Boko Haram na Nigéria

Amara, a raptada, e o padre psicólogo que ajuda a curar as feridas do terrorismo

| 16 Jun 21

O padre Joseph Fidelis Bature, do Centro de Recursos Humanos para Cura de Trauma, administrado pela Diocese de Maiduguri (Nigéria), para apoiar vítimas do terrorismo do Boko Haram. Foto © ACN Portugal

 

Amara – um nome fictício para uma vida tragicamente bem real – tem hoje 21 anos, mas já passou muito: desmaiou quando lhe colocaram nas mãos a cabeça decapitada do seu pai, foi depois raptada e violada sucessivamente pelos terroristas do Boko Haram. Conseguiu fugir e esteve muito tempo sem conseguir falar, até que a sua mãe procurou a ajuda do padre Joseph Fidelis Bature, que é também psicólogo clínico.

A história, contada pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), começou quando Amara estava na quinta da família, com os pais e irmãs, perto da cidade de Maiduguri (Nordeste da Nigéria, perto da fronteira com o Chade e os Camarões). Um bando de homens armados, vindos de motociclo, cerca a quinta, exigindo de seguida que o pai lhes entregue as suas filhas.

Perante a recusa, os terroristas decapitaram imediatamente o pai de Amara. Logo de seguida, a jovem desmaiou quando lhe colocaram a cabeça do pai nas suas mãos.

Levada para a floresta, “Amara foi repetidamente torturada e abusada de todas as formas imagináveis”, contou o padre Joseph à AIS. Ao fim de algum tempo, conseguiu fugir. Desorientada, precisou de ajuda para voltar a casa da mãe e irmãs. “Amara não conseguia falar nem explicar o que havia acontecido”, recorda Joseph Fidelis, que é também parceiro de projectos da AIS.

Só quando a mãe de Amara decidiu levá-la a conversar com o padre Fidelis, ainda com a filha profundamente traumatizada, é que a rapariga começou progressivamente a conseguir falar do que lhe acontecera. Apesar das memórias terríveis: “Ela via espíritos e pessoas sem cabeça. Estava atormentada por constantes retrospectivas, alucinações e pensamentos perturbadores”, conta o padre.

 

Um centro para ajudar a curar o trauma
Oliver Dashe Doeme, Nigéria, Boko Haram

Oliver Dashe Doeme, bispo católico de Maiguguri: “A Nigéria tornou-se um refúgio seguro para grupos terroristas.” Foto © ACN Portugal

Amara é, agora, uma das muitas vítimas do grupo terrorista Boko Haram que recebem assistência no Centro de Recursos Humanos para Cura de Trauma, administrado pela Diocese de Maiduguri, onde trabalha o padre Fidelis. Depois de um período de terapia inicial, e com apoio de medicação, Amara está agora a preparar-se para ser costureira, mas ainda sonha poder continuar a estudar.

O Centro para a Cura de Trauma é apoiado pela AIS, com o objectivo de ajudar os traumatizados profundos, na sequência dos ataques dos terroristas.

“A crise do Boko Haram causou dificuldades incalculáveis. Pessoas perderam as vidas e meios de subsistência. Muitos ainda vivem em campos”, relata Joseph Fidelis. Sejam cristãos ou muçulmanos, muita gente foi obrigada a fugir e perdeu tudo o que tinha. E o centro pretende apoiá-las a tentar recomeçar e reintegrarem-se de novo na sociedade.

“Trabalhamos com todas as partes envolvidas para criar consciência sobre os perigos da estigmatização e a necessidade de integração social”, explica o padre. Com este apoio, diz a AIS, centenas de pessoas já puderam começar uma vida nova depois de terem passado pelo inferno da violência terrorista.

No último relatório da AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, a Nigéria é apontada como um dos países mais atingidos pelo terrorismo que se reivindica do islão radical – mas que não poupa sequer muçulmanos. As Nações Unidas calculam que cerca de 36 mil pessoas perderam a vida e dois milhões tiveram de fugir das suas aldeias, em resultado da violência provocada pelo Boko Haram, que teve início em 2009. A violência terrorista de grupos como o Boko Haram tem crescido, nos últimos anos, em toda a África. É o caso da região do Sahel, como o relatório da AIS documenta.

O bispo católico de Maiguguri, Oliver Dashe Doeme, considera que a Nigéria se tornou “um refúgio seguro para grupos terroristas, incluindo o Boko Haram, que prometeram fidelidade ao ‘Estado Islâmico’.”

O Chade, o Mali e o Níger, recorda a AIS, são outros países já atingidos pela violência terrorista, que procura criar o que designam como “províncias do califado”, como é já perceptível também em Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

 

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