Alvaro Pirez d’Évora no MNAA: A carreira internacional de um pintor português do século XV

| 28 Fev 20

Alvaro Pirez d’Évora, Anunciação (c. 1430-1434). Têmpera e ouro sobre madeira. Museu Nacional de Arte Antiga, inv. 2207 Pint. Foto © DGPC/ADF, Luísa Oliveira

 

Joaquim Caetano, director do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, faz-nos notar aquilo que a obra de Álvaro Pirez de Évora deixa perceber com muita nitidez: se um artista se quiser fazer grande, pôr o seu talento a render da melhor forma possível e aprender tudo o que há a aprender com os melhores, tem que ir para onde eles se encontram. Um artista precisa de ver arte. E, se não há arte que o satisfaça no país onde vive, é obrigatório ir para longe e aprender.

Joaquim Caetano, que com Lorenzo Sbaraglio assina a curadoria desta grande exposição, vai comentando a visita que nos faz. Álvaro Pirez de Évora. Um pintor português em Itália nas vésperas do Renascimento apresenta e contextualiza o trabalho conhecido da autoria deste artista, o primeiro português a assinar com autoridade as suas obras, e também o primeiro de quem há registos indiscutíveis da presença em Itália e em Espanha.

Sabe-se que, a partir de 1410 e até à sua morte, que ocorre depois de 1434, esteve em Prato, Lucca, Pisa e Volterra, pelo menos, e isto depois de uma estadia em Valência e Toledo. Terá sido nas cidades italianas que tomou contacto próximo com os pintores mais famosos do gótico internacional italiano – Gherardo Starnina, Lorenzo Ghiberti, Lorenzo Monaco, Gentile da Fabriano (talvez o mais conhecido de todos) – e também os já renascentistas Beato Angelico e Masolino, embora se mantenha alheio, até ao final da vida, do novo entendimento do espaço pictórico e da figura representada, protagonizado pela vanguarda da época, na qual se incluem estes dois últimos nomes.

O Museu Nacional de Arte Antiga possui uma Anunciação deste artista, uma obra datada dos últimos anos em que esteve activo, que está em grande destaque logo no início da exposição. A pintura, de têmpera e ouro sobre madeira, como era ainda habitual na época, possui todas as características que individualizam o trabalho do mestre português: linhas onduladas e fluidas, trabalho da folha de ouro sobre os fundos ainda a simbolizar o espaço do divino – e isto, embora o florentino Giotto, que na altura era admirado por todos, tivesse já introduzido o fundo azul e a figura humana desenhada a partir de modelo vivo –, cores vivas e saturadas, decorações preciosas. A isto, acrescentemos uma preferência por temas marianos muito óbvia, também ela uma característica de todo o gótico que Álvaro Pirez, quer por sua iniciativa própria, quer por encomenda, não deixa nunca de satisfazer.

Também nestes primeiros espaços, a montagem, sempre apoiada em textos explicativos sobre cada tema abordado, leva-nos a uma vista detalhada sobre os artistas que poderão ter influenciado Álvaro Pirez. Joaquim Caetano destaca Starnina, de quem se apresenta um frontal de arca pintado com uma cena de batalha entre exércitos mouros, datado de 1405-1410. “Era um tema habitual nestas peças, que tantas vezes serviam para guardar os enxovais, e simbolizava decerto o fim de qualquer hostilidade entre as famílias.”

Guido di Pietro (Fra Giovanni da Fiesole), dito Fra Angelico, Casamento da Virgem (c. 1435-1440). Têmpera e ouro sobre madeira. Florença, Museo di San Marco, inv. 1890.1493. Foto © Gabinetto Fotografico delle Gallerie degli Uffizi

 

De Starnina, Pirez de Évora terá retido decerto o modo de conjugar diferentes personagens em cenas complexas, e também as receitas de atelier para traduzir o movimento e a acção. Na mesma sala, contudo, há duas belíssimas tábuas feitas pelo Beato Angélico com cenas da vida da Virgem. Destas, que já relevam do espaço unificado traduzido pela perspectiva linear – uma invenção do princípio do século XV à qual o pintor português permanecerá alheio –, destacamos sobretudo a distância em relação ao gótico e o sentido da cor, também uma das marcas estilísticas do pintor português.

Guido di Pietro (Fra Giovanni da Fiesole), dito Fra Angelico, Dormição da Virgem (c. 1435-1440). Têmpera e ouro sobre madeira. Florença, Museo di San Marco, inv. 1890.1501. Foto © Gabinetto Fotografico delle Gallerie degli Uffizi

 

Um pouco adiante, a montagem introduz uma série de esculturas e peças que se encontrariam em território português na época em que Álvaro Pirez de Évora está a trabalhar em Itália. Avultam aqui não apenas o famoso retrato de D. João I, decerto uma cópia póstuma a partir de um original da época, como escultura diversa, alguma dela proveniente dos estaleiros do Mosteiro da Batalha, que então se construía, e outra de importação inglesa.

Mestre desconhecido, Retrato de D. João I (c. 1435). Têmpera sobre madeira. Museu Nacional de Arte Antiga, inv. 2006 Pint.

 

Os curadores da exposição decidiram ainda incluir aqui peças de ourivesaria da época, não assinadas, já que não descartam a hipótese de que o pintor tenha ido para Itália para aí trabalhar como ourives. Numa pintura montada um pouco mais longe, uma Virgem do Leite vinda do museu de Dijon, nota-se um trabalho de punção da folha de ouro e mesmo de incrustação de fios de metal a imitar um brocado que é de uma minúcia notável. Nessa peça, distinguimos nada menos que quatro modos distintos de lavrar este metal, algo só possível com uma aprendizagem aprofundada da prática da ourivesaria.


Mas Álvaro Pires de Évora, neste começo do século XV, é pintor. As últimas salas dividem-se pelas quatro cidades onde trabalha, Lucca, Pisa, Volterra e Prato, e pelas obras que aí deixou, algumas delas infelizmente já perdidas ou dispersas. A montagem, contudo, vai reconstruindo o desenho de retábulos, e deixando-nos imaginar, a partir dos fragmentos ainda existentes, a magnificência do que seria a obra total. Vamos encontrando muitos motivos que reconhecemos existirem também noutros pintores do gótico na Toscana, como Duccio, ou até alguma presença bizantina mais tardia, numa grande Virgem com o Menino e Anjos, por exemplo, de 1425-30, que está hoje em Pisa, na igreja de Santa Croce in Fossabanda. Aqui, a rigidez da escala simbólica – a figura da Virgem é de tamanho maior que a dos anjos – é contrabalançada pela alusão aos cinco sentidos através de atributos muito óbvios (o pássaro para o ouvido, a flor para o cheiro) e pelo jogo de olhares e de gestos que o Menino e a Mãe trocam entre si.

Alvaro Pirez d’Évora, Virgem com o Menino e dois Anjos (c. 1425-1430). Têmpera e ouro sobre madeira. Pisa, Museo Nazionale di San Matteo. Foto © Su concessione del Ministero per i beni e le attività culturali – Polo Museale della Toscana – Firenze/Nicola Gronchi, Pisa.

 

Na última sala recriou-se, inclusive com a ajuda de dispositivos virtuais, o grande conjunto de frescos exteriores que teve a colaboração do pintor português no palácio de um rico comerciante daquela cidade, Francesco Datini (1353-1410). Com fortuna feita no comércio europeu, sem filhos, Datini legou tudo o que tinha à fundação do Ceppo dei poveri di Francesco di Marco. Muito apropriadamente, os frescos exteriores representavam as obras de caridade, sendo que deles hoje já só subsistem os desenhos preparatórios ou sinópias.

Nesta última sala, onde também está uma parte ínfima do imenso espólio documental do comerciante – incluindo aí uma referência ao pintor Álvaro Pirez, um dos que estavam ao seu serviço –, podemos também ver a Virgem com o Menino entre São Bartolomeu e Santo Antão, comprada pelo Museu Nacional de Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, há relativamente poucos anos,  e uma das raras que se podem apreciar deste autor no nosso país.

Alvaro Pirez d’Évora [com Ambrogio di Baldese, Lippo d’Andrea, Niccolò Gerini e Scolaio di Giovanni], Sinopias destacadas. Prato, Archivio di Stato (em depósito na Fondazione Casa Pia dei Ceppi). Foto © Archivio di Stato, Fondazione Casa Pia dei Ceppi/James Robinson Taylor

 

Álvaro Pirez de Évora foi de facto um dos primeiros, se não mesmo o primeiro pintor português a obter reconhecimento internacional, mesmo antes de que a sua fama chegasse ao seu país de origem. Não foi esta foi a única norma que não se alterou nos séculos seguintes. Também, pelo menos até aos anos 60 do século XX, os artistas sentiram a necessidade de olhar e viajar até às cidades e aos países onde havia algo de novo para ver e aprender, algo que lhes mudasse por completo, como foi aqui o caso, a sua própria maneira de trabalhar e de sentir. Por isso, a obra de Álvaro Pirez de Évora não é apenas excepcional; é também única e insólita, quando comparada com a restante produção artística portuguesa do seu tempo.

Alvaro Pirez d’Évora, Virgem com o Menino e Anjos (c. 1425-1430). Têmpera e ouro sobre madeira. Pisa, Igreja de Santa Croce in Fossabanda. Foto © Chiesa di Santa Croce in Fossabanda/Nicola Gronchi, Pisa, Italy

 

Alvaro Pirez d’Évora – Um Pintor Português em Itália nas Vésperas do Renascimento

De terça a domingo, 10h-18h; até 15 de Março

Preços de entradas e outras informações na página do MNAA; um dos programas Encontros sobre o Património, da TSF, foi também dedicado à exposição.

 

Luísa Soares de Oliveira é crítica de arte

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