Fotografias © Firmino Cachada

 

Nestas últimas semanas, a Amazónia pegou fogo nas redes sociais! “A Amazónia está a arder”! – lia-se por todo o lado, em textos acompanhados de fotos ilustrativas, algumas das quais nem tinham nada a ver com a situação, ou porque eram fotos antigas ou de outras regiões do Brasil ou mesmo de outras regiões do mundo. O próprio Presidente da França, que acabou por incendiar as relações diplomáticas entre os dois países, chamando o Presidente brasileiro de “mentiroso”, usou uma foto de 2003 para ilustrar a gravidade da actual situação! Ou seja, misturada com a informação sobre uma realidade que não deixa de ser triste, houve muita desinformação e mesmo algum histerismo pseudo-ecológico, como se aqui estivesse mesmo tudo pegando fogo e o fim do mundo estivesse à vista.

Entendamo-nos. Não vamos negar a gravidade das queimadas na Amazónia. Mas vamos colocar de parte as demagogias e aproveitamentos políticos, de que o Brasil também está cheio neste momento. Na guerra de palavras se vai passando o tempo e o fogo político em nada ajuda a mudar a política de corrupção generalizada que tem permitido, sobretudo ao agronegócio, ir desmatando sem controlo. Na verdade, o Brasil até tem mecanismos oficiais de controlo mas que, na maior parte das vezes, não funcionam.

Esse problema, aliás, não tem a ver só com o Brasil, mas também com outros países vizinhos, como a Bolívia, o Peru ou a Colômbia, já que a Amazónia também abrange esses países. Curiosamente, não se tem falado sobre a situação nesses países, como também só agora é que o mundo parece preocupar-se com a situação na Amazónia brasileira.

Dito isto, é preciso também entendermo-nos também sobre determinados conceitos estereotipados que dizem respeito à Amazónia e igualmente sobre uma informação que nem sempre corresponde à realidade no terreno.

Para começar, recordaria que a Amazónia, com seus 5,5 milhões de quilómetros quadrados, tem uma superfície maior do que toda a Europa Ocidental e abrange nove países, embora a maior superfície se encontre no Brasil, abrangendo nove Estados brasileiros. Deles, o maior é o Amazonas, bem no coração geográfico de toda a Amazónia. Nada menos do que 1 milhão 571 mil quilómetros quadrados, ou seja, só umas 17 vezes maior do que Portugal! Olhando bem as fotos publicadas pela NASA, vê-se que nem sequer é neste Estado do Amazonas que aconteceram aquelas grandes queimadas que incendiaram a opinião internacional nos últimos dias de Agosto, mas sim nas regiões periféricas da Amazónia, sobretudo a sul e a leste, seja no Brasil ou nos países vizinhos, onde o clima é mais seco e o agronegócio está mais presente. Isso não quer dizer que aqui não há queimadas, mas em menor escala e em pequenos incêndios mais fáceis de controlar, como abaixo explicarei.

Convém, por outro lado, recordar que este problema do desmatamento e respectivas queimadas nesta época do ano, infelizmente, não é só de agora, embora seja verdade que este ano parece ter havido um aumento significativo e preocupante, talvez resultado de certas afirmações irresponsáveis daquele que actualmente preside ao Governo do país. Acha que pode dizer publicamente tudo o que lhe vem à cabeça, sem pensar nas consequências do que lhe sai da boca. Mas, talvez por isso mesmo, há um aproveitamento político que só complica a situação, porque dá a entender que o problema está só no Governo e nos seus responsáveis e não em investimentos privados que vão crescendo sem controlo e usando meios destruidores e poluidores.

É bom saber, também, que os incêndios na Amazónia não acontecem naturalmente, como podem acontecer, por exemplo, no sul da Europa, em tempo de altas temperaturas no Verão, já que, no seu conjunto, a floresta amazónica é muito verde e o solo húmido a maior parte do tempo. Também não há árvores do género pinheiro ou eucalipto, boas para alimentar o fogo. Quanto ao vento, normalmente é forte, mas acompanhado de chuva. Pelo menos nesta região onde vivo e procuro servir a Igreja e o povo, que é o coração geográfico da Amazónia. Tudo isto para dizer que os incêndios estão ligados, quase sempre, como já dei a entender, ao desmatamento ligado à exploração agrícola e também à exploração madeireira e ao garimpo mineral. Os responsáveis são, pois, fáceis de identificar.

A par dessa problemática do desmatamento, há também o problema, não menos grave, da invasão de terras indígenas, sobretudo da parte dos madeireiros e garimpeiros. Mas não me vou estender nisso, neste artigo.

Quanto ao aumento anormal das queimadas durante os passados meses de Julho e Agosto, que deu origem a um conflito internacional do qual o Brasil saiu a perder, eu diria que toda essa guerra, felizmente, é bem longe desta região do Médio Solimões, mais propriamente de Tefé, que é o coração geográfico da Amazónia e isso pelas razões já referidas acima, embora isso não quer dizer que o problema não exista de todo. Apesar de a exploração agrícola aqui se reduzir, sobretudo, às pequenas roças familiares de subsistência e, consequentemente, o fenómeno das queimadas e desmatamento acontecer em bem menor escala, não quer dizer que a situação não possa e não deva preocupar e melhorar.

A esse propósito, devo referir que preservação foi sempre uma preocupação pastoral para a Igreja Católica. Verdade se diga, os Espiritanos, únicos missionários presentes nesta imensa região durante quase 100 anos, tiveram um papel importante, sobretudo a partir da década de 1980, não só na educação do povo para o respeito e protecção do meio ambiente, como para a definição de políticas ambientais de preservação não só da floresta, mas também dos rios e lagos. Podemos até certo ponto afirmar que as chamadas Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) que o Governo criou na Amazónia e de que eu sou conselheiro de duas delas, em nome da Prelazia de Tefé, são fruto desse trabalho de consciencialização feito pelos Espiritanos que aqui me precederam, com destaque, é justo referir, para os missionários holandeses e, entre eles, para o irmão Falco, mas também alguns portugueses e franceses que aqui trabalharam.

Não só na Amazónia e nem só os Espiritanos se têm preocupado com este tema da proteção do meio ambiente. As Campanhas da Fraternidade de 2016 e 2017, por exemplo, tiveram como tema, respectivamente, “Casa Comum – nossa responsabilidade” e “Biomas brasileiros e defesa da vida”. O próprio Papa Francisco, em mensagem para a Campanha da Fraternidade 2017, reconheceu o esforço da Igreja Católica no Brasil nesse sentido, afirmando: “Entre vocês, a Igreja tem sido uma voz profética no respeito e no cuidado com o meio ambiente e com os pobres. Não apenas tem chamado a atenção para os desafios ecológicos, como tem apontado suas causas e, principalmente, tem apontados caminhos para a sua superação.”

É verdade também, diga-se de passagem, sem querer diminuir a importância do ecumenismo e talvez por isso mesmo, que essa preocupação não transparece muito nos discursos ou práticas pastorais da maioria das incontáveis igrejas evangélicas que enxameiam pelo Brasil fora e estão também conquistando terreno na Amazónia. O próprio Governo, a começar pelo Presidente, não tem procurado esconder a influência que algumas dessas igrejas têm exercido na definição das políticas públicas.

Mais haveria a dizer, mas vale a pena pelo menos lembrar que a Amazónia não é o único “pulmão do mundo”, nem mesmo o maior. Cada árvore por esse mundo fora é um pulmão, mas, segundo a Greenpeace, ainda são os oceanos os maiores produtores do oxigénio do planeta, eles mesmos também vítimas da acção humana destruidora e poluidora.

Para terminar, recordaria aquilo que o Papa Francisco sublinha na sua encíclica Laudato Si e que se aplica não só a quem vive na Amazónia, mas a todo o ser humano que habita e é responsável pelo futuro deste planeta: “Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades.”

Esperemos também para ver o que é que o Sínodo sobre a Amazónia, que terá lugar em Roma no mês de Outubro, vai dizer, não só sobre esta matéria da preservação do meio ambiente, como sobre o lugar que a evangelização do povo que habita este planeta de terra e água deve ocupar nas preocupações da Igreja universal.

 

Tefé, Amazónia, 28 de Agosto 2019

Firmino Cachada é padre católico, dos Missionários Espiritanos e trabalha em Tefé, Amazónia, desde Janeiro de 2013. Pároco da Missão, uma paróquia com cerca de 60 comunidades ribeirinhas espalhadas ao longo de vários rios e lagos, numa extensão de cerca de 300 km, às quais só se acede por barco (na foto abaixo, o autor do texto a chegar de barco a uma das comunidades). 

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Carlos Farinha Rodrigues destaca importância da “economia de Francisco” novidade

A mensagem do Papa sobre a economia assenta no “combate às desigualdades e exclusão social”, na “dignidade do trabalho” e nas “preocupações com a casa comum”, diz o economista Carlos Farinha Rodrigues, em declarações à Ecclesia, a propósito de um debate sobre o encontro “A Economia de Francisco”, que decorrerá no próximo ano.

Duches para crianças pobres de Roma com apoio do Papa novidade

A Esmolaria Apostólica, que coordena as iniciativas caritativas do Papa, irá apoiar um projeto de banhos solidários para crianças pobres de Roma, já a partir desta quinta-feira, 19 de setembro. A iniciativa surge da associação italiana de médicos voluntários, a ‘Medicina Solidária’. “Estamos em guerra contra a pobreza”, afirma Lucia Ercoli, médica e presidente da associação, que gere seis consultórios itinerantes, também com o apoio da Esmolaria Apostólica.

John Kerry quer políticos a acelerar combate à emergência climática

O ex-secretário de Estado dos EUA, John Kerry, quer uma mobilização global dos governantes para acelerar o combate às alterações climáticas. Durante o encontro “O Futuro do Planeta”, organizado em Lisboa pelas Fundações Oceano Azul e Francisco Manuel dos Santos, o antigo candidato à presidência dos Estados Unidos afirmou que os governos mundiais têm atuado de forma irresponsável no cumprimento do Acordo de Paris, de 2015.

Bispos sul-africanos querem proteger mulheres contra homicídios

Os bispos católicos da África do Sul aconselham o Governo a agir contra a violência dirigida a mulheres e meninas, após uma série de mortes e violações que causaram revolta no país, que tem um dos maiores índices de homicídios do mundo: 3000 mulheres mortas em 2018 e 58 assassinadas diariamente.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

O Brexit dos pobres novidade

Um Brexit puro e duro deixará um rasto de destruição nas vidas e famílias por todo o Reino Unido. Foi isso que a Igreja de Inglaterra disse, procurando ser fiel à sua responsabilidade profética.

Não aos casamentos prematuros: não andemos à deriva

As “tradições” acima narradas já tiveram o seu tempo. Devem ser abolidas, sendo importante que se encontrem rituais de passagem alternativos, que marquem a transição de rapariga para mulher, sem colocarem em causa a sua dignidade, nem o fundamento de se destacar que existe uma distinção clara entre o estado de uma menina e o de uma mulher.

“Todo o mundo é composto de mudança”

Li há dias uma notícia com o título: “Troca de padres não agrada a paroquianos”. Casos como este são excelente ocasião para esclarecer valores ou razões escondidas, concorrendo para o crescimento espiritual de todos (não só dos paroquianos).

Cultura e artes

O coração inebriado de Agostinho, na leitura das “Confissões”

No início, logo depois da primeira peça musical de Rão Kyao, um dos actores declamará: “Quem me fará repousar em ti? Quem fará com que venhas ao meu coração e o inebries para eu esquecer os meus males e te abraçar a ti, meu único bem?” No dia que a liturgia católica dedica a Agostinho de Hipona, 28 de Agosto, no antigo convento de Santo Agostinho, hoje transformado em Museu de Leiria, o Teatro Maizum produz, a partir das 22h, uma leitura encenada das “Confissões”.

Três rostos para a liberdade

De facto, para quem o sabe fazer, o cinema é mesmo uma arte muito simples: basta uma câmara, um ponto de partida e pessoas que se vão cruzando e dialogando. E temos um filme, quase sempre um magnífico filme. Vem isto a propósito do último trabalho do iraniano Jafar Panahi: Três Rostos.

A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

O influente magistério de Dietrich Bonhoeffer, a sua vigorosa resistência ao nazismo e o singular namoro com Maria von Wedemeyer são três momentos da vida do pastor luterano que merecem uma peculiar atenção na biografia Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo, da autoria do historiador italiano Giorgio Cavalleri. A obra, publicada pelas Paulinas em Maio, permite agora que um público mais vasto possa conhecer aquele que é geralmente considerado como um dos mais influentes teólogos do século XX.

Festa de Maria Madalena: um filme para dar lugar às mulheres

A intenção do autor é dar lugar às mulheres. Não restam dúvidas, fazendo uma leitura atenta dos quatro Evangelhos que Jesus lhes dá o primeiro lugar. A elas, anuncia-lhes quem é Ele, verdadeiramente. Companheiras de Cristo, continuarão a sua missão, juntamente com os homens. Anunciando, tal como eles, a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo; curando, baptizando em nome do Senhor. Tornando-se diáconos. Sabe-se, está escrito. Mas, nos Actos dos Apóstolos, elas desaparecem sem deixar rasto.

Sete Partidas

A Páscoa em Moçambique, um ano antes do ciclone – e como renasce a esperança

Um padre que passou de refugiado a conselheiro geral pode ser a imagem da paixão e morte que atravessou a Beira e que mostra caminhos de Páscoa a abrir-se. Na região de Moçambique destruída há um mês pelo ciclone Idai, a onda de solidariedade está a ultrapassar todas as expectativas e a esperança está a ganhar, outra vez, os corações das populações arrasadas por esta catástrofe.

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Set
20
Sex
“Um milagre todos os dias” – projecção de filme e debate @ Universidade Católica Portuguesa (Lisboa)
Set 20@11:15_13:00

O filme, estreado em 2018, foi realizado por Henrique Manuel Pereira e produzido pela Escola das Artes da Universidade Católica. Destaca a vida do Lar das Irmãzinhas dos Pobres, do Pinheiro Manso, inclui mais de três dezenas de depoimentos de residentes, funcionários, religiosas, voluntários e benfeitores.

“Com manifestações de humor e de solidão, de força e de fragilidade, de abnegada dedicação e criativo serviço, tendo por horizonte a ‘última estação da vida’, o filme configura um retrato realista do pulsar da vida daquela que é uma das instituições mais apreciadas e estimadas da cidade do Porto”, lê-se na sinopse.

A projecção será seguida por um debate com a participação do realizador, José Leitão (Centro de Reflexão Cristã), e João Eleutério, professor da Faculdade de Teologia.

Set
21
Sáb
Visitas guiadas ao Convento e Igreja de São Domingos, em Lisboa @ Convento de São Domingos
Set 21@10:00_12:00

As visitas serão acompanhadas pelo arquitecto João Alves da Cunha; haverá duas visitas: às 10h e 11h.

Encontro Também Somos Terra @ Casa de Espiritualidade do Linhó (Irmãs Doroteias)
Set 21@11:00_18:00

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco