Amor e Sentido

| 1 Dez 2023

“Ama-se um filho porque nele nos tornamos coparticipantes no milagre da vida. Ele é um milagre encarnado que amamos sem porquê; porque ele é a parte de nós que, fora de nós, se fez infinito, pessoa, alma. Através dele, a nossa própria finitude transcende-se e ilumina-se.” Pintura: Maternidade de John Haynes-Williams (1836–1908). Museu João Paulo II, Varsóvia.

 

O Sentido talvez consista numa entrega total a algo, causa ou ideia, com amor. Mas não estou certo de que todas as causas suscitem a mesma plenitude de sentido. O que trará essa plenitude? A dimensão ou integridade do amor que se dedica, ou a causa em si, objeto desse amor?

É certo que o “muito amar” justifica até a causa aparentemente mais insignificante, contanto seja um amor sincero, até certo ponto desinteressado, e não uma tábua de salvação para a angústia da solidão ou da falta de sentido. Que seja o amor do jardineiro que se alegra com a vida que cresce e se expande; que seja o amor da mãe ou do pai, capaz de ver o infinito para além da insignificância aparente, alegrando-se por participar na eclosão progressiva do milagre que um filho significa. Amar é isso: tomar parte na eclosão do milagre e alegrar-se com isso. Ver a obra crescer, expandir-se, tomar as suas justas proporções; ver a esperança a tomar forma pouco a pouco, porque amar é também, e sem dúvida, esperar. Não há amor se não se pressente o potencial da coisa amada, se não se pressente no bloco informe e bruto a estátua a haver, o milagre a libertar.

Por conseguinte, diria que sim: a medida do amor, desde que seja amor honesto e munido de uma esperança real no potencial do milagre oculto a realizar, é capaz de conferir plenitude de sentido, ou perto disso. Esse potencial será sempre de vida, beleza, verdade (e tudo isso é vida substantiva, vida essencial).

Por outro lado, será a medida ou qualidade da causa que se abraça que garante, só por si, a plenitude do sentido? Influirá a grandeza aparente da coisa amada – no limite um ideal de justiça e humanidade posto na alta esfera dos princípios éticos universais – na plenitude de sentido que se busca?

A resposta é, neste ponto, mais fácil: não. Quer dizer, não, se faltar a constância que só o amor produz, assente no cultivar da esperança. É preciso não perder de vista o bem que se busca, esclarecer bem o ideal, confiar na sua justiça e verdade e avaliá-lo pelos frutos que pode produzir, que terão sempre de ser de vida, crescimento, expansão, milagre de vida autêntica.

Amar é fazer da fraqueza força. Quer dizer, é perseverar na sombra das dúvidas e dificuldades, das incertezas e contrariedades, com fé no milagre a haver. Amar é cultivar a esperança nas grandes como nas tidas como pequenas coisas. Há que insistir, há que perseverar, porque alguma coisa boa e bela há-de sair desse esforço, mesmo que tal não venha a ser imediatamente evidente.

Ama-se um filho porque nele nos tornamos coparticipantes no milagre da vida. Ele é um milagre encarnado que amamos sem porquê; porque ele é a parte de nós que, fora de nós, se fez infinito, pessoa, alma. Através dele, a nossa própria finitude transcende-se e ilumina-se.

E, no fundo, é tudo o que desejamos: pôr fora de nós algo que dê testemunho, a nós mesmos em primeiro lugar, do vínculo essencial que temos com o infinito da Vida, o seu absoluto, para que, precisamente, nos sintamos existir autenticamente. Para que a nossa vida ganhe um fulgor de imortalidade.

Quer seja com um filho ou, num grau diferente, com uma obra de criação artística, poética, filosófica, política, humanitária ou espiritual, sempre se cultiva uma esperança que transcende a finitude aparente; trata-se, em todo o caso, de buscar a imortalidade, de iluminar a vida com a sua própria substância, trazendo-a à luz; de revelar uma consciência a si mesma nos seus verdadeiros limites e possibilidades. “Que é a vida?”, pergunta Teixeira de Pascoaes num dos seus escritos. “Auto-revelação constante”, responde. E prossegue: “Reparai num perfil humano e vereis, sobre ele, as mãos febris duma alma a trabalhá-lo – duma alma que pretende rasgar a névoa e aparecer, cá fora, à luz do sol.”

Imortalidade significa menos fama e renome do que alegria de participação, no presente, em algo que é maior que a vida. Há um bem que se vislumbra, fonte dessa esperança que se deseja cultivar em nome desse bem maior e último. Esse bem, que pode ser valor, beleza ou verdade, mas que em qualquer caso é justiça, é aquilo que, em última análise, se ama; e porque se o ama, dele se obtém a esperança que gera a alegria, que por sua vez gera frutos verdadeiramente dignos de imortalidade. O verdadeiro amor distingue-se do falso pela capacidade que tem de gerar frutos de bondade, beleza e verdade; quer dizer, frutos de imortalidade. Platão, no Banquete, diz que amar é “gerar no Belo”. Aquele que se compraz na sua visão e esperança deseja, por superabundância do coração, fazer render o seu talento, gerar, criar, servir, grato por ter encontrado o tesouro do seu amor.

O ser humano é sedento de gerar frutos de imortalidade. O evangelho apócrifo de Tomé põe na boca de Jesus as seguintes palavras: “Se tirares de ti o que está em ti, isso salvar-te-á. Se não tirares de ti o que está em ti, isso destruir-te-á”. Há algo a tirar de dentro de nós, algo de essencial a exprimir, a criar, e isso nos salvará, porque nos revelará a nós mesmos e nos dará um sentido no seio nebuloso do mistério da vida.

Para além de toda a vaidade e aparência, de toda a perversão e vício, o coração humano só deseja estar limpo e puro e ser transparente; amar e ser amado como as crianças, ter paz no silêncio e comunicar genuinamente, tanto as suas sedes mais íntimas como as primícias do seu coração; participar na aventura da vida solidariamente o mais possível, reconhecendo e sendo reconhecido na plenitude da sua humanidade.

“Amantes” – detalhe de pintura no teto do Mosteiro de Santo Domingo de Silos, Burgos, Espanha. Autor desconhecido.

 

Em conclusão, o que determina a grandeza ou qualidade de um sentido existencial é a honestidade do amor e a constância que nele se põe. Porque o amor verdadeiro significa liberdade e libertação; ele educa o homem, fá-lo transcender-se, tirar de si o essencial que o poderá salvar. O que importa é que o amor produza frutos de justiça – bondade, beleza, verdade – e, tanto quanto possível, a paz de uma consciência limpa. Porque amor é esperança, e a esperança que se cultiva cultiva-nos. No amor, que idealmente é fonte de justiça, não podem caber meios que atentem contra o mistério da vida e sua dignidade. O amor não justifica tudo; não está, como alguns disseram, para além do bem e do mal. Porque o amor ama a vida e exprime a própria vida. Se a dinâmica da vida é o crescimento e a expansão, há como que o desejo íntimo de abraçar a totalidade, o mundo inteiro, e assim receber em troca o amor do mundo. O mesmo é dizer, ser reconhecido na sua humanidade plena. E há como que essa vontade heróica de dar a vida pela humanidade que intimamente alimentamos, como expressão precisamente desse vínculo com o Todo que queremos reatar. Mas não devemos transformar este impulso de amor e entrega total em afirmação egotista e crescentemente megalómana, a qualquer custo e por qualquer meio, de um eu, porque isso já não é amor. Tal significa o crescente isolamento que destrói o amor e estiola a esperança. Daí que seja necessário cultivar o aberto, isto é, a relação, porque é por ela que nos mantemos sãos e disponíveis para fazer do amor mais do que uma abstração que estiola a esperança. E se o amor que buscamos e pelo qual lutamos é, na essência, um desejo de retorno à unidade essencial, ele só se cumprirá solidariamente, no concreto da existência interessada (do latim inter esse, isto é, ser entre). Está bem amar um ideal, um valor, um princípio, uma verdade intelectualmente concebida, mas isso só será, de facto, amor, e não uma ido ou egolatria, se refletir e for capaz de concretizar um desejo essencial de integridade pessoal, genuina alegria e comunhão humana plena.

O amor deseja e cumpre o sentido, precisamente porque consiste num movimento contrário ao do autocentramento vicioso, que é estéril. Por conseguinte, não se pode comprazer com a mera contemplação; não, se esta não implicar relação. O que se busca é o milagre da vida, quer dizer, a vida inteira, plena, substantiva, que o intelecto, só por si, não alcança. Não se pode amar uma ideia só por si – ela exige ser expressa, se for bela e verdadeira, quer dizer, partilhada, posta em comum. O que se amará nela é, no fundo, o que ela significa para a essência da humanidade comum; aquilo que nos liga. Não se pode amar a justiça – justiça, não vingança – se esta significar apenas justiça para alguns, e não para todos. Quer dizer, se não refletir um ideal mais vasto e fundamental de plenitude de vida para todos, que se fundamente, em última análise, na compaixão. Não se pode amar a verdade sem se ver nela o caminho mais curto e justo para a integridade e o conhecimento que conduzem à liberdade verdadeira, sem a qual não há sentido nem comunhão humana autêntica. Porque é isso que se ama na verdade: a integridade da vida, a sua beleza, o seu mistério absoluto, a possibilidade quase pueril de retornar à fluidez natural das relações humanas. No fundo, não se pode amar sem amar a vida. Não se pode viver sem se desejar amar mais, amar melhor, e, naturalmente, ser amado. E onde estiver o amor, aí está a esperança a cultivar, o sentido a construir.

 

Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).

 

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