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Irma Helen Alford intervem na abertura do encontro sobre Amoris laetitia. Foto Vatican Media
A irmã Helen Alford comparou sobretudo a exortação publicada em 2016 pelo Papa Francisco com a Familiaris consortio, de João Paulo II. Foto © Vatican Media

Encontro no Vaticano

“Amoris laetitia” é coerente com o ensinamento da Igreja, afirma irmã Helen Alford

| 08/10/2026

A exortação apostólica Amoris laetitia é coerente com o ensinamento e a prática da Igreja anteriores a Francisco e deve ser entendida em continuidade com a reflexão de João Paulo II sobre o casamento e a família, afirmou a irmã Helen Alford, presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, no primeiro dia do encontro internacional que assinala os dez anos do documento, a decorrer no Vaticano.

A religiosa dominicana, que interveio esta quarta-feira, 7 de outubro, logo após o discurso de abertura de Leão XIV, comparou sobretudo a exortação publicada em 2016 pelo Papa Francisco com a Familiaris consortio, de João Paulo II, publicada em 1981. Os dois documentos, explicou, procuram responder à mesma tensão: como afirmar as exigências objetivas da moral cristã reconhecendo, simultaneamente, que as pessoas percorrem diferentes etapas no seu crescimento e nem sempre conseguem corresponder plenamente a essas exigências.

A reflexão de Alford surge no contexto do encontro que reúne, até 14 de outubro, presidentes das conferências episcopais de todo o mundo, representantes das Igrejas Católicas Orientais, casais e especialistas para refletir sobre a aplicação da Amoris laetitia e os desafios atuais das famílias. O encontro foi aberto por Leão XIV, que sublinhou a importância de aprender com as famílias e questionou que Igreja encontram as pessoas precisamente quando atravessam situações de maior fragilidade.

 

“Lei da gradualidade” não significa mudar a lei

Um dos principais pontos da intervenção de Helen Alford baseou-se na chamada “lei da gradualidade”, conceito presente tanto na Familiaris consortio como na Amoris laetitia.

A religiosa recordou que João Paulo II afirmava que o ser humano “conhece, ama e realiza o bem moral segundo diferentes etapas de crescimento”. Francisco retoma esta ideia na Amoris laetitia, sublinhando que não se trata de uma “gradualidade da lei”, mas de reconhecer a gradualidade com que as pessoas, através de atos livres e prudentes, conseguem compreender, apreciar e realizar as exigências objetivas da lei.

Para Alford, isto mostra precisamente a continuidade entre os dois documentos. Ambos procuram manter o ideal cristão do casamento e, ao mesmo tempo, reconhecer as dificuldades concretas com que muitas pessoas se confrontam.

“Ambos os Papas estão preocupados em manter o ideal, a lei que é um dom de Deus que aponta o caminho, e em reconhecer que muitos não são capazes de compreender, apreciar ou realizar plenamente as exigências objetivas da lei”, afirmou, numa intervenção citada pela EWTN News.

Entre a Familiaris consortio e a Amoris laetitia decorreram 35 anos, durante os quais, observou, “a situação vivida da vida familiar cristã” sofreu profundas transformações. Em contextos sociais que mudam rapidamente, acrescentou, pode ser necessário encontrar novas formas de articular as exigências objetivas da lei com a experiência concreta das pessoas.

Alford rejeitou assim uma leitura da Amoris laetitia como rutura com o ensinamento anterior, apresentando-a antes como uma resposta pastoral desenvolvida num contexto histórico diferente.

 

O Evangelho “das e para as famílias”

Irma Helen Alford intervem na abertura do encontro sobre Amoris laetitia. Foto Vatican Media 2

“As famílias são muitas vezes o lugar onde a Boa Nova é recebida e de onde chega aos mais desfavorecidos”, assinalou Alford. Foto © Vatican Media

A intervenção procurou também explicar o que significa, neste contexto, proclamar o Evangelho “das e para as famílias”, expressão retomada por Leão XIV na mensagem que deu origem ao encontro.

“As famílias são muitas vezes o lugar onde a Boa Nova é recebida e de onde chega aos mais desfavorecidos”, assinalou Alford. Por isso, acrescentou, a família é simultaneamente “Igreja doméstica” e “célula vital para transformar o mundo”.

A proclamação do Evangelho às famílias, defendeu. é especialmente necessária quando estas atravessam situações de sofrimento, tensão ou rutura. Para a religiosa, a resposta cristã à fragilidade não consiste em abandonar o ideal, mas em acompanhar as pessoas a partir da realidade concreta das suas vidas.

Alford citou, neste contexto, uma passagem da Amoris laetitia: “Nas horas mais sombrias da vida de uma família, a união com Jesus no seu abandono pode ajudar a evitar uma rutura”.

A fragilidade familiar pode, assim, tornar-se um lugar de experiência da graça. “A beleza da vocação ao casamento encontra-se através, com e na sua fragilidade”, afirmou. A fraqueza pode despertar a confiança em Deus e essa confiança, por sua vez, pode despertar o desejo de santidade.

 

O olhar de Jesus sobre a mulher samaritana

Para desenvolver esta ideia, a presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais recorreu ao episódio evangélico do encontro de Jesus com a mulher samaritana. Esta encontra-se numa situação familiar marcada pela fragilidade, mas Jesus não a reduz à sua história nem ignora a verdade da sua vida. A conversa conduz ao reconhecimento dessa realidade e, posteriormente, transforma a mulher em testemunha diante da sua comunidade.

Alford relacionou o episódio com o “olhar de Jesus”, uma expressão particularmente associada ao pontificado de Francisco. Jesus vê a pessoa na sua realidade completa: vê as suas falhas, mas também a possibilidade de uma vida nova.

É esse olhar que, segundo a religiosa, é necessário recuperar quando se fala das relações familiares. As relações não são objetos que possam ser vistos fisicamente, mas estruturam a existência humana. Por isso, é necessário aprender a “ver” as relações e a compreender a família como uma realidade essencialmente relacional.

A própria Amoris laetitia, recordou Alford, cita várias vezes o episódio da mulher samaritana. A passagem permite ilustrar uma dinâmica de evangelização que começa pelo encontro, passa pelo reconhecimento da fragilidade e conduz ao anúncio aos outros.

 

Ajudar os jovens a escolher o casamento

A continuidade entre a Familiaris consortio e a Amoris laetitia não significa, para Alford, ignorar as mudanças da sociedade. Pelo contrário: exige encontrar formas de apresentar o ideal cristão do casamento que tenham em conta a realidade concreta em que vivem hoje os jovens.

Num mundo “altamente instável”, afirmou, é necessário ajudá-los a ter coragem para entrar no casamento e, simultaneamente, proporcionar-lhes instrumentos para enfrentar as dificuldades que inevitavelmente surgirão.

Os jovens precisam, por isso, de aprender a olhar para o casamento e para a família “de uma forma relacional”, reconhecendo os vínculos que sustentam a vida familiar e a sua missão.

No final da sua intervenção, a religiosa deixou um apelo aos participantes no encontro: procurar formas de “encorajar os jovens a assumir o grande desafio do casamento e da vida familiar”, sabendo que a fragilidade fará parte desse caminho.

É precisamente nessa fragilidade, concluiu, que podem descobrir “novas e inesperadas fontes da graça de Deus” e experimentar um desejo de santidade que lhes seja próprio.

 

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