Alterações climáticas: desacelerar para continuar a mover

| 15 Mai 2024

Natureza. Alterações Climáticas

Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.

O planeta recebe a sua energia do Sol. Não existe outra fonte de energia na Terra. Logo, será essa a quantidade de energia que o planeta irá emitir para o espaço. O interessante está naquilo que acontece entre a entrada e saída dessa quantidade de energia: o movimento que mete tudo neste planeta a mexer.

A energia que consumimos ao almoço, a energia que os nossos transportes consomem, e qualquer outro consumo de energia destina-se a meter a massa no mundo a mover. A evolução desde os primórdios do nosso planeta provém de alterações nos nossos genes por cruzamento e mutação, mas o maior motor para essa evolução é o movimento. Pensemos no ciclo da água.

É fácil visualizar o movimento da água quando chove e quando flui por um rio até desaguar no mar ou oceano, mas o movimento continua com a evaporação da água nos oceanos, mares, lagos ou pela transpiração das plantas, animais, incluindo nós próprios. Na atmosfera, a temperatura baixa e a água condensa em gotículas que se acumulam e formam as nuvens, fechando o ciclo que se destina a usar a energia solar para movimentar a água. Até nós, seres humanos, constituídos em 60% por água movimentando-a cada vez que nos deslocamos de um sítio para outro. A razão do planeta libertar a mesma energia que recebe é o movimento que se gera na Terra e que estimula a evolução de tudo o que nela existe. Nós contribuímos para o aquecimento global com a poluição gerada pelos nossos estilos de vida, pela necessidade que temos de nos movermos, aquecendo, consequentemente, ainda mais o planeta. Estamos diante de uma “pescadinha com o rabo na boca”.

A alterações climáticas estão a acelerar por vários motivos. Um deles deve-se à diminuição de alguns poluentes que permitem a entrada na Terra de mais energia radiativa proveniente do sol. Como a capacidade de armazenar energia dos oceanos é quatro vezes superior à da terra firme, a energia a mais recebida aquece os oceanos. Porém, como a energia demora algum tempo a ser absorvida por todo o volume oceânico, padrões climáticos como o El Niño conseguem captá-la antes disso, possuindo mais energia para se desenvolver. Daí que os tufões sejam mais intensos, quentes, e contribuam para o aquecimento do planeta por estarem a movimentar-se e a “misturar” zonas frias com zonas quentes, à semelhança do que fazemos quando mexemos a sopa após ser aquecida no micro-ondas.

A razão de termos gerado um aquecimento global através da poluição, e continuarmos a contribuir com isso pela remoção dos poluentes, reflecte a necessidade que temos em nos movimentarmos. Estar quieto é morrer e não evoluir, embora seja o que devíamos fazer para realizar o choque climático que o mundo tanto precisa. Estamos a tentar captar o CO2 que emitimos para a atmosfera (o que é bastante difícil e exigente), mas se estivéssemos quietos, não produziríamos tanto CO2 e o efeito seria o mesmo com menos gasto de energia. Porém, a experiência disto mesmo só foi possível durante a pandemia da Covid-19 por termos sido obrigados a isso. Não é natural não nos movimentarmos, mas também não é natural andarmos tão acelerados. Podemos não ser capazes de parar, mas nada nos impede de desacelerar.

Quando as pessoas recebem o convite a desacelerar podem pensar que por detrás está uma intenção ludita com sentimento negativo relativamente às tecnologias através das quais nos movimentamos. Se parar é morrer, ao desacelerar, não estaremos a acelerar a nossa morte? Sim e não.

Nada no mundo vive para sempre. Tudo o que existe no planeta Terra está dentro de um ciclo de vida que se fecha com a morte. A morte é uma daquelas inevitabilidades da vida que leva os cidadãos do Butão a pensar nela cinco vezes por dia e com isso, a serem consideradas as pessoas mais felizes do mundo. Por outro lado, para que a energia usada no movimento seja devolvida pela Terra ao espaço, é preciso travar para libertar o calor recebido e dar lugar a novos e surpreendentes ciclos. Por fim, se mantivermos esta aceleração, mais repentino será o travão que acaba por fechar de vez alguns ciclos, esgotando o tempo que nos é dado para iniciar novos ciclos. Nesta perspectiva, desacelerar não é aproximar o momento do travão final, mas assegurar que nos mantemos dentro de ciclos de vida por mais tempo.

De 19 a 26 de Maio somos convidados a dedicar a semana ao contínuo aprofundamento da Laudato Si’ (LS), desta vez com o timbre de nos tornarmos “Sementes de Esperança”. Escreve o papa Francisco que — «A esperança convida-nos a reconhecer que sempre há uma saída, sempre podemos mudar de rumo, sempre podemos fazer alguma coisa para resolver os problemas. (LS 61)» — Não deixa de ser curioso que só morrendo pode uma semente transformar-se em flor. Ao desacelerar, mais tempo temos para contemplar e desfrutar da vida que provém dos movimentos naturais da criação.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro palavras (publicação de Autor) e  “de “Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook, FNAC). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao

 

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