Num novo relatório intitulado Nunca tinha visto tantos corpos, a Amnistia Internacional lançou esta terça-feira, 5 de maio, um alerta urgente sobre o aumento drástico de abusos cometidos pelas Forças Democráticas Aliadas (ADF) no leste da República Democrática do Congo (RDC). A organização classifica as ações do grupo, ligado ao Estado Islâmico, como crimes de guerra e crimes contra a humanidade que “o mundo não pode continuar a ignorar”.
O documento detalha uma campanha de terror marcada por ataques brutais com armas de fogo, machados e catanas. Entre os episódios mais graves, destaca-se um massacre em setembro de 2025, na aldeia de Ntoyo, onde combatentes disfarçados de civis atacaram um velório, resultando em mais de 60 mortes.
Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional, sublinha que as ADF têm como alvo principal a população civil, atacando comunidades, quintas e até instalações médicas para saquear suprimentos e retaliar contra operações militares.
A investigação, realizada em novembro de 2025, revela práticas sistemáticas de casamentos forçados e exploração infantil, com mulheres e raparigas, algumas com apenas 12 anos, a serem entregues a combatentes como “incentivo”, e submetidas a gravidezes forçadas e escravidão doméstica, e com crianças a partir dos dez anos a serem recrutadas para funções de combate, transporte de carga e vigilância, após terem sido doutrinadas e treinadas militarmente. Há ainda inúmeros casos de sequestros e tortura, em que as pessoas raptadas são obrigadas a trabalhar como carregadores em condições desumanas e aquelas que mostram exaustão são frequentemente executadas.
Crise humanitária agravada e “indiferença política”
A violência agravou a crise humanitária na região, provocando deslocações em massa e bloqueando o acesso a alimentos e educação, alerta ainda o relatório da Amnistia Internacional. O documento critica a resposta das forças de segurança (FARDC), com testemunhas a relatar atrasos ou ausência total de proteção durante os ataques, mesmo quando as bases militares se situavam nas proximidades.
A organização de defesa dos direitos humanos insta, assim, o governo congolês e os doadores internacionais a abandonarem a “indiferença política”. Entre as exigências da Amnistia, incluem-se o reforço dos mecanismos de alerta precoce e proteção civil, a responsabilização judicial dos culpados, e a implementação de programas de reintegração e apoio psicológico para sobreviventes, que enfrentam graves traumas e estigma social.
“A paz e a segurança têm de ser restauradas com urgência para que os sobreviventes possam reconstruir as suas vidas”, conclui Callamard.










