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No seu primeiro grande texto, Leão XIV critica o fosso crescente das desigualdades. Foto © Daniel Zgombic.

Exortação publicada dia 9

Amor aos pobres é tema do primeiro grande texto do Papa Leão, afirmando continuidade com Francisco

| 05/10/2025

Será dedicada ao amor pelos mais pobres e marginalizados e à denúncia da injustiça social, e vários detalhes fazem da primeira exortação do Papa Leão XIV uma afirmação clara do seu alinhamento com o pontificado de Francisco: as 40 páginas e cerca de 20 mil palavras de Dilexi te (“Eu amei-te”) foram assinadas no sábado, dia 4, dia de São Francisco, o “pobrezinho de Assis”, que interpelou a Igreja apelando ao desprendimento dos bens materiais e do poder; e vem na sequência directa do último grande texto publicado pelo Papa Francisco, a encíclica Dilexit nos (“Ele amou-nos”), dedicado ao tema do “amor humano e divino do coração de Jesus Cristo”, de 24 de Outubro de 2024.

A exortação será publicada na próxima quinta-feira, dia 9, anunciou o Vaticano. E nela podemos ver também a continuidade com o já longínquo pontificado de Leão XIII que, em 1891, publicou o documento fundador do moderno pensamento social católico, a encíclica Rerum novarum, sobre a condição dos operários, que nessa época era miserável.

Depois de Francisco ter pedido no seu último documento que os crentes se concentrem no amor de Jesus, este texto, ainda iniciado por Francisco e concluído por Leão, sublinha o apelo para que os baptizados amem os pobres como Jesus amou, notava a revista e página digital America, dos jesuítas dos Estados Unidos. A mesma fonte recorda o próprio trajecto pessoal do actual Papa: Robert Francisc Prevost, nascido em Chicago há 70 anos, passou quase metade (cerca de 20 anos) da sua vida de padre, desde que foi ordenado em 1982, a trabalhar como missionário nas zonas mais pobres do Peru. Como Francisco já tinha um rascunho da exortação, isso permitiu que Leão concluísse o texto – boa parte da sua estadia de Verão em Castel Gandolfo terá sido ocupada com essa tarefa [ver 7MARGENS]. Tinha havido algo semelhante com o Papa Francisco, que concluiu um documento iniciado pelo seu predecessor, Bento XVI: a encíclica Lumen Fidei foi publicada em 29 de junho de 2013.

 

O fosso crescente da desigualdade

Pobreza, sem-abrigo, Roma

Pessoa sem-abrigo a dormir junto da colunata de São Pedro, em Roma: o Papa Leão está preocupado com o fosso crescente das injustiças. Foto © António Marujo/7MARGENS

Com o título inspirado numa frase do livro do Apocalipse, o último da Bíblia cristã, Dilexi te pretenderá não só falar das pessoas pobres, como também da realidade da pobreza no mundo. O Papa Francisco repetia muitas vezes que “os pobres estão no centro do Evangelho”: além de ter criado estruturas de apoio às pessoas em condição de sem-abrigo que circulam em redor do Vaticano, Francisco visitou prisões, levou refugiados para Roma e mostrou em outros gestos a sua atenção aos mais vulneráveis – que também quis que estivessem presentes no seu funeral.

Na recente entrevista que concedeu à jornalista Elise Ann Allen, do jornal digital Crux, Leão criticava “a crescente diferença entre os níveis de rendimento da classe trabalhadora e o dinheiro que os mais ricos recebem”. Esse fosso crescente, acrescentava Leão, está a contribuir para a polarização no mundo de hoje. E recordava: “Há 60 anos [os donos de empresas] ganhavam quatro a seis vezes mais do que os trabalhadores; segundo os últimos dados que vi, ganham hoje 600 vezes mais do que o trabalhador médio. (…) as notícias [disseram] que Elon Musk vai ser o primeiro trilionário do mundo. O que quer isso dizer e sobre o que falamos? Se essa é a única coisa que ainda tem valor, então estamos muito mal.”

O texto do America recorda que já durante os seus primeiros cinco meses como papa, Leão falou várias vezes sobre os pobres, a pobreza no mundo e o impacto da guerra e das alterações climáticas em muitos países do mundo – e nas classes mais desprotegidas.

A nova exortação, diz a mesma fonte, estará fundamentada no que a Bíblia e o ensino da Igreja diz sobre os pobres, destacando a necessidade de justiça no mundo de hoje.

Há menos de dois meses, numa missa em Albano com trabalhadores da Cáritas, Leão sugeriu que a abordagem da Igreja para resolver o problema da desigualdade tem de ser diferente da exclusivamente política: “Encorajo-vos a não fazer distinção entre aqueles que ajudam e aqueles que são ajudados, entre aqueles que parecem dar e aqueles que parecem receber, entre aqueles que parecem pobres e aqueles que sentem que estão a oferecer o seu tempo, as suas competências e a sua ajuda. Somos a Igreja do Senhor, uma Igreja dos pobres, todos preciosos, todos súbditos, cada um portador de uma Palavra singular de Deus. Todos são um dom para os outros.”

 

Clara de Assis, mulher que quis viver livre

Simone Martini, representação de Santa Clara (1312–1320), na Basílica de São Francisco, Assis, Itália.

Neste sábado, 4, na audiência do Jubileu dos missionários e refugiados, o Papa comentou o texto do Evangelho segundo Lucas que acabara de ser lido, que referia o desafio de servir Deus e não a riqueza. Recordando como Francisco de Assis, seguidor de Jesus, abraçou a pobreza evangélica, mesmo à custa de romper com a sua família, acrescentou que a decisão de Clara de Assis foi “ainda mais impressionante: uma jovem mulher que queria ser como Francisco, que queria viver, como mulher, livre como aqueles irmãos” (o discurso está por enquanto disponível apenas em italiano).

Clara foi “uma jovem corajosa e contracultural”, que vivia numa cidade que se considerava cristã, mas cuja adesão radical ao Evangelho parecia revolucionária. “Então, como hoje, é preciso escolher! Clara escolheu, e isso dá-nos uma grande esperança”, acrescentou, pedindo ainda: “Rezemos para ser uma Igreja que não sirva o dinheiro ou a si mesma, mas o Reino de Deus e a sua justiça. Uma Igreja que, como Santa Clara, tenha a coragem de habitar a cidade de uma maneira diferente, [escolhendo] a quem serviremos: a justiça ou a injustiça, a Deus ou ao dinheiro.”

A nova exortação do Papa Leão será apresentada numa conferência de imprensa na manhã do dia 9 de outubro pelos cardeais Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, e Konrad Krajewski, esmoleiro papal. Estarão também presentes, adianta o America, Frédéric-Marie Le Méhauté, provincial dos Frades Menores da França e Bélgica, por videochamada, e a irmã Clémence, das Irmãzinhas de Jesus, da comunidade de Tre Fontane, em Roma.

 

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