América Latina: Fome de democracia

| 1 Nov 19

Os povos não andam só revoltados por terem pouco, ou nada, do que precisam; andam também zangados por não serem ouvidos ou considerados, por sofrerem de uma “anemia de afectos”, por não terem realmente democracia.

Um grupo de religiosos e religiosas em Santiago do Chile carregados pela polícia, numa manifestação em Santiago do Chile na terça, 29 de Outubro (ver notícia em https://kairosnews.cl/en-manifestacion-social-grupo-pazdejusticia-sufrio-la-represion-mientras-rezaba-el-padre-nuestro/). Foto © Kairosnews

 

De repente uma mão cheia de países da América Latina entrou em convulsão. Multidões saíram para a rua nuns casos contra o aumento dos preços dos transportes, ou da gasolina, noutros por se sentirem enganadas. Passaram semanas e os motins ainda duram apontando para mais fundo do que um brado contra as élites ou a pobreza.

A primeira crise foi no Peru e acabou como começou, pacífica, por ter sido convocada para apoiar um Presidente e não para o destituir, coisa rara na região nos tempos que correm. Andou assim pouco nas notícias. Foi quando no princípio de Outubro as pessoas foram dar vivas a Martín Vizcarra por ter, numa decisão em tudo conforme a lei, fechado o Congresso, dominado pelos fujimoristas, que se queixaram ao Tribunal Constitucional. Ver-se-á se ele dará ou não razão ao mandatário, que goza de uma enorme popularidade e é apoiado pelas forças armadas. Voltarão às ruas? É muito provável que não.

Já a norte e a sul foi a revolta, que tornou o mês que no que um articulista da IPS chamou – provavelmente com algum exagero – de “Outubro Revolucionário”. No Equador, um pacote de medidas de austeridade ordenadas pelo Presidente Lenín Moreno revoltou a Conaie, a confederação indígena que já depôs três chefes de Estado, mergulhando Quito no caos, com vítimas mortais e o exército na rua, e o país na incerteza. Na Bolívia, os motins tiveram outro motivo: a estranha, e até agora mal explicada, interrupção do escrutínio das eleições gerais do dia 20, que evitou que Evo Morales tivesse de ir a uma segunda volta. OEA, americanos e europeus não gostaram do que viram mas ainda assim Morales, no poder desde 2006, entrou num quarto mandato.

 

O FMI outra vez

Manifestação na Plaza Italia (Santiago do Chile), contra os aumentos de preços e a pedir mais democracia. Foto © Kairosnews

 

Mas o mais grave dos levantamentos foi no Chile, onde o aumento do preço do bilhete do metro foi a gota de água que transbordou um poço de ressentimentos acumulados por um povo que ainda há pouco se dizia “feliz”. Que “paradoxo”, disse um comentador. Foram ruas bloqueadas por carros e pneus a arder, montras partidas, lojas pilhadas e incendiadas, recontros com a polícia, no limite ajudada pelo exército, e, por fim, o estado de emergência e o recolher obrigatório nas cidades amotinadas, Santiago, Valparaíso, Concepción. E um balanço que há muito não se via ali, nem durante a ditadura nem durante os solavancos da transição: duas dezenas de mortos, três centenas de feridos, mais de duas mil detenções.

O Haiti – onde se rezou gritanto “Madre Maria, sálvanos, no ves que nuestras vidas están en peligro?” – foi outro caso, o único fora dos Andes; o México pelas suas especificidades não entra na cascata dos motins de Outubro. Fica para mais adiante.

No fim os motins conseguiram o que queriam: Moreno cedeu aos indígenas no Equador, Sebastián Piñera deu aos revoltados muito mais do que eles pediam, Morales manteve o cargo mas ensombrado pela dúvida. Mas mesmo assim as revoltas continuaram por os problemas de fundo serem afinal as élites, as desigualdades e a pobreza. E a desilusão com a democracia.

O pacote de Lenín Moreno, imposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), previa entre outras coisas um valente corte nos salários dos contratos a prazo, a liberalização do preço da gasolina ou o fim dos preços subsidiados dos combustíveis, medidas que explodiriam na cara de uma população que conta com 37 por cento de pobres, incluindo 73 por cento de indígenas. No Chile, o aumento ainda que de uns cêntimos do bilhete do metro lembrou logo o desemprego, os salários baixos e as reformas miseráveis, o alto preço dos alimentos e dos medicamentos, estes por conluio entre as farmácias, o império mercantil da saúde ou privatizações absurdas como a da água. Ou de 30 por cento da riqueza do país estar nas mãos de um por cento dos chilenos. Que diferença faz hoje o país em relação ao tempo do ditador Pinochet e das onze famílias que dominavam a sua economia?

“Se a revolta no Equador se explica pelo paquetazo do FMI, no Chile explica-se pelas receitas do chamado Consenso de Washington que se foram inoculando por doses até chegarem à saturação”, disse o analista e ex-director da Escola de Jornalismo da Universidade do Chile, Gustavo González, citado pela IPS.

[O Consenso de Washington, promovido pelo FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e concluído em 1989, foi o nome dado a um conjunto de dez políticas liberais aconselhadas (que eufemismo!) a vários países como forma de acelerar o seu desenvolvimento no quadro da globalização dos mercados. Nos lugares onde foram ensaiadas, mais de uma dúzia na América Latina e Caraíbas, nenhum pobre o recomenda.]

“Com Sebastián Piñera o país foi definitivamente entregue à voracidade dos empresários e das transnacionais, algo que começou a esboçar-se durante a ditadura e foi logo intensificado por todos os governos pós-ditadura. Semearam pobreza, precaridade, abandono, desesperança, convencidos de que a força do poder havia anestesiado para sempre os habitantes da nação austral. Até que a ira saiu às ruas para dizer: Basta!” – escreveu, no Le Monde, Luís Sepúlveda, o escritor chileno que nunca emudeceu na denúncia dos efeitos colaterais do “milagre económico” do seu país, na verdade um cortejo de pecados segundo a própria Igreja Católica.

Num dos textos mais críticos do ponto a que chegaram as políticas públicas chilenas, o arcebispo de Concepción, Fernando Chomali, acusou o que chamou a “anemia dos afectos” manifestada num “individualismo e egoísmo irritantes”. Resultado: uma juventude anómica, qualquer coisa como 650 mil jovens entre os 18 e os 29 anos que não estudam nem trabalham, altas taxas de doenças mentais e de suicídios, milhares de velhos sós ou abandonados, violência de género, três em cada quatro crianças vítimas de algum tipo de violência em casa ou na escola – uma sociedade maltratada e doente.

 

Povos desiludidos

Manifestação no Haiti. Foto © Voice of America/Wikimedia Commons

 

A par, ou para lá, das desigualdades e da pobreza resultantes das políticas está no entanto um problema mais profundo: a desilusão com a democracia, que apesar de conhecida e anunciada não levou a nada. E sobre isto pouco se tem dito. É este o problema transversal aos países da América Latina e Caraíbas.

Há anos que os latino-americanos andam desiludidos com a democracia, de acordo com o Latinobarómetro, a organização chilena de Marta Lagos que todos os anos, desde há 24, toma o pulso à cidadania. Os números caem desde 2010, quando os optimistas foram 61 por cento. Em 2016 eles ainda eram 54 por cento, mas no ano seguinte caíram para 53 e há um ano deram um trambolhão.

O relatório de 2018, assente em 20 mil entrevistas realizadas em 18 países, mostra que a percepção de retrocesso na região baixou para índices alarmantes. Apenas 20 por cento dos latino-americanos acredita que os seus países estão a progredir. E só cinco por cento consideram que em plena democracia.

“Esta crise resolve-se com política, não com uma lista de supermercado de políticas sociais”, disse Marta Lagos, referindo-se aos recuos e aumentos anunciados por Sebastián Piñera para tentar acalmar a situação. “Não há fundos, por isso não se pode fazer nada além de política, o que precisamos aqui é de uma liderança que conceba uma agenda diferente, com caras novas, dignas de crédito e capazes de interpretar e conduzir a população”.

Mais ou menos pela mesma altura, há um ano, a fundação alemã Bertelsmann Stiftung publicava o seu Índice de Transformação anual acompanhado pelo mapa político da América Latina. Cinco das democracias estavam em modo de “consolidação”, uma delas o Chile, nove eram “imperfeitas”, incluindo Peru, Bolívia, Brasil e México, e três altamente imperfeitas, entre elas o Equador.

O Haiti, onde multidões têm exigido a demissão do Presidente Jovenel Moise, agarrado ao poder, e o arcebispo de Puerto Príncipe, Max Mésidor, clamou na catedral que “basta de mortes” e que “alguma coisa tem de mudar”, integra o grupo das autocracias ditas “moderadas”.

Se a este quadro de falência acrescentarmos casos que só são longínquos por estarem noutro lado do mundo, como o do Líbano, aonde não se sabe se chegou o apelo do Papa Francisco ao diálogo, ou o de Hong Kong, veremos como também nestes a revolta persiste apesar dos actos de contricção e dos recuos anunciados pelos governos apertados. Nas ruas viradas do avesso da antiga colónia britânica grita-se agora já não contra a lei que revoltou as pessoas mas por liberdade e participação em todos os sentidos. Simplesmente por as pessoas se terem apercebido que é preciso tornar a democracia mais do que uma palavra bonita, que é preciso torná-la efectiva, real.

 

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