Entrevista ao 7MARGENS

Américo Aguiar: “A JMJ é uma semana de fogo de artifício. Importante é o que fica e os jovens precisam de mais do que a missa ao domingo.”

e | 7 Jun 2023

bispo Américo Aguiar, fotografado na sede da Fundação JMJ, 1.6.2023.. Foto © António Marujo

O presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023, bispo Américo Aguiar, fotografado na sede da Jornada. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

A dois meses da data em que voltará a ter uma agenda menos frenética e em que já não precisará de beber quase 20 cafés por dia como fazia antes de entrar para o seminário, falámos com o bispo Américo Aguiar, presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023. No gabinete da coordenação geral da Jornada, na sede do Comité Organizador Local (COL) – onde já praticamente não consegue parar –, o principal operacional fez um ponto de situação da preparação da JMJ. Com cerca de 600 mil jovens de praticamente todos os países do mundo já inscritos, e na expectativa de que o número dispare nesta reta final, o bispo auxiliar de Lisboa assumiu que teve de aprender a “navegar à vista” com uma equipa de colaboradores e voluntários cada vez maior e mais diversificada, e a gerir um diálogo institucional que nem sempre é pacífico. Sem retirar importância à Jornada em si e ao programa da visita do Papa em Portugal – que foi divulgado terça-feira, 6 – o que Américo Aguiar mais valoriza são o antes e o depois da JMJ. Em relação à preparação, considera que a peregrinação dos símbolos por todo o país tem sido “uma experiência única”, mas admite que não há, para já, qualquer estudo sobre a geração de jovens que está a viver a JMJ 2023. Estará então a Igreja preparada para dar aos jovens aquilo de que eles precisam? O coordenador geral da JMJ teme que não.

 

7MARGENS – Tinha noção do que o esperava quando aceitou a missão de coordenar a organização da JMJ Lisboa 2023?

AMÉRICO AGUIAR – Não… Só na perspetiva de alguém que viveu a Jornada como peregrino, em Sydney, e depois a acompanhar, como secretário, o nosso muito querido António Francisco [então bispo do Porto], em Cracóvia. Mas não tinha total ideia da profundidade, da transversalidade, do peso e da dimensão da organização. Desconfiava de algumas coisas, por ter alguma tarimba em organizar outras iniciativas, mas absolutamente nada desta dimensão. Só quando, em outubro/novembro de 2018, estive no Panamá, já nos bastidores da Jornada, quando faltavam mais ou menos dois meses para o seu início, comecei a perceber a dimensão de um acontecimento destes.

 

7M – Quais têm sido os maiores desafios?

Como a Sophia de Mello Breyner dizia dos nossos descobridores, que navegavam com o mapa que iam fazendo à medida que avançavam, a experiência é muito essa. Porque não há ninguém, absolutamente ninguém, tirando os jovens do Panamá, os jovens de Cracóvia, do Rio, de Madrid… e das restantes cidades que já organizaram uma Jornada, que saiba efetivamente como é. Aliás, nós temos a colaborar connosco um voluntário do Panamá que nos ajuda muito a pelo menos evitarmos aqueles erros crassos que poderíamos porventura cometer. Vamos aprendendo com aquilo que são as nossas capacidades, as nossas fragilidades, aquilo que é o território, a Igreja, as instituições, os parceiros… e assim vamos desenhando a Jornada. E sempre em cima de muita imprevisibilidade, porque os números dos peregrinos, dos inscritos, os números fechados e definitivos, que nos permitem tomar decisões que são logisticamente graves, continuam em aberto, a menos de dois meses do início da Jornada. E não é possível fechar esses números, porque as inscrições acabam no domingo, dia 6 de agosto [último dia da JMJ]. Isso não ajuda muito, não é? As inscrições com alojamento fecham daqui a um mês, mas as outras continuam. E há uma série de coisas, seja na alimentação, seja nos transportes, sejam os paramentos, as diversas coisas que temos nos contratos… que até determinada data podemos pedir mais, mas se pedirmos depois já não há garantia de entrega. Portanto, há aqui um grande desafio.

 

7M – Só possível de ultrapassar com uma equipa que também continua a crescer…

Sim! No final de 2018,o senhor patriarca [Manuel Clemente] pediu-nos uma coisa que eu acho que é muito importante: em primeiro lugar, que criássemos um pequeno grupo de trabalho, com alguns sacerdotes mais ligados às diversas áreas. E, a certa altura, pediu que cada um deles escolhesse leigos, jovens, rapazes e raparigas que tivessem alguma experiência, tivessem alguma disponibilidade, e assim foi feito. E hoje, passados quatro anos, a equipa, na quase totalidade, é essa: de jovens, 90 e tal por cento laical, e que nos leva a uma sinodalidade permanente naquilo que é [o processo de] tomar decisões e a uma aprendizagem permanente com muita gente que não se conhecia. E, como diz o Papa, o Sínodo não é um parlamento, em que chegam lá, falam e a maioria vai por ali. Não, no Sínodo cada um chega, partilha, e o Espírito Santo escolhe o caminho. Pode ser o da maioria, como pode ser o da minoria. Conhecermo-nos, trabalharmos em conjunto, em equipa, todos poderem dizer o que acham, ser tomada uma decisão… isto é uma escola muito interessante, mas que sai do pelo, principalmente porque o errar tem consequências, dói, implica corrigir e implica não repetir. E isto é uma equipa e a equipa está cada vez maior. Já estamos aqui muitas centenas de pessoas…

 

7M – Quantas?

Temos profissionais a full time, contratados (cerca de 40) e há pessoas dispensadas pelas suas empresas, mas o ADN da JMJ é o voluntariado. E estamos muito gratos, estou muito grato. Nós temos aqui uns 30 ou 40 estrangeiros de longa duração, que são um ensinamento para todos nós. Por exemplo, há uma jovem das Filipinas que veio sozinha do outro lado do mundo, e outros rapazes e raparigas que nos ensinam o “levanta-te apressadamente e põe-te a caminho”! A coragem, a força, a adrenalina que os jovens têm e que é tão necessária, urgente para sonharmos.

Voluntários trabalham no departamento de comunicação, na sede da JMJ. Foto © JMJ Lisboa 2023

São já várias centenas os voluntários, oriundos de diferentes países, a trabalhar nos diversos departamentos da JMJ. Foto © JMJ Lisboa 2023.

 

7M – Precisou de voltar a beber 20 cafés por dia, como antes de entrar para o seminário? 

É verdade… Começo a aproximar-me! Ainda consigo dormir, mas deito-me cada vez mais tarde e levanto-me sempre à mesma hora. Tem de ser, não é? Por volta das 7 é a alvorada, mas com “cafeínodependência” ainda me sinto capaz.

 

7M – Dia 8 de agosto volta ao normal…

Eu costumo dizer, a brincar, que no dia 8 de agosto não sei se estou no [hospital] Magalhães Lemos ou no Júlio de Matos, é uma dúvida que eu tenho. [risos]

 

7M – Disse numa entrevista, ainda antes de ser presidente da Fundação JMJ, que “o mais importante da Jornada não é a Jornada; o mais importante é a preparação da jornada e depois o que se segue à Jornada”. Confirma-se?

Absolutamente, sim. A Jornada é uma semana de fogo de artifício. É muito bom, é muito bonito, vem o Papa… Mas não é o importante da Jornada. O importante é o que fica, para Portugal, para os portugueses, para os jovens e para o mundo. E no que diz respeito à preparação, a peregrinação dos símbolos tem tocado profundamente. Ainda agora fizemos a entrega [da cruz e do ícone] de Leiria-Fátima para Santarém, em Minde. E tem sido uma experiência única. Ao percorrer todo o país, todas as dioceses, do norte e do sul, do interior do litoral, do continente e das ilhas… fiquei a apreciar ainda mais a força, a alegria, a resiliência, os sonhos e o futuro da Igreja e de Portugal. Em muitos sítios com desertificação, com pouca gente, com poucas expectativas, nós tivemos mares de jovens que apareceram debaixo das pedras. É esta capacidade do Cristo da Cruz de interpelar, de provocar…

Agora, temos de entender que estes jovens precisam de mais do que uma oferta de missa às 11 no domingo. Portanto, todos estes jovens que estão a ser provocados e que estão a trabalhar nas dioceses desde há 18 meses, desde que começou a peregrinação dos símbolos no Algarve, todos estes jovens disseram “Presente, estamos disponíveis para dar testemunho de Cristo vivo!”.

 

 

 

7M – O que é que a Igreja tem para oferecer a estes jovens?

Nós temos de corresponder, nós Igreja hierárquica, os responsáveis dos vários setores, padres, leigos, seja o que for. Temos de ter consciência de que esta malta precisa de resposta, precisa da nossa disponibilidade para fazer o mesmo caminho e não chega dizer: “Muito bem, meus caros jovens, então agora, no domingo, às 11, missinha… E para a semana, domingo, às 11, missinha”. E assim sucessivamente. Isto não pode ser. A preparação da Jornada tem de ser também uma provocação e um teste à nossa capacidade no terreno de corresponder a estes jovens que disseram “presente”. Einstein disse que insistir em fazer a mesma coisa e aguardar resultados diferentes deve ser insanidade. E às vezes parece-me que nós temos esta coisa do “sempre foi assim, há 2000 anos que é assim, e aqui sempre foi assim”… É das coisas que mais me chateia: ir a qualquer lado onde se está a tentar resolver um problema e dizem “aqui, segundo a tradição, sempre foi assim…”. O “sempre foi assim” é a pastoral da manutenção! Sempre foi assim, até que um dia deixa de ser assim, porque já não há ninguém para cumprir essa manutenção.

Quando me perguntam pelos frutos desta Jornada, eu já tenho visto esses frutos. Os elementos dos COD [Comités Organizadores Diocesanos] que acompanham em cada mês, em cada diocese, a peregrinação dos símbolos são verdadeiros heróis, aqueles homens e mulheres, rapazes e raparigas, que durante um mês suspenderam os seus trabalhos, as suas escolas, as suas famílias, as suas vidas próprias e estiveram um mês [a tempo inteiro] com os símbolos para trás e para a frente… Há dioceses em que os símbolos não estiveram sozinhos nem de noite. E, portanto, há uma capacidade no terreno a que nós não estamos habituados e não encontramos com muita facilidade, e vemos como a emoção os conquista ao terem que largar os símbolos para que outros possam continuar com aquela passagem de testemunho. Eu tenho dito sempre aos senhores bispos em todas as dioceses que é preciso refletir sobre estes homens e estas mulheres, sobre estes leigos que deram tudo. Que sacrificaram as suas famílias, sacrificaram as suas carteiras, sacrificaram as suas coisas para se darem na totalidade, e é esta malta que se dá na totalidade que o Senhor nos está a pôr à frente dos olhos.

Grupo de jovens com os simbolos da JMJ no topo da Ermida da Nossa Senhora da Paz, ilha de São Miguel, junho 2022. Foto © JMJ Lisboa 2023

Grupo de jovens com os símbolos da JMJ no topo da Ermida da Nossa Senhora da Paz, na ilha de São Miguel (Açores), em junho de 2022. Foto © JMJ Lisboa 2023.

 

7M – Houve alguma reflexão, algum estudo sobre o que é que esta geração de jovens, fez-se algum retrato sobre os seus anseios, sobre as suas aspirações, as suas realizações?

Sistematizado, não. Aliás, é uma coisa que eu acredito que possa ser feita pelo Departamento Nacional da Pastoral Juvenil, ou até por nós, em algum contexto que no fim de Jornada se possa equacionar. Olhar para o que aconteceu e fazer uma leitura, um trabalho sociológico sobre a realidade e a vivência destes jovens. Porque é muito bonito vermos como quer em dioceses grandes ou dioceses pequenas, quer em territórios com muita gente ou com pouca gente, a capacidade de resposta foi muito similar, muito positiva, muito barulhenta, muito empenhada, mesmo em ambientes que nós, porventura, podíamos julgar que não.

 

7M – Mas quando vamos ver os números de inscritos divulgados na semana passada, Portugal surge apenas em terceiro lugar, com 19 mil jovens. É dececionante?

Não, não é dececionante. Aliás, eu peço uma coisa: até ao dia 7 de agosto, nenhum número é nada, porque nós temos os históricos das três últimas Jornadas. E temos uns gráficos, em que a onda da JMJ Lisboa é sempre diferente das outras. Há muito tempo que estamos acima dos índices de todas as outras Jornadas. Nos números da primeira inscrição, da segunda inscrição, nos pagamentos realizados… Em tudo, estamos acima da média dos indicadores dos outros. O que é que aconteceu até agora nas outras Jornadas? No último trimestre, as inscrições disparam. E agora, o que é que vai acontecer em Lisboa? Não sabemos. E mesmo os sociólogos, os da estatística, os da matemática, não sabem.

Porque falta saber quem são estes jovens de hoje: 2023, pós-covid, situação económica, situação social, guerra. Quem são estes jovens? Quem são os potenciais participantes? Qual é o seu perfil? Têm disponibilidade, não têm? Por exemplo, eu fiz um périplo pelo Brasil e alguma América Latina e vi uma grande vontade de participar. E o que é que agora a gente recebe de muitos sítios? A impossibilidade, não é da inscrição na jornada, mas de pagar o voo aéreo, que está mesmo muito caro. Mas lá está… vamos ver. Em relação a esses casos, a nossa questão é ver se ainda poderá haver uma oportunidade de voos a preços mais acessíveis, se estão a juntar dinheiro para concretizar a vinda e ainda vão conseguir… É essa a grande dúvida daquilo que podem ser os números. Quanto aos portugueses, também estamos no histórico. Aqui que ninguém nos ouve, não é tão entusiasmante participar na Jornada Mundial da Juventude quando ela acontece na nossa terra… Dá pica é comprar o bilhete e fazer um esforço para ir não sei onde!

 

7M – Mas no encontro do centenário dos escuteiros, em Braga, estiveram 23 mil…

Sim, e eu estou convencido de que o número de portugueses vai aumentar. Nós somos portugueses… Vamo-nos inscrever na véspera e vamos pagar no dia a seguir! [risos] Até porque, quando nós falamos com os COD diocesanos, os números que eles têm do levantamento que fizeram dos grupos é muito superior. Também podem não se inscrever e vir na mesma… É que o histórico das Jornadas diz que, por cada um que se inscreve, vêm dois ou três. E nós portugueses somos muitos especialistas nisso. Mas estou convencido de que nós, portugueses vamos, nesta reta final, inscrever-nos. O mesmo se passa com os grupos que se vão juntar cá dos movimentos e congregações. Dizem que vêm não sei quantos mil salesianos, “kikos” [neocatecumenais], jesuítas… Onde é que eles estão? Não estão inscritos!

 

7M – Quantos ucranianos e russos estão inscritos neste momento?

Temos inscrições. É um dossier que estamos a tratar, com muita discrição, com muita sensibilidade. Há poucos dias não chegava a 300, no total. Na maioria, ucranianos. Os russos não chegam a 100.

 

7M – E haverá um encontro entre um ucraniano e um russo, como o Papa dizia no regresso da Hungria?

Ainda não está fechado o que vai acontecer. Estamos a trabalhar para que, num dos momentos centrais, seja nas boas-vindas, seja na via-sacra, na vigília ou na missa, haja um encontro que envolva os dois. Acredito que existem jovens russos e existem jovens ucranianos que querem a paz. E a paz não é estar contra ninguém. É “eu quero a paz contigo, tu queres a paz comigo”. Não é “tu és o mau, eu sou bom”. Não vamos por aí, não é?

 

O encontro entre um ucraniano e um russo, de que o Papa falou no voo de regresso da Hungria, ainda está a ser preparado. Há cerca de 300 peregrinos inscritos oriundos desses países. Foto © Vatican Media.

 

7M – Os EUA são o país com maior número de inscritos de fora da Europa. Estava à espera?

Sim, e quero mais! Aliás, nós, quando fomos ao Brasil, estávamos a equacionar ir também aos Estados Unidos, principalmente a Denver – onde já foi a Jornada Mundial da Juventude, em 1993 – mas depois infelizmente não foi possível. A gente pensa que ir ao Brasil é como ir a outro país qualquer, mas não. O Brasil é um continente! Coincidiu também com um encontro do CELAM [Conselho Episcopal Latino-Americano], com representantes da pastoral da juventude, e não foi mesmo possível. Mas pedimos à Conferência Episcopal dos Estados Unidos, e penso que já está pronta, uma versão do videoclipe do hino. Tem sido um trabalho muito interessante, muito próximo com eles. Por vezes, olhamos para os Estados Unidos e achamos que lá o único problema que não existe é o dinheiro, mas isso não é verdade.  Há comunidades e pessoas que, tal como outros, também não têm possibilidade de participar. Apesar de virem muitos, vamos tendo a informação de que o desejo e a vontade de outros ficam esmorecidos e esbarram na capacidade económica de corresponder.

 

7M – Vai ser possível assegurar a participação de jovens dos países mais pobres?

O fundo de solidariedade, que é gerido pelo Dicastério para o mundo e é gerido por nós para Portugal, penso que à data não muito distante tinha ultrapassado o meio milhão de euros, através da comparticipação dos jovens para esse fundo que apoiará a vinda de outros jovens do mundo inteiro. Quem articula é o Dicastério, que mediante as necessidades e realidades, a uns compra viagens, a outros compra os kits… Nós aqui também o estamos a fazer naquilo que são as realidades especiais do território. Já nos chegaram alguns pedidos, de dentro de Portugal, e estamos a avaliar caso a caso. Um deles é um grupo de jovens institucionalizados. Se se confirmarem todas as inscrições, nós teremos jovens de praticamente todos os países do mundo. Alguns países estão a atravessar situações mais delicadas… Há um caso em que a própria Igreja local tinha decidido não participar, porque a experiência que têm de outras edições é a de que os jovens aproveitam para fugir. Há este tipo de preocupações.

 

7M – E relativamente ao número de voluntários, famílias de acolhimento, refeições… o que é que falta?

Todos os nossos números, como há bocadinho falávamos, estão a flutuar. Em relação às famílias de acolhimento, é óbvio que nós gostaríamos que o número fosse o maior possível, mas há aqui um pormenor: é que a maioria dos jovens não escolhem famílias de acolhimento. É óbvio que eles preferem estar todos, com o seu grupo, num pavilhão. Mas, ainda assim, nós gostaríamos de ter mais famílias disponíveis. O Papa, numa das vezes que eu lá fui, e até gravou uma mensagem, esteve a dizer-me: “Não te preocupes, é o costume, as pessoas têm medo, têm receio… é incómodo receber jovens desconhecidos e estrangeiros”. Depois gostam!

Agora, os COD de Santarém, Lisboa e Setúbal vão ter uma equipa no terreno para reforçar a divulgação, porque na primeira fase objetivo foi cativar as famílias da paróquia, mas nós queremos ir para fora da paróquia… É preciso ir para as famílias dos miúdos nos colégios, para o bairro, para a comunidade em geral. Nós queremos famílias de acolhimento, não exigimos mais nenhum classificativo, e também isto faz o seu caminho. Quanto aos espaços coletivos, já temos, penso eu, cerca de 400 mil lugares.

A questão das refeições também é um caminho que estamos a fazer: as grandes superfícies e os grandes operadores já estão todos na rede. Mas o ideal é que os miúdos façam alguns dos almoços nas localidades onde estão alojados e não tenham de vir para Lisboa a toda a hora. E o mais difícil agora é chegar ao comércio local, aos espaços de restauração mais pequenos.

 

Cartaz apela a inscrição de famílias de acolhimento na JMJ 2023

Cartaz de apelo às famílias que se inscrevam para receber em suas casas alguns peregrinos. “Gostaríamos que o número fosse o maior possível”, diz o presidente da Fundação JMJ.

 

7M – Como é que está a correr o diálogo institucional com Governo e câmaras? Tem havido muitas zangas…

Nestes quatro anos, uma das coisas que também tenho a agradecer é a de ter conhecido todas estas pessoas, trabalhar com elas. Houve aqui um trabalho suplementar, devido às eleições autárquicas, porque tínhamos trabalhado durante algum tempo com o dr. Bernardino Soares e a sua equipa e o dr. Fernando Medina e a sua equipa, e foi preciso readaptarmo-nos e conhecermos o eng. Carlos Moedas e o dr. Ricardo Leão… E uma família tem problemas e dificuldades, e também a nossa família de vez em quando tem uns problemas. O nosso trabalho, a nossa entrega, a nossa dedicação são para que, apesar das diferenças, apesar das perspetivas, das visões e das respostas diferentes de cada um, de algum arrufo ou dificuldade,  sejamos capazes de ultrapassar os desafios. Isso tem acontecido, com mais ou menos tropeço, com mais ou menos dificuldade. A 60 dias que estamos, alguns dos problemas e algumas dificuldades que tivemos já lá vão, foram ultrapassadas. Aconteceram, foram públicas e notórias, mas nesta altura do campeonato a família está bem e recomenda-se.

 

7M – Não foi estranho o Presidente da República não se encontrar com o cardeal Parolin [secretário de Estado do Vaticano]?

O cardeal Parolin e o senhor primeiro-ministro são homólogos; o nosso entendimento foi que deveríamos promover a vinda à sede da Fundação JMJ do cardeal Parolin e do primeiro-ministro, que ainda não tinha tido a oportunidade de a visitar. Quando se colocou a questão de os homólogos se encontrarem [na sede da JMJ], isso foi muito útil porque o primeiro-ministro chamou também os ministros das áreas: o ministro da Saúde, o ministro da Administração Interna, a ministra dos Assuntos Parlamentares, o Protocolo de Estado, o Serviço de Segurança Interna. Foi muito interessante a partilha que fizeram e, o que achei também muito interessante, foram as perguntas muito oportunas e muito reais do cardeal Parolin em relação a algumas coisas. Foi muito bom, muito oportuno.

O encontro com o senhor Presidente da República? Isso não sei dizer, não é da minha jurisdição…

 

bispo Américo Aguiarcom cardeal Pietro Parolin e António Costa em visita à sede da JMJ, 13.05.2023. Foto © JMJ Lisboa 2023

O bispo Américo Aguiar com o cardeal Pietro Parolin e o primeiro-ministro António Costa, durante a visita de ambos à sede da JMJ. Foto © JMJ Lisboa 2023.

 

7M – Em Madrid, a organização da Igreja assumiu os custos da Jornada, aqui o modelo é completamente diferente. Porque é que o modelo de Madrid não foi seguido?

Primeiro, é preciso dizer que as narrativas do Yago de la Cierva [diretor executivo da JMJ de Madrid 2011] não correspondem totalmente à verdade.

Há aqui um problema: quem se candidata à jornada é uma diocese. E esse é um problema. Eu acho que no futuro as coisas deviam evoluir. Quem se devia candidatar devia ser a Conferência Episcopal como um todo. Mas não é, porque os nomes das jornadas são as cidades, as dioceses, não são os países. E daí que cai o peso da organização em cima de uma diocese com maior ou menor capacidade. Depois, nenhuma organização até hoje foi capaz de organizar a Jornada sozinha, sem o Estado. Não é possível. Pode haver mais ou menos empenho, mas não é possível fazê-lo sozinho, como não foi na Espanha.

Qual é a grande diferença da Espanha (que eu gostava de não ter…)? A Igreja espanhola chamou meia dúzia de CEO de multinacionais (Repsóis, Zaras…), cada um pôs lá X milhões, a fundação ficou com esses milhões e geriu a organização da jornada naquilo que eram responsabilidades da Igreja. Gostava de ter tido essa oportunidade, mas não temos. Em Portugal, o senhor cardeal-patriarca, a seu tempo, falou com o Presidente da República, primeiro-ministro, as autoridades… e disse-lhes que era um desafio. Era uma coisa muito boa, mas tinha os encargos que tinha, muito pesados. E da parte de todos os responsáveis políticos, que na altura eram os mesmos, com exceção do eng. Carlos Moedas e do dr. Ricardo Leão (e do Eduardo Ferro Rodrigues, que mudou para o Augusto Santos Silva)… todos, incluindo os novos, confirmaram e reafirmaram o interesse em ser corresponsáveis por aquilo que eram as necessidades. Corresponsabilidades essas, principalmente nas macroestruturas. As macroestruturas eram as grandes responsabilidades do Estado e aquilo que são a segurança, a saúde, que muito agradecemos porque não seria possível de outra maneira.

Depois tem havido um ajuste e reajuste das responsabilidades de cada um, e houve a necessidade de plasmar isso num memorando de entendimento entre as várias partes, que nos vai guiando, mas mesmo agora continua a haver necessidade de fazer ajustes porque percebemos que não faz sentido que seja daquela maneira que tínhamos previsto e é melhor que seja de outra. Procuramos sempre encontrar o melhor entendimento. Todos nós queremos proporcionar aos jovens peregrinos uma boa experiência… E a partir daí, que tudo corra da melhor maneira.

bispo Américo Aguiar em entrevista ao 7Margens na sede da JMJ, 01.06.2023. Foto © Clara Raimundo

“Nenhuma organização até hoje foi capaz de organizar a Jornada sozinha, sem o Estado. Não é possível”, assegura Américo Aguiar. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

 

7M – Se lemos bem as contas, quer do grupo de projeto [do Governo], quer do COL, os espaços da Cidade da Alegria são pagos pelo Estado, tal como uma parte dos transportes. Mas depois o COL cobra aos participantes o aluguer dos espaços na Cidade da Alegria e cobra um valor pelo transporte na inscrição. Ou seja, o Estado paga, mas depois o COL arrecada dinheiro também?

O Estado não paga, o Estado subsidia uma parte dos transportes. Nós fizemos um cálculo para aquilo que é o custo de transporte para os jovens e esse cálculo, da nossa parte, digamos que não foi o mais correto. O que pensámos foi o seguinte: um passe mensal custa 40 euros, então uma semana custa 10. Ora, isto não é verdade porque o passe não custa 40, o passe custa mais, só que é cofinanciado e custa menos. Eu, cidadão pouco informado, não sabia… Não sabíamos. Portanto, foi necessário solicitar ao senhor primeiro-ministro que pudesse olhar para a questão dos transportes, de maneira a que nós entregássemos a parte que os jovens nos confiam do transporte e que complementarmente houvesse o cofinanciamento do Estado. Agora, qual é o nosso problema hoje? Nem tem nada a ver com isso: o nosso problema hoje são os preços dos autocarros privados que vamos ter de providenciar. E estamos a falar de um preço que achávamos que seria de 600/700 euros por dia, e temos agora pedidos de contratos de 2600/2900 euros por dia. Esta é uma das minhas atuais preocupações.

 

7M – Os grupos de catequese, com o itinerário Say Yes, foram desafiados a criar projetos de intervenção junto do que o Papa chama de “periferias existenciais”, como os idosos, os presos… Apareceram alguns?

Nós temos uma falta de hábito de partilha das coisas. Em muitas das atividades que nós fizemos, pedimos: “mandem fotos, mandem resumos”… Não mandam. Como se quiséssemos controlar… Não há uma tradição de partilha, de gostar de mostrar, e isto é negativo. O que temos é a perceção direta de um ou outro grupo no que diz respeito, principalmente, ao contacto com IPSS, à proximidade que estabeleceram com idosos, com deficientes…

E a experiência da presença dos símbolos nas cadeias, nos hospitais, nos lares, tem sido muito forte. Até hoje, a coisa que mais me tocou na peregrinação dos símbolos em todo o país foram os símbolos na cadeia de Lamego. Estávamos todos com medo do muro e dos presos, por causa de tanta recomendação: “Oh senhor bispo, cuidado, cuidado…” – diziam-me. E no fim, eu disse assim: “Bem, este muro está mas é a defender os presos da malta lá de fora”. Eu até hoje nunca vi rostos tão transfigurados a tocarem os símbolos como os daqueles homens que ali encontrei. Em Lamego também, nós fomos a uma terra, cujo nome agora não me lembro, em que todos os velhinhos estavam no lar. A população estava toda institucionalizada!

E esta é uma coisa que me tem tocado, que é a falta de coesão territorial. Se não fossem as Forças Armadas, os símbolos não tinham ido ao Corvo, às Flores e a Santa Maria. Não era possível com os aviões comerciais. E eu acho que nós, quando começamos a conhecer Portugal, os portugueses e o território, temos que nos preocupar muitíssimo com o que fazer no futuro para que a coesão territorial seja uma verdade. E para que a conversa da meritocracia possa acontecer com igualdade para todos… Encontrámos miúdos na Guarda, em Beja, Bragança… que, digam o que disserem, não têm as mesmas possibilidades e as mesmas oportunidades de vingar, de sonhar, de lutar pelos sonhos e de os concretizar. Não têm! Portanto, nós temos que fazer alguma coisa. Nós como sociedade e nós como Igreja. Temos de “hacer lio”, como diz o Papa! Temos que nos entender como sociedade. O que é que nós temos de fazer, do que é que temos de abdicar para que efetivamente todos tenham as mesmas oportunidades? Lembro-me também, na Ilha das Flores, de uns jovens que eu encontrei numa praia, na ponta mais ocidental da Europa, onde fomos içar uma bandeira. Falei com eles e perguntei-lhes o que é que eles queriam ser… e depois chorei. Porque estava emocionado com a coragem deles. Eles estavam felizes, fortes e a acreditar… e eu não estava a acreditar.

Peregrinação dos símbolos na diocese de Coimbra, passagem em centro de dia. Foto © Nuno Trindade COD Coimbra.

A peregrinação dos símbolos passou por inúmeras IPSS nas diferentes dioceses, o que permitiu estabelecer uma grande proximidade com algumas periferias existenciais, como os mais idosos. Foto © Nuno Trindade/COD Coimbra.

 

7M – Dizia que a peregrinação dos símbolos tem sido uma experiência única… Mas podemos dizer que é também a única experiência de preparação da JMJ?

Pois, isso é que eu não quero…

 

7M – Pensando, por exemplo, no tema da guerra: daqui a 20 anos, estes jovens serão decisores políticos, económicos, financeiros… Vão dizer que são cristãos e têm grandes princípios, mas que há ali um país que se está a portar mal e, portanto, vamos invadir ou vamos fazer guerra, ou produzir armamento?… Ou aprenderam alguma coisa na Jornada sobre a doutrina social da Igreja, sobre a não-violência?

Não quero que seja só quando forem decisores no futuro, quero que seja hoje. Eu gostava que os encontros que vamos proporcionar, as “sepultadas” catequeses, os vão provocar à tal reflexão sobre a Laudato Si’ e o cuidar do planeta, sobre a Fratelli Tutti e sobre a nova Economia de Francisco. Os jovens têm de nos dizer (e nós temos de os querer ouvir) como é que querem desenhar o hoje, o amanhã e o futuro, em muitas áreas da economia, da paz e da guerra, da política internacional… O que eu gostava e queria é que estes jovens que vêm a Lisboa – e que vão ter oportunidade de estar uns com os outros, de se conhecerem, de transmitirem uns aos outros a sua vivência, a sua sensibilidade – ou melhorassem a sementeira que já têm, ou levassem no seu coração uma sementeira de uma visão sobre o mundo, a economia, a ecologia, a fraternidade, a paz e a guerra e a política internacional diferente. E não digo cristã, nem católica, digo diferente para melhor. O meu sonho é que estes jovens regressem aos seus países com o desejo e a vontade de serem melhores: melhores pessoas, independentemente da sua religião, independentemente de tudo o resto. Porquê? Porque em Lisboa encontraram brancos, negros, gordos, magros, do Sul e do Norte, ricos e pobres, muçulmanos, judeus e outros, e descobriram que a diferença é uma riqueza. E que toda esta esta diversidade dos irmãos e das irmãs é sempre uma oportunidade.

 

7M – Mas não falta depois aí aquilo que é a proposta da doutrina social da Igreja para mostrar que a fé tem consequências? Numa conversa com dezenas de jovens que estavam a preparar a JMJ, na diocese de Aveiro, foi perguntado quem é que já tinha lido a Laudato Si’ e a Fratelli Tutti. Nem 10% responderam afirmativamente… Ou seja, estes três anos não se perderam em termos da preparação, da reflexão e do debate que deviam ter sido feitos?

Isso é outro campeonato… A mim não me surpreende nada disso, nem em relação aos jovens, nem em relação a uma boa parte das pessoas da comunidade. Quando nós falamos das encíclicas, do Vaticano II… só nos estão a entender muito poucos, demasiado poucos. Aí é uma culpa nossa, de quem tem responsabilidades de pastoreio. Há uma grande iliteracia. Eu acho que isso é culpa nossa. Ou seja, há um deve e um haver nesta relação, nesta proximidade com os documentos, nesta proximidade com aquilo que nos define. E é uma exigência que nós temos que ter consciência de que não é só em relação aos jovens, é em relação à esmagadora maioria daqueles a quem nos destinamos.

 

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Alfredo Teixeira em conferência dia 16

A “afinidade” entre a música de intervenção e a mensagem de libertação cristã novidade

Podem algumas canções de intervenção ligadas à Revolução de 25 de Abril de 1974 relacionar-se com o catolicismo? O compositor e antropólogo Alfredo Teixeira vai procurar mostrar que há uma “afinidade” que une linguagem bíblica e cristã à música de Zeca, José Mário Branco, Lopes-Graça, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho e outros.

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