Amazónia, um pulmão a proteger

| 9 Set 19

Fotografias © Firmino Cachada

 

Nestas últimas semanas, a Amazónia pegou fogo nas redes sociais! “A Amazónia está a arder”! – lia-se por todo o lado, em textos acompanhados de fotos ilustrativas, algumas das quais nem tinham nada a ver com a situação, ou porque eram fotos antigas ou de outras regiões do Brasil ou mesmo de outras regiões do mundo. O próprio Presidente da França, que acabou por incendiar as relações diplomáticas entre os dois países, chamando o Presidente brasileiro de “mentiroso”, usou uma foto de 2003 para ilustrar a gravidade da actual situação! Ou seja, misturada com a informação sobre uma realidade que não deixa de ser triste, houve muita desinformação e mesmo algum histerismo pseudo-ecológico, como se aqui estivesse mesmo tudo pegando fogo e o fim do mundo estivesse à vista.

Entendamo-nos. Não vamos negar a gravidade das queimadas na Amazónia. Mas vamos colocar de parte as demagogias e aproveitamentos políticos, de que o Brasil também está cheio neste momento. Na guerra de palavras se vai passando o tempo e o fogo político em nada ajuda a mudar a política de corrupção generalizada que tem permitido, sobretudo ao agronegócio, ir desmatando sem controlo. Na verdade, o Brasil até tem mecanismos oficiais de controlo mas que, na maior parte das vezes, não funcionam.

Esse problema, aliás, não tem a ver só com o Brasil, mas também com outros países vizinhos, como a Bolívia, o Peru ou a Colômbia, já que a Amazónia também abrange esses países. Curiosamente, não se tem falado sobre a situação nesses países, como também só agora é que o mundo parece preocupar-se com a situação na Amazónia brasileira.

Dito isto, é preciso também entendermo-nos também sobre determinados conceitos estereotipados que dizem respeito à Amazónia e igualmente sobre uma informação que nem sempre corresponde à realidade no terreno.

Para começar, recordaria que a Amazónia, com seus 5,5 milhões de quilómetros quadrados, tem uma superfície maior do que toda a Europa Ocidental e abrange nove países, embora a maior superfície se encontre no Brasil, abrangendo nove Estados brasileiros. Deles, o maior é o Amazonas, bem no coração geográfico de toda a Amazónia. Nada menos do que 1 milhão 571 mil quilómetros quadrados, ou seja, só umas 17 vezes maior do que Portugal! Olhando bem as fotos publicadas pela NASA, vê-se que nem sequer é neste Estado do Amazonas que aconteceram aquelas grandes queimadas que incendiaram a opinião internacional nos últimos dias de Agosto, mas sim nas regiões periféricas da Amazónia, sobretudo a sul e a leste, seja no Brasil ou nos países vizinhos, onde o clima é mais seco e o agronegócio está mais presente. Isso não quer dizer que aqui não há queimadas, mas em menor escala e em pequenos incêndios mais fáceis de controlar, como abaixo explicarei.

Convém, por outro lado, recordar que este problema do desmatamento e respectivas queimadas nesta época do ano, infelizmente, não é só de agora, embora seja verdade que este ano parece ter havido um aumento significativo e preocupante, talvez resultado de certas afirmações irresponsáveis daquele que actualmente preside ao Governo do país. Acha que pode dizer publicamente tudo o que lhe vem à cabeça, sem pensar nas consequências do que lhe sai da boca. Mas, talvez por isso mesmo, há um aproveitamento político que só complica a situação, porque dá a entender que o problema está só no Governo e nos seus responsáveis e não em investimentos privados que vão crescendo sem controlo e usando meios destruidores e poluidores.

É bom saber, também, que os incêndios na Amazónia não acontecem naturalmente, como podem acontecer, por exemplo, no sul da Europa, em tempo de altas temperaturas no Verão, já que, no seu conjunto, a floresta amazónica é muito verde e o solo húmido a maior parte do tempo. Também não há árvores do género pinheiro ou eucalipto, boas para alimentar o fogo. Quanto ao vento, normalmente é forte, mas acompanhado de chuva. Pelo menos nesta região onde vivo e procuro servir a Igreja e o povo, que é o coração geográfico da Amazónia. Tudo isto para dizer que os incêndios estão ligados, quase sempre, como já dei a entender, ao desmatamento ligado à exploração agrícola e também à exploração madeireira e ao garimpo mineral. Os responsáveis são, pois, fáceis de identificar.

A par dessa problemática do desmatamento, há também o problema, não menos grave, da invasão de terras indígenas, sobretudo da parte dos madeireiros e garimpeiros. Mas não me vou estender nisso, neste artigo.

Quanto ao aumento anormal das queimadas durante os passados meses de Julho e Agosto, que deu origem a um conflito internacional do qual o Brasil saiu a perder, eu diria que toda essa guerra, felizmente, é bem longe desta região do Médio Solimões, mais propriamente de Tefé, que é o coração geográfico da Amazónia e isso pelas razões já referidas acima, embora isso não quer dizer que o problema não exista de todo. Apesar de a exploração agrícola aqui se reduzir, sobretudo, às pequenas roças familiares de subsistência e, consequentemente, o fenómeno das queimadas e desmatamento acontecer em bem menor escala, não quer dizer que a situação não possa e não deva preocupar e melhorar.

A esse propósito, devo referir que preservação foi sempre uma preocupação pastoral para a Igreja Católica. Verdade se diga, os Espiritanos, únicos missionários presentes nesta imensa região durante quase 100 anos, tiveram um papel importante, sobretudo a partir da década de 1980, não só na educação do povo para o respeito e protecção do meio ambiente, como para a definição de políticas ambientais de preservação não só da floresta, mas também dos rios e lagos. Podemos até certo ponto afirmar que as chamadas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) que o Governo criou na Amazónia e de que eu sou conselheiro de duas delas, em nome da Prelazia de Tefé, são fruto desse trabalho de consciencialização feito pelos Espiritanos que aqui me precederam, com destaque, é justo referir, para os missionários holandeses e, entre eles, para o irmão Falco, mas também alguns portugueses e franceses que aqui trabalharam.

Não só na Amazónia e nem só os Espiritanos se têm preocupado com este tema da proteção do meio ambiente. As Campanhas da Fraternidade de 2016 e 2017, por exemplo, tiveram como tema, respectivamente, “Casa Comum – nossa responsabilidade” e “Biomas brasileiros e defesa da vida”. O próprio Papa Francisco, em mensagem para a Campanha da Fraternidade 2017, reconheceu o esforço da Igreja Católica no Brasil nesse sentido, afirmando: “Entre vocês, a Igreja tem sido uma voz profética no respeito e no cuidado com o meio ambiente e com os pobres. Não apenas tem chamado a atenção para os desafios ecológicos, como tem apontado suas causas e, principalmente, tem apontados caminhos para a sua superação.”

É verdade também, diga-se de passagem, sem querer diminuir a importância do ecumenismo e talvez por isso mesmo, que essa preocupação não transparece muito nos discursos ou práticas pastorais da maioria das incontáveis igrejas evangélicas que enxameiam pelo Brasil fora e estão também conquistando terreno na Amazónia. O próprio Governo, a começar pelo Presidente, não tem procurado esconder a influência que algumas dessas igrejas têm exercido na definição das políticas públicas.

Mais haveria a dizer, mas vale a pena pelo menos lembrar que a Amazónia não é o único “pulmão do mundo”, nem mesmo o maior. Cada árvore por esse mundo fora é um pulmão, mas, segundo a Greenpeace, ainda são os oceanos os maiores produtores do oxigénio do planeta, eles mesmos também vítimas da acção humana destruidora e poluidora.

Para terminar, recordaria aquilo que o Papa Francisco sublinha na sua encíclica Laudato Si e que se aplica não só a quem vive na Amazónia, mas a todo o ser humano que habita e é responsável pelo futuro deste planeta: “Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades.”

Esperemos também para ver o que é que o Sínodo sobre a Amazónia, que terá lugar em Roma no mês de Outubro, vai dizer, não só sobre esta matéria da preservação do meio ambiente, como sobre o lugar que a evangelização do povo que habita este planeta de terra e água deve ocupar nas preocupações da Igreja universal.

 

Tefé, Amazónia, 28 de Agosto 2019

Firmino Cachada é padre católico, dos Missionários Espiritanos e trabalha em Tefé, Amazónia, desde Janeiro de 2013. Pároco da Missão, uma paróquia com cerca de 60 comunidades ribeirinhas espalhadas ao longo de vários rios e lagos, numa extensão de cerca de 300 km, às quais só se acede por barco (na foto abaixo, o autor do texto a chegar de barco a uma das comunidades). 

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