“Amarrar as coisas”, fazer perguntas – testemunho de um bispo no Sínodo

| 21 Out 19

Como formar uma Igreja com rosto amazónico? Porque não admitir a ordenação de mulheres ao diaconato? E porque não ordenar homens casados residentes no meio das comunidades para presidir à eucaristia dominical? “Caminhos novos para a Igreja na Amazónia” não implica responder pastoralmente às milhares de comunidades espalhadas nesta imensa região? Um texto exclusivo para o 7MARGENS, com perguntas do bispo alemão Francisco Merkel, de Humaitá (Amazónia brasileira), quando se entra na semana em que o sínodo irá “amarrar” as coisas.

Francisco Merkel, bispo de Humaitá, com o Papa Francisco, durante uma pausa nos trabalhos do Sínodo sobre a Amazónia. Foto: Direitos reservados

 

Nos próximos dias vamos “amarrar” as coisas, como se diz no Brasil. Mais algumas reuniões gerais na Aula Paulo VI, reuniões dos grupos de trabalho… e depois vamos concluir o texto que será apresentado ao Papa. Temos presente: o Papa quer ouvir. Ouvir os bispos da Pan-Amazónia, as lideranças indígenas presentes, homens e mulheres, ordenados e não-ordenados. Vários cardeais acompanham atentamente o que vem da base. Eles vêm da Ásia, da África, da Europa. Quando há reuniões gerais, as “congregações”, o Papa costuma participar, ouvindo com atenção. Ele quer caminhar connosco.

Nas reuniões gerais, o tempo está rigorosamente limitado: quatro minutos para cada um. E não há réplica ou correções… Falou – está falado. Nas “reações”, o tempo está mais limitado ainda. E mesmo com toda esta “engenharia” para dar conta do dinamismo do sínodo, as contribuições ficam mais expressivas e espontâneas, sinceras e ricas nos grupos de trabalho. Aqui levantamos questões como a situação dos jovens neste mundo pan-amazónico; as agressões contra as mulheres e contra a natureza; o papel dos religiosos; a religiosidade popular; os ministérios instituídos e ordenados. E porque não admitir a ordenação de mulheres ao diaconato? Ou ordenar homens casados? Afinal das contas: “Caminhos novos para a Igreja na Amazónia” não implica responder pastoralmente às milhares de comunidades espalhadas nesta imensa Amazónia? Elas não contam com a celebração eucarística dominical, porque faltam ministros ordenados! Não seria bom ter ministros ordenados da própria comunidade? Passar de uma “Igreja” de rápidas visitas para uma Igreja presença?

No meio de muitos questionamentos, destacaram-se duas interrogações persistentes: É possível abrir a mulheres idóneas e bem preparadas o acesso ao diaconato ordenado? (É bom acrescentar que alguém presenteou antes do sínodo um estudo bem feito sobre este tema.) E a outra pergunta: porque não ordenar homens casados (inclusive diáconos permanentes) residentes no meio das comunidades para presidir à eucaristia dominical? Todos sentimos que “novos caminhos” para nossas igrejas particulares na Amazónia requer uma reflexão mais profunda e ousada sobre a ministerialidade.

Aliás, é bom acrescentar que muitos bispos da nossa região são estrangeiros e membros de uma ordem ou de uma congregação. Como ser Igreja com rosto amazónico quando os ministros principais vêm de toda a parte do mundo? Basta recordar que na minha modesta diocese no sul do Estado do Amazonas já tivemos padres e religiosas de Viena, Indonésia, Índia, Filipinas, Egito, Congo, Camarões, Espanha, Itália, Alemanha, Polónia, Portugal, México, Estados Unidos. E os brasileiros e as brasileiras? Vieram de Estados do nordeste e do sul do país. Como formar uma Igreja com rosto amazónico?

Foi bom ouvir que o diaconato de homens casados está em ampla expansão. Recordo como um arcebispo, presidente de uma conferência de bispos, observou que as despesas com a formação de diáconos permanentes custa muito menos do que a formação de presbíteros (no esquema atual). E muitos realizam um serviço pastoral de qualidade! Amplio esta reflexão – não tanto pelo lado material, mas pelo lado psicológico, ou seja, de maturidade humana. Padres ordenados com a idade de 25 ou 26 anos costumam estar impreparados psicologicamente para uma missão que exige muito equilíbrio, renúncia, discernimento, espiritualidade assumida e vivida. Numa das celebrações solenes na Basílica de S. Pedro, vi uma multidão de clérigos dos vários continentes vestidos de acordo com a ordem dos clérigos, uns até como bispos (!) com rosto de adolescentes! Alguns, certamente, eram padres-estudantes.

 

Sínodo deve mexer com formação do clero e das lideranças

Entre os mais velhos na caminhada presbiteral percebe-se uma preocupação: Será que este clero novo tem preparação para um mundo laical, até hostil à Igreja e à própria religião? Preparado para atuar numa sociedade marcada pelo hedonismo e consumismo, pela superficialidade e pela indiferença? Preparado para esquecer um pouco o institucional e recordar mais o carisma de discípulo-missionário, de olhos fixos no Mestre da Galileia, de compaixão para com a multidão dos pequenos? De discernimento no campo político? Certamente, o Sínodo deve mexer com a formação do clero e das lideranças em geral. Caminhos novos para a Igreja na Amazónia requerem discípulos-missionários com um espírito novo.

E voltando para um dos desafios principais: ir ao encontro dos povos originários, dos indígenas! Muitas vezes não apenas a sua existência física está ameaçada, mas ainda mais a sua cultura, suas crenças e tradições, ou seja, sua identidade étnica. E nestas alturas o Sínodo nos faz perceber que nós, brasileiros, não podemos restringir a nossa visão à parte brasileira. Bolivianos e peruanos, equatorianos e colombianos, venezuelanos têm outra cultura, outra história, outras crenças. Será possível inserir nas celebrações mais elementos indígenas ou até desenvolver um rito próprio para celebrar a memória do Mistério Pascal? Valorizar os mitos e ritos do universo indígena? Valorizar a sua sabedoria e seus conhecimentos medicinais, educacionais…?

Costumo bater na tecla: É preciso descentralizar! Roma não tem condições para responder aos desafios deste mundo complexo e desafiador da Pan-Amazónia. É urgente delegar competências e poderes a conferências nacionais ou regionais dos bispos. É urgente envolver mais os leigos em instâncias de decisão e de coordenação. É preciso perder medo (não juízo ou prudência!) para abrir novos caminhos que facilitem aos crentes e não-crentes o acesso ao mistério de Cristo que encerra o mistério do próprio homem e do Reino de Deus.

Franz (Francisco) Josef Meinrad Merkel, nascido em 22 de Setembro de 1944 na Alemanha, é bispo de Humaitá (cidade a 700 quilómetros a sudoeste de Manaus) desde Julho de 2000.

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