
Trabalhadores migrantes num dos estádios do Qatar, que acolhem o Mundial de futebol. Foto © Amnistia Internacional.
Nas vésperas de soar o apito para o arranque do Campeonato do Mundo de Futebol, a Amnistia Internacional (AI), juntamente com outras organizações e entidades, volta a apelar ao Qatar, o país organizador, e à Federação Internacional de Futebol (FIFA), que “compensem os trabalhadores migrantes que, para que esta competição fosse possível, foram explorados e vítimas de abusos”.
A construção dos dez estádios da prova neste país do Médio Oriente terá ainda provocado mais de 6500 mortos, entre os seus trabalhadores, na esmagadora maioria migrantes de países asiáticos, de acordo com uma investigação publicada pelo jornal britânico The Guardian, e então noticiada pelo 7MARGENS, números que as autoridades qataris recusam aceitar.
A FIFA e as autoridades de Doha falam em apenas três mortos durante os preparativos para o Mundial 2022. O Comité Supremo do país acrescenta que outros 36 trabalhadores dos estádios também morreram, mas por motivos “não laborais” – ou seja, morreram após um dia de trabalho de “causas naturais”.
Por tudo isto, a Amnistia apela à assinatura de uma petição dirigida ao ministro do Trabalho no Qatar, Ali bin Samikh Al Marri, e ao Presidente da Federação Internacional de Futebol, Gianni Infantino.
Para a organização defensora dos direitos humanos, “o Campeonato do Mundo no Qatar ficará marcado pelas sucessivas ‘grandes penalidades’ sobre os trabalhadores migrantes que sofreram às mãos das autoridades do país para que esta competição pudesse ser uma realidade”.
No texto que acompanha a petição, a Amnistia diz que “a situação é ainda mais grave se considerarmos o silêncio de Gianni Infantino, presidente da FIFA, sobre estas violações de direitos humanos e sobre as devidas compensações a estes trabalhadores”. Mas Infantino falou este sábado, para atacar o que apelidou de “hipocrisia” dos países europeus. “Essa lição de moral — unilateral — é apenas hipocrisia. Não quero dar nenhuma lição de vida, mas o que está a acontecer aqui é profundamente, profundamente injusto”, atirou, para logo a seguir acrescentar: “Pelo que nós, europeus, temos feito nos últimos 3 000 anos, devemos desculpar-nos nos próximos 3 000 anos antes de começar a dar lições de moral às pessoas.”
De acordo com a Amnistia, “ao longo dos últimos anos foram apresentadas inúmeras evidências sobre as consequências para as vidas dos trabalhadores migrantes e, ainda, uma proposta concreta para ajudar as vítimas e as suas famílias”. Ignorada até hoje.
Como já tinha sido noticiado pelo 7MARGENS, em maio passado, “a Amnistia e uma coligação de organizações lançaram uma campanha apelando ao Qatar e à FIFA que estabelecessem um programa de reparação para as centenas de milhares de trabalhadores que enfrentaram abusos, tais como taxas de recrutamento ilegais, salários não pagos, ferimentos e, nos piores casos, a morte”. Mas, nota a AI, “até à data, a questão da indemnização permanece por abordar pela liderança da FIFA, mesmo apesar de uma sondagem global realizada pela Amnistia em 15 países ter revelado que 84% dos prováveis espectadores do Mundial são a favor da proposta”.
A Amnistia quer, agora que a bola vai correr nos relvados, “colocar sob os holofotes do mundo o apelo por justiça para a equipa que tornou este campeonato possível: a dos trabalhadores migrantes”.










