Amar um país? Civilização, compaixão e fraternidade, pediu o cardeal Tolentino no 10 de Junho

| 11 Jun 20

José Tolentino Mendonça. 10 de Junho 2020

O cardeal José Tolentino Mendonça durante o discurso na cerimónia do 10 de Junho de 2020. Foto © Presidência da República

 

O que significa amar um país? “O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre – e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade”, disse o cardeal José Tolentino Mendonça que, enquanto presidente da comissão para as comemorações do Dia de Portugal, que se assinala neste 10 de Junho, discursou esta manhã nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, numa cerimónia que, além do Presidente da República, contou apenas com mais seis convidados: primeiro-ministro, presidente da Assembleia da República e presidentes dos tribunais superiores.

“Compaixão e fraternidade não são flores ocasionais”, acrescentou o bibliotecário da Santa Sé, num discurso que levava precisamente o título, em forma de pergunta, “O que é amar um país?” “Compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.”

O cardeal Tolentino começou por referir o tema das raízes, elogiando a iniciativa de convidar um cidadão para discursar no 10 de Junho e recordou que era enquanto “mais um entre os dez milhões de portugueses” que estava naquele papel.

Citou vários poetas e obras literárias. Desde logo, Camões e Os Lusíadas, mas também Herberto Hélder, as Metamorfoses de Ovídio, a Eneida de Virgílio, a Odisseia de Homero ou os Evangelhos cristãos, para dizer que em todas essas obras se percebe que “não há viagem sem tempestades” nem “itinerário histórico sem crises”. E referiu-se à pandemia que o mundo atravessa e a quatro temas que devem traduzir a dimensão do cuidado e da compaixão: os idosos, os jovens, o ambiente e o planeta, e os imigrantes e minorias.

 

O que mostra um fémur partido

José Tolentino Mendonça. 10 de Junho 2020

Cardeal Tolentino Mendonça nos Jerónimos: um fémur humano quebrado e restabelecido “quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha”. Foto © Presidência da República

 

Antes de abordar esses temas, Tolentino Mendonça fundamentou a razão para o fazer, contando uma história atribuída à antropóloga Margaret Mead: inquirida sobre qual seria o primeiro sinal de civilização, Mead não falou dos “primeiríssimos instrumentos de caça” nem das “pedras de amolar” ou dos “ancestrais recipientes de barro”. Antes surpreendeu a todos, “identificando como primeiro vestígio de civilização um fémur quebrado e cicatrizado”.

No reino animal, em que “um ser ferido está automaticamente condenado à morte”, um fémur humano quebrado e restabelecido “documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse”.

“A raiz da civilização é, por isso, a comunidade. É na comunidade que a nossa história começa. Quando do eu fomos capazes de passar ao nós e de dar a este uma determinada configuração histórica, espiritual e ética”, acrescentou o cardeal.

Cabe aí o papel de uma obra como Os Lusíadas: “um livro que nos leva por mar até à Índia, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios” e com o qual “Camões desconfinou Portugal” e o poeta é “uma inspiração para ousar sonhos grandes”, mais decisivo ainda “numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época”.

 

“Cuidadores sensatos”

A dimensão da comunidade passa por ultrapassar “a cultura da indiferença e do descarte”, afirmou o cardeal. Não se pode esquecer quem ficou no desemprego, piorou as condições de vida ou vive agora com fome, por causa da covid-19. E elogiou como “sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras”. Pediu, depois, o robustecimento do “pacto intergeracional” e de “uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações” e a reflexão “a situação dos idosos”, rejeitando “firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determine uma diminuição do seu valor”.

Tolentino Mendonça acrescentou que esse pacto deve implicar também “olhar seriamente para uma das nossas gerações mais vulneráveis, que é a dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos” que, numa década, “vê abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave”. E, por fim, insistiu em que a pandemia expôs a urgência de um novo pacto ambiental”, referindo “um dos textos centrais deste século XXI”, a encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco: “Precisamos de construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação, que tenha expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais, mas também nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.”

O discurso, que pode ser lido e visto na íntegra na página da Presidência da República, foi seguido da intervenção do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que anunciou que, oportunamente e logo que seja possível, promoverá duas homenagens: a primeira aos profissionais de saúde, galardoando simbolicamente a equipa (médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares) que tratou o primeiro caso de covid em Portugal; a segunda, a todas as vítimas mortais de da doença, numa cerimónia de carácter abrangente, com representantes de diferentes religiões e não-crentes. O discurso de Marcelo pode ser visto também na página da Presidência.

José Tolentino Mendonça. 10 de Junho 2020

Momento do discurso do Presidente: homenagens aos profissionais de saúde e às vítimas mortais de covid. Foto © Presidência da República

 

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