Ambientalistas e paradigmas – Tempos curiosos

| 30 Set 19

Vivemos tempos curiosos… Mas que nem por isso deixam de ser novidade.

Haverá preocupação mais humana senão aquela que teme pelo fim dos dias, não só do próprio, mas pela aniquilação da sua comunidade ou da espécie, consoante os contextos e o tempo histórico?

Talvez seja esse um gesto, um instinto humano intrínseco a todos nós, que tenta buscar importância à nossa existência, um sentido a essa eterna dúvida do: “Por que estou vivo? Por que estou aqui?” Ninguém pode verdadeiramente amar a vida se não guardar uma paixão inconfessável pelo que espera depois da morte.

A nossa frágil e problemática existência leva-nos a procurar respostas sobre o fim. Como dizia Ortega y Gasset: “O homem precisa de Saber porque percebe desesperadamente que Ignora.” E ignorar o próprio fim leva-nos numa busca ansiosa ao encontro de respostas tranquilizadoras ou que revelem o caminho de evitar ou adiar esse fim da melhor forma possível.

A História é o domínio que tem como função selecionar as personagens e os lugares protagonistas da narrativa humana. Mas é falacioso o pensamento de achar que aqueles que não ficaram para a posterioridade também não puderam sentir-se protagonistas durante o tempo das suas vidas: a fantasia do herói, os princípios da corporação, os ideais defendidos pela revolução, a geração derradeira daqueles que assumem a missão de salvar o mundo de um assombroso desfecho.

A mediatização atual das nossas comunicações diz-nos, num ultimato final, que é este o momento, agora mais do que nunca: se não declararmos guerra às alterações climáticas a nossa sobrevivência será consumida pelo dilúvio final.

Não é uma história do último ano, nem da última década, mas o discurso entra-nos hoje pelas casas adentro num tom, diria mesmo, profético.

Nutro uma admiração por essa adolescente corajosa e consciente chamada Greta. Porém, em nada me extasia quem lhe atribui uma voz messiânica dos nossos tempos.

Greta Thunberg no seu discurso perante a Cimeira do Clima na ONU, numa foto captada da imagem vídeo.

 

Estou de acordo de que deveríamos dar mais importância ao logos, ao conteúdo e à mensagem, do que ao ethos, o caráter e a personagem, que nos transmite esta ativista sueca desde há vários meses para cá. Mas é precisamente partindo do que representa hoje Greta Thunberg que poderemos melhor compreender o paradoxo e a perversão do debate fulgurante a que temos vindo a assistir sobre o clima. Não há dúvida de que ela é a personagem ideal para representar esta mensagem nos dias de hoje: mulher, nórdica, bonita, jovem e dominando a língua inglesa, essa rapariga tem tudo para personificar o ideal de igualitário, visionário, de bem e esperança e do que deve ser universal segundo o padrão valorizado no Ocidente – ou, para não usar esse termo um tanto decrépito, o padrão valorizado nas sociedades de matriz ou de influência cultural europeia.

Também eu temo pelas consequências associadas às alterações do clima mundial, também eu sou um simpatizante de muitas organizações ecologistas e da mensagem da Greta. Mas isso não significa que me considere um ambientalista.

É interessante verificar que grande parte daqueles que se intitulam de ambientalistas provêm de países de altos rendimentos ou de estratos sociais elevados tendo em conta a média global. Sempre foi fácil ser democrata quando se vive no país colonizador; sempre foi fácil defender a tolerância quando não se passou pela tortura; ou ser ateu quando não se sofre de uma doença terminal.

 

É fácil dizer que não vou comer carne quando sempre estive habituado a comê-la. Mas quantos milhões entre nós começam a ter pela primeira vez essa oportunidade para além dos dias de festa? Quantos milhares de pessoas deixam o campo todos os dias mudando-se para as cidades, sonhando por uma vida melhor mas provocando, naturalmente, uma diminuição da produção agrícola local, o maior uso de plásticos e objetos descartáveis e maior poluição de tráfego urbano?

A questão agora não se trata de discutir se esses hábitos poderão ou não ser prevenidos e adaptados em função dos erros do passado. O que eu gostaria sobretudo de destacar é que o problema de grande parte dos ambientalistas de hoje não são mais do que a expressão profética e imperialista das sociedades e da elite mundial das quais provêm, pretendendo afirmar a direção do “Único Caminho Possível” e, parafraseando Schopenhauer, “tomando os limites do seu campo de visão [através da sua egocêntrica forma de viver, acrescentaria eu], pelos limites do mundo”.

Não acredito que a solução para inverter as alterações climáticas seja a mudança dos pequenos hábitos quotidianos. Quem o defende não vive neste mundo, não conhece lugares como os bairros pobres de Bombaim, o tráfego da Cidade do México ou a cidade de Lagos vista desde a lagoa. Não acredito igualmente, como Greta e a nova onda, que se trate de fazer pressão junto dos governos e das instituições internacionais, quando eles são apenas os representantes dos grupos e classes que detêm o verdadeiro poder e que são os principais interessados em que o nosso modo de vida não se altere.

Sempre queremos buscar uma solução, conhecer a resposta à nossa ignorância. Sempre esperamos num discurso crítico o momento das propostas. Mas, lamento dizer, a solução neste caso é que não há solução. Ou pelo menos não há através destes movimentos ambientalistas conscientes do clima mas sem nenhuma consciência do mundo humano.

A incongruência do nosso debate climático atual é que se insiste defender a preservação do ambiente com base em ideologias como as do “partido do cão e do gato” que são a representação de tudo menos a da simbiose entre o Homem e o mundo Natural do qual todos provimos. O clima não precisa de ambientalistas, mas antes de naturalistas, de primitivistas.

A forma de salvar o clima não se fará através dos desenvolvimentos tecnológicos que permitirão atenuar, para não dizer anular, o inevitável crescendo de consumo de recursos a que assistimos. Olhemos a História: foi o desenvolvimento tecnológico que diminuiu a pegada ecológica (através dos seus instrumentos cada vez mais refinados e mais “ambientalistas”)? Ou é precisamente a divinização da tecnologia, em que vivemos desde esse período a que chamaram de Iluminismo, que nos tem levado no caminho desta crise ambiental?

Crianças da Amazónia: “Devemos aprender mais com a relação entre tantas culturas ameríndias e a Mãe Naturea.” Foto © Tomás Sopas Bandeira e Maria Mouzinho

 

Não há Homem sem tecnologia, mas talvez para esta luta climática devêssemos ler melhor as declarações zapatistas da Selva Lacandona ou aprender mais com a relação entre tantas culturas ameríndias e a Mãe Natureza, ao invés de anuirmos ao discurso político atual em que de repente todos estão preocupados com o clima sem verdadeiramente estarem dispostos a mudar o sistema em que vivemos.

É bom temermos a morte porque ela valoriza as nossas vidas. É bom sentirmo-nos protagonistas da História porque isso dá sentido à nossa existência. Mas o que mais nos caracteriza é uma enorme falta de humildade e falta de capacidade de aprendermos com o passado.

Estou convicto de que também nós não seremos a derradeira geração. O mundo continuará seguindo o seu caminho, liderado infelizmente por este Homem pérfido e canibal, durante um tempo mais longo ou menos longo. Porém, enquanto mantivermos a ambição de procurar sempre dominar tudo aquilo que nos rodeia, não estaremos senão a traçar um caminho de inevitável auto-destruição.

Não sou adepto do discurso cético e pessimista, mas acho mais perigoso o partido dos deslumbrados. Também eu guardo um fundo de esperança. Perdendo-a, perdemos a vontade do amanhã. Como nos contava o falecido Eduardo Galeano há uns anos, na Praça da Catalunha, na altura dos Acampados: “Este é um mundo infame, não muito alentador, mas há um outro mundo na barriga deste, esperando. Um mundo diferente e de parto complicado. Um outro mundo que pode existir pulsando neste mundo que existe.”

Prevêem-se tempos difíceis, de muita destruição, que atingirão infelizmente uma grande maioria daqueles que menos responsabilidade tiveram na origem de tudo isto. Circunstâncias que talvez mudem um pouco somente quando todos aqueles que estão em baixo sofrerem as consequências na própria pele, o sentirem de verdade de forma crua e real, e se encontrarem numa situação em que nada mais têm a perder. Até lá, não acredito em mudanças de paradigma, em reais revoluções feitas apenas por ambientalistas racionalmente convictos mas que nada sofrem no seu dia-a-dia dos problemas que denunciam.

Vivemos tempos curiosos… Mas tempos que nem por isso deixam de ser novidade.

 

Tomás Sopas Bandeira é médico, vive e trabalha em Lausana (Suíça) e é autor de Zahra. 

Continuar a ler...

Artigos relacionados

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Campanha 15.000 euros para o 7M: no final de junho passámos os €12.000 !

Os donativos entregues por 136 leitores e amigos somaram, até terça, 30 de junho, €12.020,00. Estes números mostram uma grande adesão ao apelo que lançámos a 7 de junho, com o objetivo de reunirmos €15.000 para expandir o 7MARGENS ao longo do segundo semestre de 2020. A campanha decorre até ao final de julho e já só faltam menos de €3.000! Contamos consigo para a divulgar.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

CE volta a ter enviado especial para promover liberdade religiosa no mundo novidade

O cargo de enviado especial para a defesa da liberdade religiosa tinha sido extinto no ano passado pela presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula von der Leyen, mas as pressões de inúmeros líderes religiosos e políticos para reverter essa decisão parecem ter surtido efeito. O vice-presidente da CE, Margaritis Schinas, anunciou que a função irá ser recuperada.

Papa assinala sete anos da viagem a Lampedusa com missa especial online

O Papa Francisco celebra esta quarta-feira, 8 de julho, o sétimo aniversário daquela que foi a primeira (e talvez mais icónica) viagem do seu pontificado: a visita à ilha de Lampedusa. A data é assinalada com uma eucaristia presidida por Francisco na Casa Santa Marta, a qual terá início às 10 horas de Lisboa, e será transmitida online através dos meios de comunicação do Vaticano.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

Hospital pediátrico do Vaticano separa com êxito gémeas siamesas unidas pelo crâneo

O hospital pediátrico Bambino Gesú, em Roma, gerido pelo Vaticano, separou com êxito duas irmãs siamesas de 2 anos, que nasceram unidas pelo crâneo na República Centro Africana. A complexa operação, que durou 18 horas e contou com uma equipa de 30 profissionais de saúde, teve lugar no passado dia 5 de junho, mas o hospital só revelou todos os detalhes esta quarta-feira, 8 de julho, numa conferência de imprensa.

É notícia

Entre margens

Do confinamento às Minas novidade

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

Cultura e artes

Aquilino e Bartolomeu dos Mártires: o “pai dos pobres e mártir sem desejos”

Aquilino Ribeiro, escritor de prosa escorreita, pujante, honrou a dignidade da língua portuguesa à altura de outros antigos prosadores de grande qualidade. Irmanado com a Natureza beirã: aves, árvores, animais e homens. Espirituoso e de fina ironia, é bem o Mestre da nossa Língua. Em “Dom Frei Bertolameu” faz uma espécie de hagiografia do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires (1514-1590), canonizado pelo Papa Francisco a 6 de Julho de 2019.

Ennio Morricone: O compositor que nos ensinou a “sonhar, emocionar e reflectir”

Na sequência de uma queda em casa, que lhe provocou a ruptura do fémur, o maestro e compositor italiano Ennio Morricone morreu esta segunda-feira em Roma, na unidade de saúde onde estava hospitalizado. Tinha 91 anos. O primeiro-ministro, Giuseppe Conte, evocou com “infinito reconhecimento” o “génio artístico” do compositor, que fez o público “sonhar, emocionar, refletir, escrevendo acordes memoráveis que permanecerão indeléveis na história da música e do cinema”.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco