ao discurso de Severn Cullis-Suzuki na primeira Conferência do Clima, em 1992, no Rio de Janeiro (Brasil). A rapariga de 12 anos falou de desflorestação e fez um apelo semelhante a Greta: “Perder o meu futuro não é como perder uma eleição ou pontos na bolsa.”

(Informação detalhada sobre a COP24 pode ser consultada aqui e sobre os efeitos das alterações climáticas está disponível aqui.)

Breves

Boas notícias

É notícia 

Cultura e artes

Mãos cheias de ouro, um canudo e uma intensa criatividade

Na manhã de 7 de Julho, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) inscreveu o Convento de Mafra, o santuário do Bom Jesus de Braga e o Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, na sua lista de sítios de Património Mundial. Curta viagem escrita e alguns percursos falados, como forma de convite à viagem para conhecer ou redescobrir os três novos lugares portugueses do Património da Humanidade.

Uma exposição missionária itinerante, porque “parar é retroceder”

Um altar budista do Tibete; uma barquinha em chifres, de Angola; um calendário eterno dos aztecas; crucifixos de África ou da Índia; uma cuia da Amazónia; uma mamã africana e uma Sagrada Família, de Moçambique; uma placa com um excerto do Alcorão; e um nilavilakku , candelabro de mesa indiano – estas são algumas das peças que podem ser vistas até sábado, 19 de Junho, na Igreja de São Domingos, em Lisboa (junto ao Rossio).

Pessoas

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

Agenda

Entre margens

O sonho de um novo humanismo… novidade

A Carta Convocatória para o Encontro “Economia de Francisco” (Economy of Francisco), a ter lugar em Assis, de 26 a 28 de março de 2020, corresponde a um desafio crucial para a reflexão séria sobre uma nova economia humana. Dirigida aos e às jovens economistas e empreendedores, pretende procurar e encontrar uma alternativa à “economia que mata”.

Criança no centro?

Há alguns anos atrás estive no Centro de Arte Moderna (Fundação Gulbenkian) ver uma exposição retrospetiva da obra de Ana Vidigal. Sem saber exatamente porque razão, detive-me por largos minutos em frente a este quadro: em colagem, uma criança sozinha no seu jardim; rodeando-a, dois círculos concêntricos e um enredado de elipses. Ana Vidigal chamou àquela pintura: O Pequeno Lorde.

Uma espiritualidade democrática radical

Não é nenhuma novidade dizer que o modelo de democracia que temos, identificado como democracia representativa e formal (de origem liberal-burguesa) está em crise. Disso, entre outras razões, têm-se aproveitado muito bem os partidos de extrema-direita. Mas não só eles. Surgem também críticas fortes desde a própria sociedade civil a este modelo.

Fale connosco